Share it

sábado, 6 de setembro de 2014

NOVA REVIRAVOLTA: CAMPOS RECEBIA PROPINA


 
Perplexidade. Um segundo vendaval varre a campanha eleitoral de 2014. Exatamente quando aquele produzido com a morte de Eduardo Campos parecia arrefecer, dando lugar a uma disputa mais equilibrada entre Marina Silva e Dilma Roussef, eis que a delação feita à polícia judiciária pelo diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa sobre o pagamento de propina a políticos faz recair um verdadeiro ciclone sobre as duas candidaturas melhor posicionadas na corrida eleitoral.

A razão está no que virá a baila nas próximas horas no noticiário político, primeiro em doses discretas depois em doses cavalares, como produto das confissões do homem-bomba da estatal. Não apenas 4 dezenas de deputados da base aliada do governo na Câmara recebiam propinas regulares de fornecedores da Petrobrás, mas também o quase beatificado ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos. E não era pouco. Além do generoso pagamento de parcelas do jatinho que se espatifou, Eduardo Campos financiou boa parte de seu projeto eleitoral e de seu patrimônio pessoal com recursos desviados da construção da refinaria Abreu e Lima em seu Estado.

Para Dilma o caso causa constrangimento pelo amplo envolvimento de políticos que integram os partidos que lhe dão sustentação. Para Marina o efeito é devastador porque exuma seu padroeiro e o expõe – além de sua própria candidatura – como beneficiário de formidável esquema de propinas em muito superior àquele a que se deu o nome de mensalão.

Se antes a fraco suporte parlamentar de Marina atuava em seu favor, desvinculando-a da classe política e fazendo dela a continuadora da missão de Eduardo Campos, agora é a missão mesmo que se encontra em xeque: nada de nova política, nada de projeto alternativo que teria unido ela ao até agora mártir do Palácio Campo das Princesas.

Porque não há como negar que eleições no Brasil é antes de tudo uma disputa de personalidades, a de Dilma pode até sair fortalecida com sua esperada repulsa ao mal feito de políticos; a de Marina soçobra no mais fundo mar de suas contradições. Aécio, inimigo da Petrobrás, este tirou a sorte grande na fase final da corrida eleitoral.

 

 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O JEITO É LULA


 
 
Retomemos os acontecimentos. Lula recusou ser lançado novamente à presidência da República porque Dilma poderia tranquilamente chegar lá. Descontados efeitos retóricos do tipo “a companheira tem direito a um novo mandato”, decisões abdicatórias são válidas apenas quando por todas as contas se tem certeza da vitória do aliado ou, pelo menos, essa ocorrência pareça de todo provável.

Há muito que para o PT a escolha do candidato presidencial deixou de ser uma questão de nomes. A ideia chave utilizada pelo partido para a definição de sua chapa para as eleições de 2010 e também de 2014 foi a de “projeto”, ou melhor, "continuidade do projeto". Noção que aliás extrapolou o próprio campo do Partido dos Trabalhadores para ser utilizado como instrumento de crítica a defecções ocorridas no campo da esquerda. A mais exemplar delas o lançamento da candidatura presidencial de Eduardo Campos.

Na mais significativa declaração que Lula deu aos meios de comunicação sobre a pretensão do ex-governador de Pernambuco, afirmou: entendo os motivos de “ruptura” de Marina, mas os de Eduardo não compreendo; em seguida esmerou-se em falar do comprometimento do candidato com o que chamou de “nosso projeto para o País”.

Pois bem, morto Eduardo e mobilizados em torno da sua vice Marina Silva os setores mais avessos ao projeto que uniu um dia Lula e Eduardo, só resta ao primeiro assumir a responsabilidade pelo que foi um dia o elo que ligou os 3 a uma mesma perspectiva de governo: o aprofundamento da luta pela independência nacional.

Não é à toa que exatamente a Petrobrás esteja no centro da atual disputa presidencial. Eduardo a defendia, Marina não sabe como defendê-la diante dos aliados de ocasião e do fetiche relacionado ao que chama de energia suja.

