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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma estratégia de campanha para Haddad: o Serruf

Há um quê de dèjá vu no lançamento de Serra. Não exatamente na apresentação de seu nome às eleições, por todos de algum modo esperada.
O que parece soar como nota repetida é o quadro dominado pela figura de um candidato da velha guarda que polariza o debate político, numa espécie do conhecido refrão “daqui pra frente tudo vai ser diferente”. Em outras palavras, a lembrança da figura de Maluf.
E é este o calcanhar de Aquiles de Serra nesta eleição. Não é o fato de haver renunciado sucessivamente à prefeitura e ao governo do estado para pleitear a presidência da república, nem seu perfil pouco carismático de quem tudo sabe e tudo fez, contudo sem nunca ter experimentado qualquer entusiasmo pelo que aprendeu ou realizou.
Isso, Serra é como Maluf: uma central de repetição de discursos; um ser robótico autoprogramado para levar a termo a missão mesmo que a custa da implosão do ambiente em que se move, o seu partido. Como ente cibernético de filme de ficção, não tem pertencimento a nada senão que os objetivos o têm sob completo domínio.
O que existe de repetitivo em Serra é o que o distância de seus concorrentes nas eleições para prefeito de São Paulo deste ano. Que tenha feito isso ou aquilo interessa apenas à parcela dos eleitores que possuem identidade ideológica com o candidato, por considerarem de maior valia a garantia de permanência e de conservação do passado, veiculado num discurso que repete a si mesmo.
Talvez os partidários da tese de que o ex-governador é competitivo nestas eleições deixaram de tomar conhecimento dos estudos divulgados pela Federação do Comércio, nos últimos dias de fevereiro de 2012, de que a classe média brasileira passou a compor 61% da população desde 2003, ano em que não chegava de 50% do total. Para o diretor da entidade, o fenômeno mostra a clara tendência de que esse contingente populacional continuará a crescer nos próximos anos, trazendo consigo um aumento de renda das camadas de mais baixa renda da população.
Não entendem aqueles que se empolgam com a candidatura Serra que estão em andamento mudanças abrangentes na estrutura de classes da sociedade brasileira, e que também na superestrutura política existe uma demanda enorme por mudanças que coloquem o estado em sintonia com a pujança dessa nova sociedade emergida de uma década de expressivo desenvolvimento econômico.
A aposta na mesmice que faz o PSDB com seu candidato “preparado” revela isto sim o completo despreparo das oposições para intervirem nas atuais circunstâncias que o País vive, de florescimento da moral, do ânimo e da confiança no futuro; próprios a uma nação que atravessa transformações históricas.
Percebido este descompasso, não precisam os candidatos que representam a expectativa de mudança insistir na lembrança de que Serra é contumaz no abandono de promessas de servir à população paulistana. Basta-lhes lembrar do quanto Serra lembra Maluf, do quanto seu discurso contém de passadista. Basta-lhes soprar na brasa incandescente do Brasil que cresce a confiança no que virá e o destemor de que as novas gerações possam conquistá-lo.
Afinal, Serra e Maluf estão juntos. Não estão?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Recriação de um conto iraniano



Conta-se que em Teerã, ainda antes que o Zoroastrismo ganhasse a devoção dos habitantes, vivia nas vielas daquela cidade vestida de branco, com suas paredes caiadas e de calçamento irregular, um homem chamado Toriri.

Conhecido como uma boa pessoa, dedicava sua vida a praticar o bem. Generoso e oferecia a quem demonstrasse desânimo um sorriso e uma palavra de estímulo.

Atendia aos velhos nas praças e não deixava qualquer pedinte sem uma moeda. Cultivava a literatura e defendia os desafortunados das injustiças dos poderosos. Não tinha inimigos e sua expressão de serenidade jamais se turvava diante da contrariedade ou ofensa. Por esse motivo era amado pela sua gente, na vida tão comum que levava.
Mesmo sendo casado com uma mulher que lhe parecia o oposto, por agressiva e intolerante que era, Toriri curvava-se a sua irrascibilidade e sempre buscava atenuar-lhe o mau humor com palavras gentis e com estrofes de Saadi, o poeta das rosas.
Na gruta, à saída da cidade, vivia outro homem tido também como bom e justo entre os seus, o eremita Maitreya . Recolhera-se ainda jovem à vida de asceta e o tempo de décadas fizera de seu corpo uma esfinge envolta em longos cabelos negros e barba espessa que vestiam seu corpo enrijecido pela abdicação de todo conforto.
Visitado por peregrinos nos dias de solstício de inverno, certo dia ouviu de um deles o relato sobre Toriri. Disse-lhe o peregrino que na cidade havia um homem muito bondoso em quem todos confiavam como guardião do bem junto à comunidade. Disse também que se pudesse o deus Ormuzd ouvir ao seu simples anseio de peregrino, permitiria que Toriri dispusesse do poder, ainda que por um dia, de tornar realidade tudo que jazia em seu bom coração.
O asceta depois de ouvir o pedido do peregrino e confiante que a virtude divina não favorecia aqueles que viviam na licenciosidade dos homens senão no silêncio da reclusão, ergueu os braços descarnados lentamente para os céus e pediu ele mesmo a Ormuzd que atendesse àquele peregrino, dando prova a todos do significado da devoção.
Ao terminar sua imprecação, relâmpagos luziram o céu, chispando os olhos do profeta, cristalizados como a pedra dura. Ao mesmo tempo seus lábios descolaram-se um do outro para dizer que Ormuzd haveria de atender aquele pedido. Disse que o deus houvera concedido a Toriri o dom de fazer realizar o primeiro desejo que lhe viesse ao coração, no primeiro momento do despertar de cada manhã.
O peregrino, que não conteve o júbilo, regozijou-se com tamanha concessão e pôs em palavras seu pensamento na caverna escura, exclamando que a cidade viveria dali em diante uma  era de prosperidade e ventura. Pudesse enxergar pela densa barba do asceta veria a balançar um tênue sorriso de dúvida.
Foi assim que Toriri despertou na manhã seguinte e beijou a fronte da mulher como fazia todos os dias, ao que ela num ímpeto de desespero correu à janela e projetou-se por sobre o parapeito. Ao descer atônito deu à rua com um grupo de mendigos de sempre, mas ao depositar-lhes  as moedas nas mãos, antes que estas se fechassem, seus corpos vieram desfalecidos ao chão. Consolado depois da morte da esposa pela mais bela moça da cidade,  Mandanik, que o tinha em tamanha consideração, ao afeto do seu abraço o belo corpo da jovem caiu morto ao solo.
Naquela noite mesmo Toriri pôs fim à própria vida, fazendo atravessar um punhal no coração. Por vontade de Ormuzd, terminou também na mesma noite  a vida terrena do asceta. Foi uma noite sem lua, em que o povo recolheu-se entristecido ao silêncio das suas casas.
No reino de Ormuzd, o homem comum e o asceta apresentaram-se ao grande deus para colher a recompensa final por uma vida digna. Dirigiu-se a divindade aos dois, que de cabeça baixa aguardavam pelo veredicto com diferentes sentimentos na alma. Toriri de fracasso, Maitreya de confiança no reconhecimento.

Disse-lhes o deus:
- Toriri, tu que soubestes ser humano entre humanos, contribuindo com a construção dessa civilização que guardo com meu cajado, abro a ti as portas do meu reino. Por certo te dilacera o coração o desgosto pelo que presumes ser o mal em que incorrestes, mas saibas, meu bom Toriri ,que o primeiro sentimento de um homem é sempre imperfeito. É animado pelo egoísmo, que nada mais é que morte do que lhe é alheio. Vê Toriri, que sufocar o impulso primeiro tornando a ventania da pusilanimidade em brisa de acolhimento, é essa a maior conquista de um homem no mundo inteiro!

