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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Quando os trens param




O significado da paralisação do metrô paulistano não deve ser subestimado. Não se trata de simples parada ocasional dos transportes sobre trilhos, como as que ocasionalmente ocorrem em qualquer grande lugar do mundo quando falham os mecanismos de negociações entre empresas e empregados sobre critérios aplicáveis de reajustamento salarial.

Quanto maior o sobrecarregamento de linhas com o transporte de passageiros maior é o desgaste de equipamentos e também muito maior o esforço humano para operar o sistema. E ambos os fatores, o humano e o material, encontram-se em estado de profundo esgotamento na cidade de São Paulo.

A linha vermelha, que liga a zona leste a parte da zona oeste da capital é a que mais reflete essa exaustão. Construída na década de 70 como a primeira linha do metropolitano, aproveitou os trilhos da ferrovia Central do Brasil que faziam a ligação até o centro. Foi pensada como acessória ao transporte de passageiros por ônibus, no corredor que ainda hoje passa ao largo da linha, a Avenida Conde de Frontin e a radial leste.

Passaram-se 40 anos de crescimento contínuo do número de passageiros transportados, 20 deles de gestões comandadas por governos tucanos, sem que qualquer iniciativa de ampliação da capacidade de transporte dessa linha fosse tomada. A maior demanda foi atendida com automação das linhas até o limite da capacidade de carregamento.

No entanto, ao vertiginoso adensamento populacional dos bairros, motivado pela especulação imobiliária e melhorias viárias na região, não corresponderam níveis apropriados de investimentos que mantivessem os equipamentos em utilização ajustados a uma situação permanente de demanda intensificada.

Também os trabalhadores foram sobrecarregados em suas atividades e sentiram o peso dos desinvestimentos na remuneração, estímulos e planos de carreira. O processo de degradação culminou com a recente retirada de novas linhas da égide da empresa que acumulara conhecimentos para isso e sua transferência para empresas privadas, como a linha amarela na zona oeste da cidade.

Desse modo, o que deve ser visto nos episódios quase concomitantes do acidente com vítimas no metrô e na paralisação dos trabalhadores que o operam é o sucateamento geral do sistema, levado à cabo por políticas de governo que privilegiaram o transporte individual e obras viárias de eficácia duvidosa, como a ampliação das marginais, em detrimento do transporte de massa de qualidade.

Não pode o governador crer que a população vitimada por esse tipo de opção de políticas públicas creia em imputações de responsabilidade que tenham “grupelhos” ou partidos políticos como alvo. O que está em questão é certa visão de cidade e o lugar que ocupam nela os homens e mulheres que a habitam. E isso está ao alcance da própria população repensar.

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