Dilma, por mais merecedora que é de um segundo mandato não detém mais as condições obtê-lo. Falta-lhe representatividade e a confiança daqueles para quem governa. Seus traços pessoais, as circunstâncias e seus erros afastaram-na de setores cruciais para levar a bom termo uma campanha para a manutenção do projeto de que foi referência.

A Blindagem de que Marina está sendo beneficiária nos meios de comunicação mostra que faltam condições a Dilma de estar à frente do esforço para manter o projeto de mudanças que transformou o Brasil.

Diante da brusca alteração do quadro sucessório não há mais tempo de elaborar um pacto que traga de volta ao leque de forças que sustentaram esse projeto até agora setores que dele se desgarram. Desse ponto de vista é sintomática a resistência do ex-presidente da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e agora candidato ao governo de São Paulo, Paulo Skaf em subir no mesmo palanque de Dilma.

Apenas um nome símbolo teria a esta altura o condão de unir o País para impedir o retrocesso nas conquistas até agora alcançadas. Esse nome símbolo é o de Luís Inácio da Silva. Apenas ele pode garantir que este ciclo na história recente da nação se feche e não fique mais uma vez inconcluso como o foi em 1954 e 1964. Acreditar que o retorno do ex-presidente estaria assegurado daqui a 4 anos ou quando bem o desejasse seria subestimar a capacidade das forças pró-status quo de se reinventarem como o fizeram em 1986 e 1994 e como certamente o farão em 2018.

O jeito é Lula agora.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

VEXAME DO SELECIONADO NÃO AFETARÁ DILMA




Analista de política do jornal Valor Econômico reproduz na edição de ontem do diário (9/07/2014) análise do respeitado cientista político do CEBRAP e da Unicamp Marcos Nobre o qual afirma que as oposições a Dilma Russef não poderão extrais dividendos eleitorais da derrota sofrida pelo selecionado brasileiro frente ao da Alemanha. Acompanhe a interessante análise do estudioso.




VEXAME PODE REFORÇAR VOTOS NULOS
por Cristian Klein, para o jornal Valor Econômico

A derrota humilhante de 7 a 1 da Seleção brasileira para a Alemanha deve ter impacto na eleição deste ano, com aumento de votos em branco e nulos, mas provavelmente não beneficiará nenhum dos candidatos à Presidência. É o que prevê o filósofo político Marcos Nobre, do Cebrap e da Unicamp, autor do livro "Choque de democracia - Razões da revolta", sobre a eclosão das manifestações de rua no ano passado.

Para Nobre, a Seleção "sem meio de campo" é a metáfora perfeita para o governo Dilma Rousseff - "que não consegue se comunicar com os empresários, com os sindicatos, que se isola". Mas a presidente não deverá ser responsabilizada pelo fracasso do futebol brasileiro, na segunda Copa do Mundo sediada pelo país.

Em sua opinião, os dois principais candidatos da oposição, Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), não terão condições de culpar Dilma, já que se aproveitar do mau resultado do futebol pode ser um risco. "A oposição não pode capitalizar. É como comemorar a morte do inimigo no velório dele", afirma Nobre, para quem o Brasil passa a viver um luto, que deve ser reconhecido por Dilma Rousseff.

A vantagem da presidente, ressalta o filósofo político, é que Dilma procurou se identificar com o craque Neymar Jr. - que ficou fora da semifinal - mas não com o técnico Luiz Felipe Scolari, sobre quem deve recair a maioria das críticas. Na segunda-feira, Dilma imitou o gesto de Neymar com os braços em forma de T para reproduzir nas redes sociais o bordão "É Toiss!", pelo qual o jogador costuma cumprimentar os companheiros. Foi uma homenagem ao atleta depois que uma pancada na região lombar o tirou da Copa, durante a partida contra a Colômbia, nas semifinais.