E continuou:

- A você, Maitreya, também concedo a vida no paraíso, apenas por compreender a falha de quereres viver em reclusão. Fossem todos os homens como tu e a humanidade pereceria na busca insensata deste mundo perfeito que não é o dela, mas o meu. Zelo para que a humanidade se faça mais humana pela vida imperfeita que vive na terra e tu, Maitreya, foi guiado pelo egoísmo de querer chegar ao reino dos céus antes que os teus.
Por fim sentenciou:

- a ti, Toriri, ofereço o meu reino porque sou justo; enquanto a tu, Maitreya, concedo-te o perdão porque sou generoso.

Diante de deus Toriri baixou os olhos e chorou, Maitreya ergueu os seus e agradeceu. 

(na gravura, o poeta Saadi de Shiraz)      

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Eva de Kassab

O que tucanos mais ingênuos não conseguem entender é que por detrás da candidatura de Serra está a urdidura de um plano que tem em vista fortalecer o partido de Kassab a ponto de permitir a Serra no futuro liderar uma dissidência dentro do PSDB.

O Plano visa dar a ele ou a um outro, que não Aécio (Marina Silva, quem sabe) condições de viabilizarem-se candidatos à presidência da República, com o apoio do grande partido de centro-direita que será o PSD.

O ex-governador demorou a lançar-se às previas de seu partido porque preferiu antes impor uma rendição incondicional ao seu rival Geraldo Alckimin, ameaçando-lhe com a possibilidade de o recém-criado partido de Kassab vir a tolher seu caminho de retorno ao palácio dos Bandeirantes quando da tentativa de reeleição em 2014.

Nesse sentido, a entrada abrupta de Serra na disputa nada tem a ver com o desprendimento de pretender fortalecer o PSDB no estado a fim de tornar mais fácil a manutenção do poder por mais quatro anos em São Paulo, findo o governo Alckmin.

Trata-se da tentativa de instituir uma polaridade em São Paulo que permita aos de seu grupo acomodarem-se à frente de um novo bloco político uma vez manifestos os inevitáveis efeitos de fadiga de material, depois de concluídos os 20 anos de controle do governo do estado pelo PSDB.

Serra tem os olhos postos no futuro. Sabe que é uma imposição do jogo democrático a alternância de poder e prepara a construção de um partido que nasça em 4 ou 5 anos dos escombros do PSDB, dando uma segunda costela ao PSD. Em face desse projeto, talvez nem Alckmin tenha garantias do apoio de Kassab, e, portanto, de Serra, nas eleições de 2014.

Quem será usada nesse jogo de dissimulações que move a caciquia partidária, é a militância do partido. Pensando ganhar as eleições para a Prefeitura de São Paulo e com isso salvar o partido de uma derrota para o PT, estará, isto sim, cavando – como diz Cartola em uma de suas mais belas canções – um abismo com os próprios pés.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

O velhaco e a falecida

A que ponto pode chegar o jornalismo velhaco de algumas emissoras de TV é algo impossível de prever.

Ao noticiar a morte de Eliana Tranchesi, dona da boutique de luxo Daslu, o jornalista Boris Casoy arrematou a matéria que fora ao ar no telejornal por ele apresentado, com o comentário de que a comerciante teve a morte apressada devido ao fato de haver sido usada para fazer névoa ao escândalo político conhecido como “mensalão”, durante o governo Lula.

Não bastasse a impropriedade de invadir com seu comentário a seara médica, atribuindo a causas emocionais o câncer que vitimou Tranchesi, o apresentador esquece-se que a invasão autorizada da loja para apreensão de documentos revelou-se rumorosa em razão da notoriedade que havia adquirido, no Brasil e no exterior, o negócio da empresária como símbolo da ostentação e do pagamento de preços milionários por consumidores de altíssima renda.

A repercussão do desbaratamento da quadrilha que agia sob mando da socialite e de seu irmão, preso na ocasião, não foi senão consequência  da estratégia de marketing que ambos adotaram para a atração de clientes, fazendo-os crer que a simples frequência à glamurosa loja de 17.000 m² era distinção o bastante para colocá-los entre VIPs do mundo.

Mostrado à sociedade como simples esquema de fraudes que era, tomando aos ricos e ao governo, a prisão dos Tranchesi transformou-se em fato midiático pela simples surpresa que o episódio causou ao próprio público lesado e ao restante da população, que via com estranheza tamanha concupiscência das pessoas envolvidas.

Definitivamente, se a mortalha de mártir não caiu bem à falecida Eliana Tranchesi, o papel de oportunista coube à perfeição ao apresentador.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Eternamente devedor

Quem já não atrasou uma prestação ou calibrou mal o orçamento pessoal e incorreu numa dívida que não podia pagar?
Muita gente, inclusive juízes e altos executivos. Pois o Tribunal Superior do Trabalho julgou procedente a prática de empresas de contratar funcionários mediante prévia consulta a organizações comerciais que elaboram cadastro de inadimplentes, como SERASA e SPC.

A decisão, que vem sendo chamada de “ficha limpa do trabalhador”, configura claro cerceamento à liberdade de trabalho e ameaça restringir os avanços obtidos na diminuição da exclusão social no Brasil em favor de empresas que prestam informações de crédito.

Significa dizer que é mais prudente deixar o filho morrer que deixar de pagar a geladeira. Porque por detrás do produto tem uma grande corporação cujos balanços não podem ser prejudicados pelo que se diria ser um problema pessoal do pagador, agora classificado de caloteiro.

O veto ao emprego decorrente da aplicação da jurisprudência é além de discriminatório insensato, pelo fato de impedir quem queira quitar suas dívidas – que é a maioria dos devedores – de poder fazê-lo, pelo simples fato de não encontrar mais trabalho.

Danosa também ao País. Com a ameaça que paira à partir de agora sobre todos aqueles que contraem uma dívida, qualquer consumidor pensará um milhão de vezes antes de ceder ao apelo de uma propaganda, o que transferirá o efeito dessa insensibilidade social não só ao bolso dos que vierem a adotar a medida como também ao conjunto da sociedade.

Caso vivamos em regime de verdadeira democracia e sob a jurisdição de instituições que tenham os interesses da sociedade como princípio, essa verdadeira aberração jurídica será barrada pelo Superior Tribunal Federal, aonde irá a julgamento em grau de recurso.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Confiar em ciganas

Pouco em voga hoje em dia, o termo “cristianização” teve grande circulação na década de 90 para caracterizar o abandono político de que foram vítimas as candidaturas peemedebistas à presidência da República de Ulisses Guimarães e Orestes Quércia.

Sua aplicação à malfadada campanha eleitoral dos dois políticos foi originalmente tomada de empréstimo a outro episódio que marcou a política brasileira. Mais precisamente nas eleições de 1950, quando os três principais partidos de então apresentaram seus candidatos ao pleito.

 O PTB lançou Getúlio Vargas com o lema “ele voltará”; A UDN, seu principal adversário, lançou o Brigadeiro Eduardo Gomes, apoiada no inacreditável slogan “ele é bonito e solteiro, reserva moral do Brasil”; já o pendular PSD foi às eleições com o mineiro Cristiano Machado que, pelo fato de haver sido alertado por uma cigana de que seria presidente, adotou o risível mote “a cigana não se engana, vote Cristiano”. Acabou esquecido pelos apoiadores.

Se há por trás de Serra agora uma cigana que lhe embala as ambições não se sabe, mas o fato é que a idéia do candidato de ir às urnas, ladeado pelo imberbe Bruno Covas, no que se convencionou chamar de chapa puro-sangue, tem tudo para redundar no mesmo fiasco que celebrizou a derrota de Cristiano Machado.

