quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A herança a causa de toda a desgraça



Passava das 17 horas quando o aposentado Francisco, vergando o peso de mais de 150 anos do nome de família mas sem um tostão no bolso, adentrou a casa onde morava com a mãe e mais duas irmãs - solteironas como ele, mas unidas entre si pelo acordo do desfrute comum da partillha de alguns bens - e questionou-as sobre a recusa a uma reunião programada em que se discutiria o testamento da mãe já com seus 90 anos de idade.

Esse ramo definhado da família há muito deixara de ostentar a pompa que outros dela ainda ostentavam já que a matriarca Ana Pacheco de Almeida Prado não casara-se, como os demais membros da família, com primos cosanguíneos; sendo ela mesma  a terceira entre nove netas do patriarca Vicente de Almeida Prado de cuja prole de 11 filhos contavam 9 mulheres.

Entre brasões e brindes no Clube Jahú para cultivar a memória dos antepassados, quase uma centana de membros do que restou da clã dos Almeida Prada até hoje reune-se a cada 2 anos para manter viva a lembrança das condecorações imperiais e das insígneas dos fundadores da República, cuja prova de maior nobreza é sobrado onde hoje está instalado o museu da República em Itú. Casa de outro de seus mais ilustres membros, o fazendeiro e cafeicultor Francisco de Almeida Prado, que ali viveu à partir da segunda metade da década de 1860.

Mas é sabido que falta de dinheiro e tradição raramente combinam. E assim foi que a cobiça e a ambição em torno de algumas poucas casas velhas e de um sítio do que restara da partilha de fazendas que chegaram a cobrir a maior parte das terras férteis entre Jahu e Itú onde os irmãos Lourenço e Vicente Almeida Prado instalaram em 1858 a fazenda Pouso Alegre, trouxeram a tragédia à pacata casa em que moravam os sexagenários Francisco, Ana Carolina e Ana Cecília. Ele ex-bancário, elas professoras aposentadas.

Tendo reservado para si a casa na rua Paissandu, modesta para o prestígio de que desfrutava a família na conservadora Jahu, e para Francisco uma faixa de terra seca nas cercanias da cidade, as duas irmãs naquele fim de tarde em que jogava Vasco e Corinthias tiveram de enfrentar a fúria de Franscisco que voltava de assistir a partida duplamente decepcionado, com o resultado do jogo e com o conluio das irmãs.

Bastaram poucos minutos de uma discussão em tom baixo e sem testemunhas para que Francisco fosse à gaveta da escrivaninha, retiresse o coldre com o revolver cabeado com madre-pérola e municiado com cinco balas, tornando, para sem mais palavra, alvejar primeiro Carolina ainda na sala de jantar e depois Cecília, que se refugiara no alpendre. Disparou em seguida contra a própria cabeça, pondo fim assim inusitadamente às frustações de vida inteira de herdeiro de uma dinastia a quem restara nada além dos proventos do INSS e um terreno de periferia.

A mãe Ana Pacheco, ao ouvir os tiros, acorreu à parte principal da sala já quando os corpos estavam inertes. No quintal mobilizou a força que os 90 anos lhe permitia e clamou pela ajuda dos vizinhos. Anoitecia, e ao primeiro policial militar que chegou ao local murmurou em voz quase inaudível: “ foi a herança, foi a maldita herança a causa de toda a desgraça...”


2 comentários:

  1. ...Triste isso!...as pessoas se matam por herança,sem saber,que seriam mortas de qualquer maneira...com os cofres cheios...mas sem a estrutura, o carinho a proteção e segurança de se saber amado que o seio familiar proporciona!...muito triste mesmo!...

    ResponderExcluir
  2. caixão não tem cofre

    ResponderExcluir