Para Marcos Nobre, o marketing da campanha à reeleição de Dilma pode até se beneficiar ou pelo menos neutralizar possíveis efeitos da derrota com a estratégia de "salvar a imagem do país", "sair do luto", ao argumentar que o Brasil conseguiu fazer a "Copa das Copas", sem os transtornos de organização previstos. Seria a "parte boa" para se guardar do Mundial. E nisso Dilma poderia reivindicar os créditos pela realização do evento.

"Mas essa estratégia tem que ser muito sutil, pois o luto vai ser muito pesado", diz. Para Nobre, a única saída de Dilma é dizer: "Nós fomos bons anfitriões. Estamos de luto. Mas somos bons perdedores". O filósofo político crê que a presidente possivelmente será vaiada na entrega da taça, no domingo, no Maracanã, mas não xingada, como na abertura da Copa, pois o comportamento destes torcedores "pegou muito mal".

Para Marcos Nobre, a realização de protestos de rua por causa do vexame da Seleção é improvável, ao menos na proporção dos já observados neste e, principalmente, no ano passado. É preciso separar, destaca o professor, a existência de três instâncias: o futebol (a Seleção), a Fifa e os governos (nos diversos níveis: federal, estadual e municipal).

"O movimento #Não vai ter Copa não tinha a ver com futebol. Os manifestantes não podem dizer: 'A gente avisou'. Pois as críticas eram dirigidas à Fifa e aos governos, não ao futebol. Foi o futebol que fracassou. E ele é a imagem da sociedade. A sociedade fracassou. Não adianta buscar um culpado. Foi o Felipão? Foi o zagueiro da Colômbia que tirou o Neymar da Copa? O Thiago Silva? O Dante, que estava mal posicionado no primeiro gol? É um luto absoluto e não tem a quem culpar", diz.

O desânimo da sociedade, no entanto, pode reforçar uma tendência já detectada em pesquisas eleitorais desde os protestos de junho de 2013: o aumento dos votos em branco e nulo. "O grande risco dessa eleição, que vem do terremoto de junho, é o de os eleitores não encontrarem nenhuma esperança institucional, o de haver um aumento da descrença. A Seleção ser humilhada contribui para esse sentimento", afirma.

A falta de correlação entre resultados da Copa e o das eleições à Presidência, lembra Marcos Nobre, já está estabelecido no debate político brasileiro.

Por outro lado, o que é "muito frustrante", qualifica, é o grau de humilhação da derrota depois de um momento de alívio, em que o país e o mundo faziam o balanço de que a organização da Copa no Brasil deu certo. "Não só tudo deu certo, como fizemos o que nenhum país fez, que foi combater o comércio ilegal de ingressos. Não deu vexame e quando nos concentramos no futebol, aí acontece esse desastre", afirma. Na segunda-feira, Raymond Whelan, CEO da Match, empresa que detém direitos exclusivos de venda de pacotes e camarotes da Fifa, foi preso pela polícia, no hotel Copacabana Palace, no Rio.





 

terça-feira, 8 de julho de 2014

NOS BASTIDORES, ARTICULISTAS JÁ PENSAM EM LULA PARA 2018


 
 
 
Em jornal para empresário ler, os mais categorizados articulistas dão como favas contadas a vitória de Dilma nas eleições de 2014 e já passam a especular sobre o papel que Lula terá no segundo mandato a fim de garantir para si um novo termo. Da abordagem adotada depreende-se duas coisas com relação a 2018, além da certeza da candidatura de Lula: revelar-se-ão inviáveis no futuro novas postulações de Aécio Neves e Eduardo Campos; enxerga-se na liderança de Lula a única possibilidade de condução exitosa de uma segunda rodada de transformações que o mundo da política e dos negócios precisam. Segue o texto em que se baseiam tais considerações, publicado na edição de 7 de julho de 2014 do jornal Valor Econômico, exclusivo para assinantes.