Não que o ex-governador deixe de empolgar os setores mais conservadores da sociedade paulista, sobretudo depois da inaudita pregação moral que praticou contra a candidatura da primeira mulher a disputar uma eleição presidencial no País. Nem que lhe falte suficiente suporte econômico por parte de grandes grupos empresariais, que lhe são devedores por facilidades obtidas em privatizações e grandes contratações de obras públicas.

Não, o risco que ameaça as pretensões do ex-governador de São Paulo é de natureza política e tem a ver com a possibilidade de que se passe com ele o que se passou com o político mineiro seis décadas atrás, cujos partidários abandonaram-no em favor da candidatura mais viável de Getúlio. Num processo bastante parecido com o que alijou o atual governador de São Paulo Geraldo Alckimin do segundo turno das eleições para prefeito em 2008.

Sinaliza esse desdobramento a forte aproximação já realizada entre seu possível maior aliado – o prefeito Kassab – e o ex-presidente Lula da Silva, com a troca de apoios mútuos em plano nacional para fazer do PSD repaginado do candidato exotérico Machado um partido de peso suficiente para servir de contrapeso à influência que tem hoje o PMDB e partidos menores no governo federal.

Sem indicar representante na chapa liderada por Serra à prefeitura e desconfortável por ter que perfilar ao lado do partido de quem é o principal adversário, o Democratas, Kassab não terá ânimo para colocar a máquina da Prefeitura, já depurada de tucanos, a serviço da candidatura do “amigo”.

Por outro lado, as dissensões produzidas para a escolha em prévias de um pseudo-candidato impactará de tal sorte a disposição da militância e de líderes comunitários do PSDB em atuar a favor do seu candidato, que tornará impraticável ao partido enfrentar nas franjas da cidade a onda da periferia para o centro mobilizada pela máquina partidária petista, a partir de seu entrelaçamento com os movimentos sociais de bairros.

Mas um fator decisivo para que a presumida cristianização de Serra venha ser consumada é a necessidade de que se identifique um nome para a chapa do candidato petista afinado o bastante com os setores mais conservadores da sociedade e que possa, ao mesmo tempo, desmobilizar o aparato religioso que tucano moverá contra a candidatura do PT.

Com a impossibilidade de que Henrique Meirelles, o ex-presidente do Banco Central, possa cumprir esse papel, fica cada vez mais clara a importância de Gabriel Chalita do PMDB para emprestar os músculos que faltam ao PT para vencer nos bairros mais ricos da cidade.

O novo cenário que se desenha para as eleições paulistanas, com a entrada de Serra na disputa, indica que o preço de uma composição com o PMDB embora alta deva ser pago. Dilma precisa sentar depressa com Temer para acertar o valor do passe de Chalita.   




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A chapa Serra - Bruno Covas

Com a suspeita de que Serra e o secretário da cultura do estado, Andrea Matarazzo, conspiravam para a montagem de chapa com vistas às eleições para prefeito de São Paulo e a resistência que opôs a essas movimentações o grupo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e as bases do partido dos tucanos, o papel de peça de ajuste a um arranjo que concilie as prévias e as pretensões do ex-governador recai agora sobre Bruno Covas.

O grupo de Serra trabalhava ativamente para fazer de Matarazzo o vencedor das prévias a fim de que depois de vitorioso cedesse seu lugar àquele de quem foi secretário quando na prefeitura. O veto imposto à desistência fez com que a discussão evoluísse para a idéia de montagem de uma chapa que tivesse Serra e um dos pré-candidatos das prévias como vice, a chamada chapa puro-sangue.

Nome natural para uma dobradinha dessa espécie, dada sua proximidade com Serra, o nome de Matarazzo foi logo abandonado por não contar nem com a simpatia do governador – que foi insultado pelo secretário em documentos divulgados do wikileaks – nem com a de Kassab, obrigado a dividir o poder com o tucano ao longo de 2 anos de sua administração.

Dái ter surgido com naturalidade o nome de Bruninho Covas para vice de Serra. Apoiado pelo governador e palatável a Kassab, o neto do Mário Covas silenciaria outro renitente covista na disputa, o secretário José Anibal, que promete ir às armas contra Serra na disputa interna do partido. Sobraria o deputado Ricardo Trípoli, cuja desistência não resultaria em grandes dificuldades dado os cargos que ocupa na administração estadual.

Não estranha, portanto, as notícias divulgadas findo o carnaval de que o governador Alkimin orientou os postulantes a prosseguirem em campanha. Agora está tudo certo, a chapa que irá à disputa contra Fernando Haddad do PT é a chapa Serra – Bruno Covas.

Justus contra Lula

Há que se perguntar, por que uma escola de samba leva à avenida a homenagem a um homem que outra coisa não representa senão a ideologia da patronagem e a justificativa das diferenças sociais pela via do espetáculo e da culpabilização? Esse homem é o pseudo-empresário Roberto Justus.

Com sua aparência caricata de cadáver embalsamado, Justus é a representação na TV brasileira dos valores tipicamente liberais sustentados pela mídia, que buscam transferir ao trabalho a responsabilidade pelo desemprego via a transfiguração do que é um fenômeno social em acontecimento da vida pessoal, ditado pelo fracasso.

Justus é caro ao sistema de subordinação ao trabalho por propagar um ideário baseado na dualidade competência - fracasso, que lastreia a aceitação coletiva de uma ordem orientada a privilégios supostamente merecidos.

Ninguém melhor que ele para representar esse papel. Ligado à propaganda, fez carreira promovendo na mídia atributos intangíveis de produtos ofertados por grande empresas em mercados oligopolistas.

Com a supremacia da idéia “você uma empresa”, que via na chamada empregabilidade mera função da gestão eficiente de capacitações pessoais, Justus propôs-se repetir aqui o que era já sucesso ideológico na mídia americana: a apresentação de talk-shows que simulavam processos seletivos, em que os menos preparados para as exigentes demandas de empregadores eram humilhados e rebaixados à condição de incompetentes.

Também reality shows, os programas de Justus pronto despertaram – como já haviam feito em outros países – a simpatia das classes médias, elas mesmas consumidas pelos esforços autofágicos de preparação de seus jovens em custosos cursos oferecidos por fábricas de MBA´s e similares.

Assim foi que Justus tornou-se para parte da sociedade uma espécie de representação do sucesso, um guru sem diplomas e um Silvio Santos às avessas. Foi desfrutando desse status que – apoiado pela mídia e grandes empresas – teve seu nome sugerido para o patrocínio corporativo de conhecida escola de samba em São Paulo.

Tão mais oportuna pareceu às forças do capital a homenagem a Justus, o fato de que a vontade do povo faria desfilar na avenida outra identidade, esta associada à ruptura com regras estabelecidas e aos compromissos de solidariedade que devem pautar as relações entre ricos e pobres no País, a figura de Lula da Silva.

Poucos talvez tenham percebido, mas o sambódromo de São Paulo assistiu no domingo de carnaval ao enfrentamento de diferentes visões de mundo: a baseada no individualismo e na prepotência contra outra fundada na generosidade e na vontade coletiva. Por isso ser impossível à grande mídia manter-se isenta.

   

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Globo criminaliza o carnaval

Depois de haver feito uma cobertura tendenciosa do desfile da  Gaviões da Fiel em São Paulo, a Rede Globo de Televisão martela a exaustão em seus noticiários a revolta de torcedores com o resultado da apuração, associando-a a ação de vândalos ligados à escola que levou a homenagem a Lula da Silva à avenida.