Lula será protagonista político no 2º mandato

Por Raymundo Costa e Andrea Jubé | De Brasília

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se prepara para ser protagonista político no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, se ela vencer as eleições de 5 de outubro. A intenção de Lula é ter uma atuação "proativa" já a partir de janeiro de 2015, com o objetivo de manter unida a base política e social do governo. "Vai ser uma atuação do tamanho da liderança política dele", disse ao Valor um interlocutor do ex-presidente.

Os mais próximos de Lula descartam a hipótese de que esse ativismo seja interpretado como interferência indevida em assuntos do governo ou poder paralelo. Pelo contrário, avaliam que isso forçará Dilma a conversar e negociar mais - movimentos que ela evitou no primeiro mandato. "Ela vai ter de incorporar isso no processo político", disse a fonte.

Lula deverá liderar o debate sobre propostas que Dilma eventualmente não queira tomar a frente, como seria o caso do projeto de regulamentação dos meios de comunicação eletrônicos, que são concessões públicas, defendida por aliados como o presidente do PT, Rui Falcão, e o ex-ministro Franklin Martins.

Ele também pode ter uma posição diferente do governo sobre assuntos econômicos, como, por exemplo, a política de desonerações, para citar um caso.

Essa atuação "proativa" promete se intensificar a partir do segundo ano do eventual último mandato de Dilma, pois Lula já se coloca à disposição para voltar em 2018, "se o povo quiser um velhinho", diz a fonte.

Do ponto de vista do lulismo, a presidente Dilma é a chefe de governo e de Estado; mas a principal liderança do projeto político do PT é Luiz Inácio Lula da Silva.

No primeiro mandato de Dilma o ex-presidente procurou se manter ao largo, sobretudo nos dois primeiros anos, para não dividir a base econômica e social na qual se assenta o lulismo. Outro fator que o manteve longe dos holofotes foi o tumor na laringe.

Mas quando 1 milhão de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo e exigir serviços públicos "padrão Fifa", em junho do ano passado, Lula apareceu rapidamente para tentar socorrer Dilma, que viu sua popularidade despencar. Gravou um vídeo exortando a militância petista a se engajar na campanha pela reforma política sugerida pela presidente.

Depois, Lula voltou a submergir. O ex-presidente aumentou as participações em eventos públicos neste ano, a ponto de alimentar o "Volta, Lula" e ser obrigado a reiterar declarações de que a presidenciável do PT era Dilma e não ele. Lula e Dilma discutiram o assunto a sós, numa reunião em São Paulo. Lula pediu que a presidente tomasse a frente de sua campanha.

Depois disso, o ex-presidente teve uma reunião no Instituto Lula com o ex-ministro Franklin Martins e o publicitário João Santana. Dilma ficou sabendo e cobrou a ausência de seu ex-chefe de gabinete Giles Azevedo. Lula respondeu que fora encontro de ocasião. Ele aproveitara a presença de Franklin e Santana no Instituto Lula, após uma reunião, para trocar impressões sobre pesquisas.

Outro mal-estar que persiste nas relações deve ser corrigido nos próximos dias: a efetiva participação do ministro Gilberto Carvalho (Relações Institucionais) na campanha da presidente. O ministro, que é o mais próximo amigo de Lula ainda no governo Dilma, só ainda não fora incorporado porque a presidente não o liberara, como fez com Giles, que era seu chefe de gabinete na Presidência.

Confirmada a candidatura dilmista na convenção nacional do PT em junho, Lula voltou a buscar os holofotes de forma sistemática. Tem participado de atos políticos com e sem a participação de Dilma. E começou a falar mais. Deu entrevistas para blogueiros escolhidos por ele, falou para o SBT e para a imprensa internacional. Esses movimentos, entretanto, são amostra tímida do "canhão político" que se pretende afirmar na eventual continuidade do PT no poder.

Lula e Dilma chegam ao início da campanha eleitoral, que começa oficialmente no dia 6, depois de superar um período de turbulências por causa do "Volta, Lula".

O ambiente na campanha de Dilma é de profundo ressentimento com a imprensa, a quem se atribui o clima de pessimismo com a realização da Copa do Mundo. "O 'Não Vai Ter Copa' perdeu para a 'Copa das Copas'. Ganhamos de goleada", diz um dos integrantes da coordenação de campanha de Dilma.

A cúpula da campanha petista considera que venceu uma "batalha preliminar da campanha eleitoral", que foi "duríssima", segundo expressão de um de seus integrantes. Agora, com o início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão - e o PT com o maior tempo dos candidatos - avaliam que Dilma terá chance de mostrar suas realizações.

"Vai ser uma campanha entre quem tem o que mostrar e quem tem o que esconder", define este integrante da campanha.

O "Não Vai Ter Copa", segundo fontes próximas de Dilma e Lula, "foi uma derrota política da oposição". A campanha da presidente considerou "lamentável" a atitude de Aécio Neves e Eduardo Campos em relação às vaias recebidas pela presidente na abertura da Copa do Mundo.

Entende-se que eles não reagiram com firmeza às vaias recebidas pela presidente da República, que estava no Estádio do Itaquerão para abrir a Copa. Os dois teriam reagido como quem diz "ela está colhendo o que plantou".

A crítica é especialmente rigorosa em relação ao candidato do PSDB, Aécio Neves, que na visão da campanha de Dilma cedeu ao "discurso do ódio", quando poderia adotar uma postura mais leve e positiva, que o preparasse para sair da eleição de 2014 com um discurso pronto para 2018.

sábado, 7 de junho de 2014

Professor da FGV faz análise original e diz que Dilma vence em primeiro turno






O texto que você lerá abaixo, do professor César Zuco da FGV, é um dos mais interessantes publicados na imprensa diária sobre a disputa eleitoral que transcorre neste momento no Brasil. A análise nele desenvolvida se destaca das demais por estabelecer referenciais estruturais, válidos para o conjunto dos países latino-americanos, para avaliar as chances reais de reeleição de mandatários ou de seus apoiados sem as distorções produzidas pela injunção dos acontecimentos mais imediatos responsáveis por oscilações conjunturais na posição relativa dos candidatos.
Por essa análise, apenas uma hecatombe (nas palavras do autor) poderá impedir Dilma Russef de ser reconduzida ao Palácio do Planalto, ainda em primeiro turno, nas eleições que se avizinham. Ao texto.

Conjuntura desfavorável, estrutura nem tanto


O ano eleitoral traz consigo o "império da conjuntura", quando cada fato ou factoide novo é examinado à exaustão por analistas e interpretações muitas vezes conflitantes são "repercutidas" pelas equipes de assessores e simpatizantes dos principais postulantes à Presidência.

É compreensível, e até mesmo justificável, que este esporte torne-se mania nacional. Afinal, a enxurrada de novidades potencialmente relevantes é tanta que a campanha presidencial - e consequentemente o país - parecem poder tomar um novo rumo a qualquer momento.

Há evidências, no entanto, de que talvez a conjuntura não seja tão relevante quanto tendemos a crer. As eleições presidenciais americanas, por exemplo, podem ser previstas com bastante precisão mais de um ano antes do pleito, com base em variáveis econômicas que mudam apenas lentamente. A intenção de voto do eleitor americano varia bastante, e às vezes bruscamente, ao longo do período eleitoral, mas teima em convergir para a estimativa "estrutural" feita antes mesmo de se conhecer a identidade dos candidatos.

Cenário econômico externo sugere que Dilma será reeleita

O Brasil difere dos Estados Unidos em muitos aspectos e não temos uma série longa de eleições para analisar. Cabe perguntar se é possível, dados os limites impostos pela existência de apenas seis eleições presidenciais, fugir da análise meramente conjuntural e tentar interpretar os sinais estruturais para a eleições de outubro.

Duas formas razoáveis de contornar a falta de dados incluem tanto a comparação do Brasil com países parecidos, quanto a mudança do foco da análise de resultados eleitorais para a aprovação de presidentes, para a qual temos uma série longa de dados.