Além de imoral, a atitude da empresa jornalística envereda por um caminho sem volta que é  a de indispor-se com as torcidas e com parcela ponderável da população brasileira que viu na homenagem ao presidente Lula o justo reconhecimento a um homem cuja saga constitui lenda viva.

Se antes insinuava instrumentalização política do carnaval por parte do PT, agora a emissora politiza  ela mesma o carnaval, associando a revolta contra critérios falhos de escolha a vandalismo de simpatizantes da escola de samba, sob endosso ou participação direta de adeptos do homenageado presidente Lula.

Chamado em entrada ao vivo, o jornalista Carlos Tramontina não titubeou em atribuir o tumulto a integrantes da escola de samba. No que foi seguido por comentaristas que recitaram regras da organização do carnaval para pedir a desclassificação da escola a quem atribuem os fatos repercutidos.

Os próximos passos pretendidos pela emissora de TV bem podem ser antecipados. Condenará o que dirá ser o uso político do carnaval e os perigos que isso encerra para o carnaval da pacata sociedade paulistana. Afirmará que manifestações culturais quando tomadas por interesses políticos degeneram em balburdia e algazarra.

Justamente ela que tomou para si o controle do carnaval paulista, como antes fizera com o futebol, transformando esse evento popular de participação massiva em alavanca de lucros e meio de ação política em favor de partidos políticos com que francamente é identificada.  

A Globo venceu o carnaval

Por mais sofisticado que seja o critério de avaliação do desempenho das escolas de samba no carnaval, será sempre predominante o viés estatístico presente na escolha.

As preferências dos jurados, no que concerne a valores e tendências estéticas que circulam na sociedade, é o que define o ranking de premiação do carnaval.


Sendo os próprios jurados uma amostra selecionada de perfis existentes em algumas classes e setores de classe da sociedade, não se estranha que temáticas e motivos que demarquem escolhas afinadas com consensos de circulação mais ampla, tendam a não ganhar correspondente prevalência nos processos de seleção baseados em opções de jurados, tal como o adotado na cidade de São Paulo.



O que pensam os jurados, em média, é o que pensam as classes sociais a que pertencem. Para que a escolha fosse a mais isenta possível seria necessário que também a seleção dos jurados se fizesse por meio aleatório, com o recrutamento deles pela votação livre em pessoas habilitados para tanto.
Censitária como é hoje a escolha dos jurados, baseada em reconhecimento por parte dos organizadores do carnaval, eles mesmos em sua maioria cartolas submetidos a interesses  de grupos políticos e econômicos, fica aberta a possibilidade de definições não pautadas pela isenção.
No caso da Escola de Samba Gaviões da Fiel, cuja temática abraçada foi de homenagem a uma personalidade política de estima elevada entre as classes trabalhadoras, não seria razoável esperar que sua aprovação contasse com o endosso fácil dos jurados, na maioria recolhidos de extratos diversos da sociedade.
O veto esperado ao repertório de símbolos levados à avenida pela Gaviões de Fiel, só poderia portanto redundar em frustração e em repúdio dos foliões. Tampouco surpreendeu a explosão de violência que seguiu a uma nota politicamente motivada, que traduziu o inconformismo dos torcedores no sambódromo  da cidade de São Paulo com resultados baseados em critérios personalistas de julgamento.


Um motorista ilustre

Não deve passar despercebida a decisão do ator Fábio Assunção de  colocar-se no carnaval como motorista do carro alegórico que representava a condução de Lula à presidência do Brasil.

Consagrado nas novelas da Rede Globo e elevado à condição de galã perante a classe média brasileira, ousou destoar da ideologia dominante no ambiente em que se projetou e vestiu com rara dignidade a fantasia simplória do chofer.

Na avenida, onde muitos enxergaram mistificação e uso político da figura do ex-presidente, Assunção viu a representação da saga de um povo que venceu à exclusão mantida desde o império por uma elite europeizada, e que fêz – por essa razão –  substituir no poder fazendeiros e doutores por quem era um igual, o retirante e operário Silva.

Tampouco fez evoluções o conhecido ator. Resignado à nobreza da condição figurada de condutor, bastou-lhe o sorriso tênue de quem questionava com sua atitude os valores daqueles que se sentiam mais aptos e melhores que os da sua gente. 

Conduzia em seu carro-fantasia de isopor, leve como os sonhos, duas crianças representando o casal de suburbanos que ocuparam por 8 anos os palácios de Brasília. A fragilidade de seus pequenos corpos na grandeza do carnaval simbolizava o quanto pode haver de venturoso num povo que se levante na peregrinação pela conquista da dignidade.

Entrevistado em curto intervalo de tempo por repórteres da emissora a que prestou serviços, Fábio justificou seu louvável papel no carnaval afirmando que, depois de tudo o que fez e representou nos palcos e na TV, queria sentir-se agora simplesmente brasileiro.

Seu pouco destaque na exuberância do carnaval foi por certo mais que compensado pela lição de amor ao povo e ao País que deu aos que pensam que fama rima apenas com dinheiro. Parabéns Fábio, pelo desprendimento de ser um simples brasileiro!


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A pemedebização do PSDB

Foi tudo planejado para acontecer durante o carnaval: a longa entrevista do presidente nacional dos tucanos Sérgio Guerra, a conversa marcada por Alkimin com Serra para definir a candidatura do ex-governador à prefeitura de São Paulo e a viagem deste a Buenos Aires com um dos participantes das prévias, Andréa Matarazzo, para acertar a composição de chapa.

Indiferentes ao clamor partidário que via no compromisso de prévias a chance de redimir o partido do erro histórico de não abrir-se à militância, insistiam na insensata marcha o presidente nacional da legenda, o governador e candidato. Mesmo que ao preço do desapreço por parte da sociedade paulistana: o presidente do partido chegou a dizer aos jornais que a candidatura de Serra à prefeito relançá-lo-ia no cenário nacional.

Desfaçatez, porque os cidadãos de São Paulo sabem que muito dos problemas de que padecem hoje decorre da falta de interesse de Serra em dedicar-se à cidade, obcecado que sempre foi pela idéia de tornar-se presidente. Prefeito e governador, deu as costas à cidade entregando os governos que deveria dirigir aos secretários Andrea Matarazzo, na prefeitura, e Vidal Luna no estado. 
Evidente que a intenção do presidente da legenda e do governador  foi a de, cada um ao seu modo, comprometer Serra com a cadeira de prefeito desvinculando-o da pretensão tanto de vir a ser candidato em 2014 ao Palácio dos Bandeirantes – sede do governo estadual – como ao Palácio do Planalto.

Quanto aos eleitores, que se lixassem.  Aos militantes, que trabalhassem como formigas operárias em favor do projeto pessoal de Aécio, Alkimin e Serra. Não vai longe quando eleitores e militantes foram convocados para erguerem o andor de cada um deles em sucessivas campanhas ainda que em sacrifício de bandeiras caras ao partido. Baniram FHC e disputaram a herança do petismo ao invés a do governo federal que os projetou.

Mas o vôo da cobiça, todos o sabem cego. E mal completadas as manobras a que se dedicavam de dar passa-moleque nas instâncias do partido, eis que se levanta a voz do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, tantas vezes traído, para condenar o passo falso no caciquismo em detrimento do respeito ao partido e a seus eleitores.

FHC fez saber por meio dos que lhe são mais próximo que não pactua com a manobra, que a renovação é a esperança de futuro para qualquer partido. Com a voz dele, o repúdio da militância ganhou ressonância e o processo de escolha deverá voltar ao seu curso.

Fernando Henrique sabe que mesmo na improvável hipótese de rendição dos convencionais tucanas às pretensões da cúpula, o partido não seria pacificado. Iria dividido para as eleições de outubro e mais adiante nada impediria que a facção de Serra buscasse abrigo em outras legendas, numa espécie de pemedebização do PSDB, com Alkimin no papel de Quércia e Aécio no de Doutor Ulisses.

A má fé da Globo no desfile da Gaviões

Este é talvez o carnaval mais desafiador para as Organizações Globo. Isso porque depois de haver sido alçada á condição de monopólio midiático, pelo persistente apoio do governo americano e do regime militar que se instou no País entre 1964 e 1986, foi a primeira vez que a empresa viu-se obrigada a narrar um desfile de carnaval em homenagem ao seu maior adversário, o ex-presidente Lula da Silva.

Foi aparente a contrariedade da emissora ao mostrar e comentar com menor destaque a apresentação da escola de  samba que levou a homenagem ao ex-presidente para a avenida. Nos breves comentários que fizeram, os locutores não deixam de enfatizar o fato de que o homenageado “não esteve presente devido a um câncer na garganta”, como que querendo atribuir a homenagem não ao mérito do homenageado, mas a uma espécie de despedida de alguém  à beira da morte.

As tomadas à distância, o quase ocultamento do carro simbolizando Brasília, o foco nas fantasias em negro e o destaque à águia dos gaviões da fiel, acompanhado do comentário de tratar-se de uma ave de rapina, foram todos artifícios de que se valeu a inescrupulosa emissora para diminuir o brilho do desfile de alegorias que cercou a figura de Lula da Silva.

Mas ainda assim os narradores da televisão tiveram que relatar cada um dos momentos da vida do homem público, representados pelas diferentes alas que percorreram a avenida do desfile: o menino pobre, o jovem operário, o líder sindical e, por fim, o festejado presidente do Brasil.

No afã de diminuir o impacto da Gaviões na passarela, os apresentadores da Rede Globo insistiram em fazer um contraponto de seu desfile, propositalmente sombreado, com o de outra escola que se valeu de apelos religiosos e pacifistas na evolução. Foi o modo de a emissora fazer passar as alegorias em homenagem a Lula da Silva como associadas a algo que não era exatamente o bem, este fixado nos motivos da outra escola.

A despeito de todo engenho de que a Globo utilizou-se para que a apresentação do escola parecesse menos grandiosa do que era, não conseguiu evitar que ao final em seus estúdios um comentarista, contratado entre sambistas, chorasse e dissesse diante das câmeras que era esse o desfile mais lindo da vida dele.


FHC intervem em carnaval portenho de Serra


A crise interna do PSDB aumentou mais alguns graus com a notícia de que Serra e seu agente nas prévias que o PSDB realiza para a escolha do candidato a prefeito de São Paulo, Andrea Matarazzo, foram a Buenos Aires confabular na busca de uma fórmula a ser levada ao governador Alkimin que torne irrelevante o processo de escolha deflagrado pelo mandatário.

Desta vez, uma voz balizada levanta-se contra as conveniências da cúpula partidária, saindo em defesa da militância e da credibilidade da legenda.  

Essa voz é a de Fernando Henrique Cardoso, que pela boca do ex-secretário geral da presidência do governo que presidiu, Eduardo Graeff, manda dizer a Serra e ao governador que é inadmissível fazer dos militantes, e principalmente dos eleitores da cidade, massa de manobra na disputa política dentro do partido.

O porta-voz de FHC vai além e diz que caso insistam na tentativa de desqualificar a militância pela via da burla às prévias, as lideranças estarão destruindo a agremiação, a ponto de transformá-la em algo próximo a uma caciquia de líderes do tipo do que é hoje o PMDB. Ao mesmo tempo chama de arrogante a tentativa de Serra de fazer da cidade trampolim para suas ambições políticas.

Engrossa o coro dos que repudiam as manobras destinadas a transformar as prévias tucanas em mero jogo de cena, a voz balizada de um dos fundadores do PSDB e amigo de Mário Covas quando vivo, Arnaldo Madeira, que provocou Alkimin lembrando-lhe que o próprio Covas o lançou a prefeito em 2000 quando detinha apenas 1% dos votos nas pesquisas, o que não o impediu de tornar-se governador.

Ambos rechaçam a idéia de que qualquer pré-candidato sufragado nas prévias venha a desistir em favor de Serra. Tal hipótese só lhes é admissível se o eventual desistente anunciar antecipadamente que o fará.  

O racha agora estabelecido dentro da cúpula tucana – somado à rebelião da militância – é motivo bastante para que Kassab não envolva o seu PSD na desesperada aventura das cúpulas estadual e federal do partido dos tucanos e ceda à pressão dos correligionários de outros estados que não vêm nenhum proveito no apoio a Serra receosos de prejuízos na aproximação com o governo Dilma.

Sem uma composição orgânica entre PSD e PSDB, que dê ao último um vice kassabista os esforços despendidos para impor Serra ao partido serão, de todo modo, eleitoralmente inócuos. Tudo leva a crer que a máquina da prefeitura não se engajaria de verdade em favor da eleição do ex-governador, cristianizando-o em benefício do projeto nacional do prefeito.

E é assim que o balão de Serra vai murchando, no mesmo passo em que cresce a percepção entre tucanos de que é melhor perder com honra do que perder com o partido destroçado.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Serra e Matarazzo em Buenos Aires no carnaval

Parece não restar dúvida de que Andrea Matarazzo é o dandy serrista na disputa interna do PSDB para a escolha do candidato que enfrentará Fernando Haddad nas eleições de outubro próximo em São Paulo.
E por Matarazzo passa a saída do impasse em que se encontra o ex-governador para destravar a barreira que lhe impôs as prévias marcadas pelo PSDB com aquele fim.

De início imaginava-se sagrar o escudeiro de Serra candidato nas prévias, constrangendo o governador a envidar esforços no sentido de colocar a máquina estadual  a serviço de seu nome.

No entanto, a possibilidade de que Kassab viesse a compor com o petista multiplicou de súbito o poder de pressão do bando serrista junto ao governador, pelo risco que essa dobradinha imporia à possibilidade de Allkimin ser reeleito em 2014. Quebrar a aliança iminente PT/PSD passou a ser a prioridade das prioridades entre tucanos que controlam o palácio dos Bandeirantes.

Com o atropelamento de Serra do processo de escolha, um segundo plano do grupo serrista envolvendo Matarazzo também foi inviabilizado: a possibilidade de que o pupilo uma vez escolhido cedesse seu lugar ao mestre por meio de renúncia. Por óbvia demais a idéia produziu sua própria vacina.

Agora, diante da possibilidade de que Kassab não empreste sua legenda a Serra dando apenas seu apoio pessoal ao candidato, o que vem sendo urdido é que feito candidato sobre os cadáveres dos demais pleiteantes – “desaconselhados” que seriam a insistir no pleito – o ex-governador tenha carta branca para a montagem de uma chapa puro-sangue tucana tendo Matarazzo no lugar de vice.

Disso que foram tratar os dois em viagem a Buenos Aires, longe das câmaras e microfones indiscretos que acompanham esses momentos de pânico na história do partido dos tucanos. Como informa a jornalista Sonia Racy, Serra e Matarazzo foram vistos confabulando em um shopping de luxo em Buenos Aires.

 Enquanto isso, Kassab preferiu ir a Recife articular com Eduardo Campos a nova centro-direita no Brasil, que nasce de uma aliança com a centro-esquerda necessária para assegurar governabilidade ao governo Dilma e quebrar de vez o já insustentável monopólio do PSDB nas oposições.