Em países que, como o Brasil, exportam commodities e importam capital, duas variáveis econômicas internacionais - preços de commodities e a taxa de juros americanas - exercem forte influência sobre a economia doméstica, e, por sua vez, afetam o sucesso de presidentes. Estas duas variáveis podem ser combinadas num único indicador de "bons ventos" econômicos, que revela um mapa bastante intuitivo e acurado do cenário econômico internacional ao longo das últimas décadas para esses países: condições extremamente desfavoráveis nos anos 80, melhora progressiva até meados da década de 90, uma breve porém significativa deterioração no fim daquela década, e uma melhora sem precedentes a partir de 2002. O índice atingiu seu máximo em meados de 2011 e desde então vem caindo.

O índice de "bons ventos" tem um impacto muito grande na probabilidade que qualquer presidente latino-americano se reeleja ou eleja seu sucessor, e nos ajuda a entender por que poucos governos elegeram sucessor nos anos 80 ou na virada do século.

O índice explica também grande parte da variação da avaliação de presidentes brasileiros desde 1988. Seu impacto é indireto, afetando inúmeras variáveis econômicas domésticas como crescimento, inflação, desemprego, nível de renda e taxa de câmbio. Estes indicadores se combinam para afetar a percepção da população, mas a influência de cada uma depende muitas vezes do nível dos demais, e as associações entre eles tornam a tarefa de separar os efeitos de cada variável na aprovação longe de trivial. O uso do indicador externo, portanto, simplifica a análise ao passo em que retém grande poder explicativo.

Convém salientar um ponto fundamental que decorre da análise. Nós - assim como os demais latino-americanos - avaliamos governos com base em resultados que em grande parte não são causados ou controlados por eles. Atribuímos inteiramente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o sucesso econômico de seus governos desconsiderando que o cenário externo era extremamente favorável, e não descontamos o fato de a presidente Dilma Rousseff estar governando durante um período bem menos benigno. Este erro de atribuição, por sinal, é frequentemente cometido tanto por eleitores comuns quanto pelos mercados hiperinformados e racionais.

As vésperas do protestos de 2013, a taxa de avaliação positiva da presidente Dilma estava nos níveis previstos pelo contexto econômico internacional. Despencou, recuperou-se parcialmente, mas ainda está bastante abaixo dos cerca 55% que seria de se esperar hoje. O índice de "bons ventos" segue em queda, tendo baixado cerca de 20% desde o pico. Apesar da direção ser negativa, o seu nível é superior ao de 2006, e ainda bastante positivo em termos históricos.

Na falta de uma bola de cristal, o passado é o melhor guia para antecipar o futuro. Projetando um cenário razoavelmente pessimista para os próximos seis meses, com algum aumento na taxa de juros americana e queda adicional das commodities, a experiência dos últimos 25 anos indica que a presidente deveria chegar em outubro com mais de 45% de avaliações entre boa e ótima. Não há uma maneira precisa de traduzir esta popularidade em votos, mas sabe-se que ela tende a ser mais direta nas eleições em que o presidente é candidato a reeleição.

Em resumo, a não ser que tenhamos ingressado em um mundo completamente diferente do que existia antes de 2013, e que a avaliação do presidente tenha se desconectado de seus determinantes estruturais históricos - uma possibilidade que não podemos nem confirmar nem descartar - há poucas chances de o governo perder a eleição.

Apesar da minha ênfase em determinantes estruturais, é evidente que a conjuntura pode não colaborar. Porém, exceto por um cataclisma político da dimensão de um apagão elétrico, uma maioria esmagadora das pequenas e médias incógnitas conhecidas ou desconhecidas a serem realizadas entre agora e outubro teriam que desfavorecer o governo. Isso pode até acontecer, mas a probabilidade de tal conjunção é baixa.

Assim, este exercício sugere que a sensação difusa, porém geral, de que a eleição de 2014 será extremamente competitiva seja, talvez, fruto de uma valorização excessiva do conjuntural em detrimento do estrutural.