  

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Luiz Inácio, operário nacional

VAI MEU GAVIÃO...
CANTANDO A SAGA DO MENINO SONHADOR
UM FILHO DO SERTÃO, CABRA DA PESTE... IRMÃO
QUE DEUS PAI ILUMINOU!
TROUXE NO SANGUE A CORAGEM, A FÉ
O PODER REGENDO SEU DESTINO!
NA CIDADE GRANDE A ESPERANÇA... O FUTURO PROMISSOR!
TRAÇOU SEU O CAMINHO
CRESCEU FOI À LUTA... PRÁ VENCER
E O SONHO SE TORNA REAL
LUIZ INÁCIO O OPERÁRIO NACIONAL!


COMPANHEIRO FIEL... POR LIBERDADE
NA CORRENTE DO BEM... CONTRA A MALDADE!
ELO FORTE DA DEMOCRACIA
A LUZ DA NOSSA ESTRELA GUIA!


VIU... NO CORAÇÃO DO BRASIL
TANTA DESIGUALDADE
O RETRATO DA REALIDADE
A UTOPIA BUSCANDO A DIGNIDADE!
SOLTA O GRITO DA GARGANTA E VEM COMEMORAR
A SOBERANIA POPULAR
FELICIDADE...
O POVO UNIDO VENCEU
A CIDADANIA RESPLANDECEU
UMA NOVA ERA ACONTECEU!


SOU DA NAÇÃO,SOU VALENTE E FESTEIRO
CORINTHIANO LOUCAMENTE APAIXONADO!
EM ORAÇÃO A SÃO JORGE GUERREIRO
PEÇO QUE O BRASILEIRO SEJA SEMPRE ABENÇOADO

Sono e sistema imune



Há muito tempo o sono intriga o ser humano. E dos faraós a Sheakspeare o dormir tem sido visto como um verdadeira enigma biológico, cujo estranho significado parece ser o de predispor mais ainda à vida.

Mas de que forma o faz permanece um mistério. A despeito de o sono corresponder à maior parte do tempo de vida de qualquer animal e muita pesquisa ter sida realizada para desvendar aspectos nele implicados, dúvidas básicas persistem. Como a do por que seu tempo de transcurso variar de 3 a 20 horas, dependendo da espécie.

Com o desenvolvimento da tecnologia da captura de imagens por pósitrons, no entanto, descobertas cada vez surpreendentes vêm sendo realizadas sobre os efeitos do sono na conservação da vida. Uma das mais significativa delas foi a realizada por pesquisadores do Departamento de Biologia Evolucionária do Instituto Max Planck em Liepzig, Alemanha, que comprovaram o fortalecimento do sistema imunológico de diferentes espécies depois de um ciclo de sono.

Mais especificamente, foi constatado importante papel desempenhado pelo sono na proteção a infestação por parasitas. Comparando o tempo de sono de cada espécie à capacidade de resposta do sistema imune, os cientistas puderam constatar uma prevalência proporcionalmente maior de células protetoras do sistema, em circulação na corrente sanguínea, nos indivíduos submetidos a um regime mais favorável de sono.

Os resultados sugerem que a limitada energia que o corpo utiliza na vigília para os múltiplos objetivos relacionados à sobrevivência, como alimentar-se e procriar, seria direcionada no curso do sono para o restabelecimento das defesas do organismo.

As conclusões apontam para a necessidade do aprofundamento de pesquisas voltadas aos efeitos da restrição do sono nos seres humanos, que em virtude da tendência histórica à redução – apontada em medições nas últimas décadas – pode estar dando causa a diferentes doenças cuja incidência tem crescido nos últimos anos, a exemplo de diferentes tipos de cânceres, viroses e moléstias ressurgentes.

Tudo leva a crer que o sono, contínuo e prolongado, pode vir a ser considerado em breve o mais importante fator isolado na prevenção de doenças fatais.
Fonte: BMC, Evolutionary Biology

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A hora da onça beber água, para Kassab


O vai e vem eleitoral de Kassab em função das indefinições da candidatura de Serra à prefeitura paulistana, reflete a ausência de vínculos orgânicos com a sociedade do partido que ajudou a criar e a consequente dependência da nova agremiação de composições estratégicas com outros partidos e com o poder estabelecido em plano federal, para fazer vingar o PSD como ator relevante na cena nacional.

Resultado da divisão produzida no interior do “establishment” pelos governos exitosos de Lula e Dilma, que granjearam ao PT mais ampla base social de sustentação, o PSD vive o natural dilema (ver matéria abaixo do jornal Valor Econômico) entre ceder às conveniências dos que lhe deram origem no PSDB ou prosseguir com o cisma iniciado e perseverar na construção de um partido de centro-direita renovado em seus dogmas e práticas de atuação.

Ao titubear diante da possibilidade de lançamento do ex-governador de São Paulo , Kassab contempla um plano de refundação das oposições que passa pelo aprofundamento da crise que vive o PSDB até o ponto em que, exaurido pelos embates internos, dê ensejo há uma terceira agremiação apta a reconstituir via disputas eleitorais a hegemonia perdida da centro-direita.

Nesse sentido, é premonitória a resistência que opõem a militância e grupos políticos do PSDB a uma composição com Kassab, insistindo no lançamento de uma candidatura que não seja a de Serra. Sabem que, se assim não for, sucederá ao PSDB o mesmo que se passou com o PMDB desde a ruptura que deu ensejo ao PSDB, quando foi condenado em São Paulo  a padecer eternamente da condição de coadjuvante nas disputas eleitorais. Fado que talvez seja ao partido dos tucanos ainda mais adverso. 


Porque sem o lustro de haver conduzido a redemocratização no País, como o PMDB, e sem uma estrutura nacional que dê suporte à penetração nos rincões mais afastados do País, poderá ser conduzido, depois de uma eventual defecção de serristas, ao completo desaparecimento.

De outro modo, ao tentar manter as portas abertas a uma composição com o PT – reafirmando uma proposta lançada pelo próprio prefeito aos dirigentes do partido dos trabalhadores – o alcaide pensa no fortalecimento lento e gradual da agremiação que patrocinou, até o ponto em que seja possível levantar-se contra os aliados da centro-esquerda.

A favor desta tática estão a maioria de parlamentares e prefeitos de outros Estados que reforçaram os quadros do PSD por ser-lhes demais custoso o afastamento do governo federal. E será exatamente a essas forças internas que Kassab terá que resistir para levar a bom termo a oferta de reciprocidade a Serra nas eleições de São Paulo deste ano.

São dois caminhos que desembocam em diferentes paragens os que se abrem ao prefeito. Um deles determinado pelas contingências da política local e também pelos planos de um grupo político sem chances de chegar ao poder pela via da disputa interna em seu partido, o grupo de Serra.

A outra vereda mostra-se coerente com as necessidades de parcela ponderável das elites regionais, politicamente deslocadas pela emergência de novas classes sociais e pela atração que sobre elas exercem os partidos de centro-esquerda, como o PSB de Eduardo Campos.

Da escolha de Kassab entre as candidaturas de Serra e Haddad dependerá a estratégia de reposicionamento da centro-direita no País. Se escolher Serra, Kassab estará sacrificando seu projeto de partido e com ele a chance de ser um dia figura de visibilidade nacional. Mesmo porque os dois juntos constituem peso demais para qualquer coligação carregar.

PSD teme Lula como adversário

Valor Econômico, edição de 17/02/2012

Parlamentares do PSD de outros Estados estão preocupados com a possibilidade de o ex-governador José Serra (PSDB) decidir pela disputa à Prefeitura de São Paulo e com o risco de o prefeito Gilberto Kassab recuar das negociações com o PT. A avaliação é que Kassab, presidente da nova legenda, avançou demais na direção da aliança com Fernando Haddad (PT) e uma eventual mudança de posição agora deixaria a relação do PSD com o governo federal muito ruim em todo o país e "arrebentaria" o partido.

Depois de propor ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a aliança em torno de Haddad e de comparecer ao evento em comemoração aos 32 anos do PT, recebendo vaias da militância e afagos da presidente Dilma Rousseff, Kassab perderia a credibilidade se recuasse, na opinião de integrantes da cúpula do seu partido que não querem ficar na oposição ao governo federal.

Como até agora ele tem mostrado muita habilidade política, a expectativa de seus aliados é que mantenha a disposição de aliança com o PT - a não ser que os petistas rejeitem. A avaliação é que Kassab tem argumentos de sobra para dizer a Serra que não tem mais condições políticas de voltar atrás, já que o tucano negou de forma categórica que disputaria.

O prefeito já está recebendo mensagens de dirigentes do PSD com manifestações de preocupação. Lembram que, pela histórica ligação política com Serra, Kassab tinha carta branca para apoiá-lo na disputa à Prefeitura de São Paulo em 2012 e fez todos os gestos nesse sentido. Liberado por Serra, ficou livre para articular a candidatura própria do vice-governador, Guilherme Afif Domingos, ou a aliança com Haddad.

Voltar atrás seria um "absurdo", para um dirigente do PSD, Estaria transformando Lula num "adversário forte demais" e colocando todo o poder federal contra a nova legenda, que nasceu para ser "independente" e para viabilizar um projeto de futuro para políticos que, abrigados no Democratas ou em outros partidos, estavam sem perspectiva. Seria atrair "artilharia pesada" contra o PSD.

Se Kassab caminhar para Serra agora, estaria "amarrando" seu projeto para 2014 ao PSDB. Entre os integrantes do partido, há ressentimento com a forma com que o PSDB "massacrou" o DEM, seu aliado, e com o tratamento dado ao próprio PSD.

Um motivo de irritação é o fato de o PSDB, mesmo sem nome forte para disputar a prefeitura, não ter disposição de apoiar um candidato do PSD agora, nem mesmo em troca do apoio de Kassab à candidatura à reeleição de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2014. Para parlamentares da nova legenda, isso é uma "humilhação".

Essas avaliações são feitas por dirigentes do PSD de outros Estados. Em São Paulo, a cautela é maior. O líder do PSD na Câmara dos Deputados, deputado federal Guilherme Campos (SP), diz que "a relação de Serra com Kassab transcende a questão de compromissos. Existe uma relação construída ao longo do tempo". Ele lembra que, por enquanto, existe apenas uma "promessa de posicionamento" com o PT.

Segundo ele, os sentimentos da bancada federal do partido em relação à aliança com o PT estão divididos. "O PSDB foi o primeiro partido que institucionalmente foi procurado pelo nosso presidente no sentido de fazer uma composição. E houve todo um processo de morosidade e falta de definição do PSDB", diz Campos.

Ele admite que a sinalização de que Serra pode mudar de posição tornou as conversas "mais intensas de todos os lados" e "aumentou a confusão e o clima de suspense" nas negociações em São Paulo. "É mais fácil acertar na Mega-Sena do que no que o Serra está pensando."


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Armadilha de martas

Duas diferentes dinâmicas impulsionam as candidaturas dos dois principais partidos no município de São Paulo, PT e PSDB. Enquanto no partido dos trabalhadores o movimento é no sentido da construção de alianças e de aglutinação de forças, no partido da social democracia os esforços partidários giram em torno da resistência à desarticulação.

A principal manifestação desse quadro, pelo lado do PT, foi o deslocamento do prefeito Gilberto Kassab do campo de seus aliados tradicionais e com ele a atração que se fez da terceira  maior máquina administrativa do País para que trabalhe pela candidatura Haddad. O que não é pouco dado o pesado investimento político que o partido de oposição ao governo federal realizou para deter influência sobre a administração municipal.

Não há hoje um modo mais efetivo de conquistar os partidos menores para uma aliança com o PT, inclusive os considerados do campo progressistas, do que contar com o respaldo do governo do Município, que tem os vereadores dessas agremiações reféns de suas engrenagens para a renovação de seus mandatos para a câmara Municipal.

Os principais aliados do PT em plano federal já estão com o prefeito Kassab por meio de cargos que ocupam na prefeitura e a possibilidade de virem a perdê-los constitui apelo muito mais convincente que muitas laudas de discursos que apontem as idiossincrasias programáticas tucanas.

Não é outra coisa que move o governador Geraldo Alkimin quando tece com a agulha da caneta de nomeações o tricô para dar tempo de TV ao futuro candidato de seu partido.

A trajetória ascensional da candidatura petista tem produzido espetáculos de forte poder imagético, como a ida do prefeito paulistano à festa de 32 anos do PT, submetendo-se a vaias que atestaram definitivamente a seus ex-aliados de que lado está.

Sem dúvida perdeu com o congraçamento o PSDB e dentro dele, particularmente, o grupo de Serra. O que, por sua vez, torna quase incomunicáveis os dois campos em que se divide o esforço de campanha tucano, o serrista e o ligado ao governador Alckmin.

E não é só a impossibilidade de manter unidos velhos aliados que denota a falta de vigor da articulação tucana. A fragilidade é também o esteio do embate intestino que vem dissipando a energia do partido e tem inibido o oferecimento de respostas, quando não dado os motivos, para desgastantes campanhas de desconstrução de imagem que inundam a mídia mostrando a administração estadual como um feudo sitiado pelo povo.

 As ações na cracolândia e no pinheirinho são exemplos de ações administrativas transformadas em fatos políticos de ampla repercussão midiática que cumprem a função didática de apresentar ao eleitor o PSDB como um partido antipopular, incapaz, após 20 anos de exercício continuado do poder, de formular uma política de combate à miséria e de uma política habitacional consistente com promessas decenais de campanha.

Sensíveis `as circunstâncias favoráveis que cercam a candidatura petista, Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckimin querem que Serra saia candidato a prefeito  pelo simples fato de pretenderam altera-las no que têm de mais fundamental: buscam impedir uma aliança entre PSD e PT a fim de encurralarem Haddad na armadilha de aprisionamento de martas (não a senadora, mas o mamífero mustelídeo), a armadilha dos 30% de votos.

                                                                                                             






sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Isolar os radicais


Uma sombra paira momentaneamente sobre a democracia brasileira. Alguns acharão a frase exagerada, pensando que afinal greves pautadas por reivindicações econômicas não possuem o condão de fazer balançar o edifício da democracia.
Não todas, por certo. A greve conjunta, que hoje teve início no Rio de Janeiro, envolvendo as policias civil e militar assim como o corpo de bombeiros retira ao Estado o que o caracteriza como tal: a capacidade impor-se às vontades individuais e de grupo em favor dos interesses comuns, mediante o monopólio da força. Um Estado privado do poder de coação deixa de existir como tal.
A inexistência provisória de Estado na segunda maior unidade da federação é um acontecimento com força de impacto o bastante para desfechar uma crise de institucional, vale dizer das condições de que dispõe um dos poderes de cumprir com seu mistér, o de governar, se alastrada para o restante do País. Nesse caso, a única resposta política possível é a decretação do estado de sítio, com a inevitável suspensão de direitos individuais.
A hipótese, se configurada, baldaria os esforços que vem sendo conduzidos para desviar a economia brasileira dos efeitos da crise econômica que tem curso fora do País e cuja reversão não é esperada para antes da metade da década.
A combinação de uma eventual crise institucional, decorrente do colapso do aparato policial, com a reversão dos bons números da economia em consequência das forças centrípetas da crise financeira internacional, teria, por sua vez, força o bastante para desfechar uma crise de governabilidade e com isso abreviar o governo Dilma.
O cenário apocalíptico traçado não é nem necessário nem inevitável. Não interessa às forças responsáveis da nação perder a oportunidade aberta com a nova inserção do País no mundo e na diplomacia internacional em razão de uma contingência que decorre da omissão dos diferentes governos que sucederam a ditadura de militar de por fim ao entulho institucional representado pelo aparato de controle social legado pelos generais.
Não poderemos contar, nós a sociedade civil, por muito tempo com o exército para por ordem na casa dado ser ele próprio parte fundamental do problema. Uma sociedade amadurecida do ponto de vista democrático auto-organiza-se em torno de seu Estado, das suas instituições representativas e sobrepassa ela mesma eventuais instabilidades atravessadas pelo regime fundado na cidadania.
Será preciso de imediato isolar todas as forças políticas que abertamente perfilam ao lado dos revoltosos, notadamente os partidos esquerditas e grupos de extrema direita, por meio de um arco de aliança entre setores empresariais, da grande mídia bem como partidos conservadores que considerem a estabilidade democrática um bem maior a ser preservado na perspectiva do alcance  da efetiva prosperidade nacional.
A partir deste momento deverão ser considerados inimigos da democracia todos que estimularem a afronta à carta constitucional representada pela greve de militares em nosso País.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CPI para esclarecer a venda da Vale