Cesar Zucco é cientista político, professor da FGV-Ebape e colunista convidado do Valor. Publicado no jornal Valor Econômico de 6 de junho de 2014.





 


 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

É DEVAGAR DEVAGARINHO


 
Se você assiste a Rede Globo como eu para divertir-se com as artimanhas dos grupos que se expressam por meio daquela emissora deve ter deixado escapar laivos de prazer na exibição da última edição do Jornal das Dez, nome com que é conhecido o melhor produto jornalístico da empresa.

Foi ali que o porta-voz dos controladores, Merval Pereira, fez um divertido caminho de volta daquilo que poderia ser considerado verdadeira narrativa apologética da conduta dos manifestantes que foram às ruas em junho do ano passado.

Na época parecia que os operadores da máquina de propaganda representada pela emissora, estavam convencidos de que a contundência dos atos poderia levar o governo à lona e dar passagem a figuras políticas novas vindas a luz das labaredas de um Planalto em chamas.

Apenas que o ímpeto dos movimentos de rua, como ficou claro depois, dirigiu-se bem mais aos pilares do status quo, que tem na mídia e nas instituições de poder político e financeiro símbolos naturais, que à figura de um governo aberto a reivindicações populares e ao projeto mais geral de radicalização democrática, com inclusão dos mais pobres e seu direito à expressão política.

De outro modo, de ato em ato o alvo passou a ser a mídia (diga-se a própria Organizações Globo), o aparato repressivo de Estado, a representação política congressual e os conglomerados financeiros privados.

Os Black Blocs, com seu ativismo violento, apenas deram visibilidade a esses alvos estruturantes da dinâmica concentradora do capital, cujo não questionamento tornaria incompreensível os meios pelos quais o atendimento à extensa pauta verbalizada nas ruas seria um dia possível.

A morte do cinegrafista da concorrente Band acendeu na Globo o alerta vermelho “no ar”, com que as emissoras de broadcasting alertam seus profissionais de que as transmissões estão em andamento. Foi o fato-limite que fez a emissora levar à tela o dublê Merval Pereira, para dizer que a lei agora em gestação no Ministério da Justiça para conter atos de agressão e violência política é benvinda e necessária (o que abertamente não disse) ao ambiente de negócios em que proliferaram os bilhões da família Marinho e de seus anunciantes.

Ponto para Dilma, que devagar devagarinho dobrou seu mais poderoso adversário político. 

 

sábado, 5 de outubro de 2013

Quem perde quem ganha





A decisão de Marina Silva de filiar-se ao PSB e figurar como vice na chapa desse partido à presidência da Republica atinge em cheio as pretensões eleitorais dos tucanos de chegarem ao segundo turno das eleições de 2014.

A decisão da ex-ministra de Lula de aliar-se a outro ex-ministro de Lula, Eduardo Campos, marca o fim de uma era em que a opção liberal para a sociedade brasileira ainda era vista como alternativa ao trabalhismo de esquerda do partido dos trabalhadores.

Não irá ao segundo turno o candidato Aécio Neves por haver ensejado com o discurso totalizante de “ser contra tudo que esta ai" a rejeição definitiva ao modelo tucano de economia e sociedade, orientado pela lógica do capital financeiro e submetido as forças tendenciosamente cegas do mercado.

Ainda que haja um perdedor de fato com a decisão de Marina Silva, o partido dos tucanos, não consta que haja um ganhador certo. Nada sugere que ao colocar-se como força reparadora das incongruências reais e imaginarias do governo em exercício possam os que dele dissentiram convencer a parcela do eleitorado disposta a apoiar Dilma Russef nas próximas eleições de que colaboradores possam se sair melhor que seus chefes.

Isso porque não existem 3 modelos de sociedade forjados pelos mesmo processo histórico que teve sua ruptura com o fim do governo de João Goulart. Disso sabem o neto de Miguel Arraes que com Jango ombreou nas lutas que culminaram com o golpe militar de 1964 e a companheira de Chico Mendes. a quem o partido dos trabalhadores deveu parte da seu mito de origem.