Foi concluído o processo de privatização de três dos principais aeroportos do País com ganho inédito para o estado brasileiro: além dos 25 bilhões de dólares arrecadados com o leilão dos aeroportos de Brasília, Guarulhos e Campinas, o governo ficará com 49% de controle dos ativos e ainda auferirá um rendimento anual médio de mais de 5% ano sobre a rentabilidade das operações (10% no caso de Guarulhos).
Resultados bastante diferentes foram os colhidos com as privatizações, que agora se sabe fraudulentas, conduzidas durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A maior estatal do país à época, a Vale do Rio Doce, foi transferida a investidores por menos de 3,5 bilhões de dólares.
Era outro, é verdade, o momento econômico vivido pelo País com taxas de crescimento mais modestas e também uma menor abertura ao exterior. Mas interpretações economicistas mal escondem o fato capital que a empresa de mineração não era qualquer empresa, mas a donatária das maiores jazidas de manganês e minério de ferro do mundo.
Bens que não passaria pela cabeça de qualquer um alienar sem adicionar a seu valor a expectativa de finitude das reservas nem a crescente importância que passaria a ter para um mundo em desenvolvimento obrigado a proceder à instalação de uma formidável infraestrutura, toda ela baseada em derivados do ferro.
A transferência da empresa Vale do Rio Doce a interesses privados não se constituiu numa venda, senão em puro escambo. Troca do incalculável fluxo de riquezas capaz de ser gerado pelas operações da companhia por participações de grupos próximos ao poder, em negócios ligados ao comércio internacional de minério e da produção de aço.
Aqueles que venderam a Vale não visavam os interesses nacionais porque essa categoria de bens cobraria necessariamente salvaguardas de exploração destinadas a remunerar o Estado pela importância estratégica do produto explorado, o que de modo algum interessava aos executores da mal fadada negociação.
Como estavam vinculados aos setores de comercialização, seus ganhos estavam assegurados pelos contratos de longo prazo que as empresas a que eram ligados fechavam nos bastidores, não lhes importando dessa forma a fixação de uma remuneração justa, fosse pela valoração dos ativos fosse pela estipulação de royalties e da fixação de taxas sobre as operações. Ao contrário do que pode parecer, as comissões foram o quinhão menor dos ganho ilícitos auferidos nessa história.
O certo é que os prejuízos trazidos a nação pelas operações legais, porém ilegítimas, representadas pela privatização da Vale precisam ser discutidos abertamente pela cidadania. Não se constrói um país passando a borracha em crimes lesa-pátria que subtraiam às gerações futuras o que a luta dos pioneiros custou a vida para assegurar.
Mais que punições, a discussão pública desse momento negro da soberania nacional precisa ser realizada. E a Comissão Parlamentar de Inquérito, que exponha a lógica econômica e os interesses que pautaram as privatizações de empresas brasileiras, da Vale em particular, não deve ser traída por conveniências políticas de momento. Quem o fizer, mesmo sendo do partido do governo, que se prepare, junto com os ladrões e traídores, para o julgamento da história.   
   

A quartelada da PM bahiana



Muito perigosa a situação criada com a mobilização de policiais militares em todo o país desde que a chamada PEC 300, proposta de emenda a constituição que tramita no congresso fixando um piso nacional para as corporações em nível estadual, passou a constituir-se em motivo de disputa de braço de ferro entre governo e sua oposição parlamentar.
O perigo está no fato de que essas organizações armadas representam, no regime de normalidade democrática em que vivemos, verdadeira excrescência institucional e jurídica, de existência apenas explicada pelo fato de manterem-se ainda como remanescentes do aparato de controle social e político instituído pela ditadura militar, a qual detinha sobre essas organizações rígido controle pela via da subordinação direta de seus comandos ao exército nacional.
Extinto o regime militar que lhes dava sentido, as polícias militares têm servido menos ao povo e mais às conveniências de oligarquias políticas regionais que cumulam seus escalões superiores com estipêndios e cargos nas administrações públicas, para utilizá-las como dócil instrumento na repressão aos movimentos sociais e na proteção a autoridades e seus familiares.
Exemplos não faltam tanto no município de São Paulo, que tem a maioria de suas subprefeituras administradas por coronéis da PM, quanto em outros estados da federação com contingente indeterminado de militares dedicados à prestação de serviços de segurança a gestores públicos ou entregues a atividades de inteligência e informação em secretarias de estado.
Sem uma polícia militar a serviço de grupos regionais hegemônicos na política brasileira ficaria difícil explicar a inviolabilidade de que parecem cercados os estatutos de funcionamento interno dessas corporações, fortemente autonomista e refretários ao controle da sociedade, tampouco a força e articulação que demonstram ao sustentar, desde o âmbito regional, embate tão prolongado contra o governo federal por vantagens salariais.
De volta aos perigos institucionais que rondam as quarteladas militares, como a que ocorre agora na Bahia, não é possível ignorar o potencial de generalização de conflitos encerrado nos vículos históricos que essas corporações mantêm com o exército e na imbricação dessa trama com as contingências políticas de uma oposição já quase descrente da posssibilidade de tornar ao poder em curto prazo pela via eleitoral.  
Da mesma forma que a República velha teve na tenacidade dos baixos escalões militares de província as malhas que a forçavam à regressão, pelo que teve de fazer avançar por sobre a vontade dos que lhe opunham as armas, assim deverá resistir o governo popular de Dilma Russef à contestação militar, por hora apenas econômica, que opõem ao seu governo setores do exército, políticos sem mandato e bandos de facínoras infiltrados nas polícias militares estaduais.

Um quarto de século é muito pouco para remover condicionamentos políticos historicamente determinados. E a elite da sociedade brasileira é ainda bastante refretária à nova situação de diversificação social que vem acompanhando as etapas mais recentes do desenvolvimento econômico nacional.

Mais que isso, deposita nos militares todo o imaginário classista de pureza moral e ideológica que devotava a classe média alemã em seu exército o qual permitiu a Hitler, um civil, emergir com alguma facilidade como líder de uma sociedade amplamente militarizada desde que a partir de ataques de bandos armados contra representações provinciais do parlamento conseguiu alinhar o discurso de moralidade política ao sentimento de defesa das instituições nacionais. 
O evento político parece tão proposital que não por acaso os militares bahiano escolheram o estado governado por um petista histórico e amigo do presidente Lula para terçar armas. Toda energia será pouca, portanto, no rechaço ao levante que, tendo tomado o parlamento regional, tem o condão de em curto espaço de tempo fazer balançar todo edifício da democracia que temos construído até aqui.