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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Recriação de um conto iraniano



Conta-se que em Teerã, ainda antes que o Zoroastrismo ganhasse a devoção dos habitantes, vivia nas vielas daquela cidade vestida de branco, com suas paredes caiadas e de calçamento irregular, um homem chamado Toriri.

Conhecido como uma boa pessoa, dedicava sua vida a praticar o bem. Generoso e oferecia a quem demonstrasse desânimo um sorriso e uma palavra de estímulo.

Atendia aos velhos nas praças e não deixava qualquer pedinte sem uma moeda. Cultivava a literatura e defendia os desafortunados das injustiças dos poderosos. Não tinha inimigos e sua expressão de serenidade jamais se turvava diante da contrariedade ou ofensa. Por esse motivo era amado pela sua gente, na vida tão comum que levava.
Mesmo sendo casado com uma mulher que lhe parecia o oposto, por agressiva e intolerante que era, Toriri curvava-se a sua irrascibilidade e sempre buscava atenuar-lhe o mau humor com palavras gentis e com estrofes de Saadi, o poeta das rosas.
Na gruta, à saída da cidade, vivia outro homem tido também como bom e justo entre os seus, o eremita Maitreya . Recolhera-se ainda jovem à vida de asceta e o tempo de décadas fizera de seu corpo uma esfinge envolta em longos cabelos negros e barba espessa que vestiam seu corpo enrijecido pela abdicação de todo conforto.
Visitado por peregrinos nos dias de solstício de inverno, certo dia ouviu de um deles o relato sobre Toriri. Disse-lhe o peregrino que na cidade havia um homem muito bondoso em quem todos confiavam como guardião do bem junto à comunidade. Disse também que se pudesse o deus Ormuzd ouvir ao seu simples anseio de peregrino, permitiria que Toriri dispusesse do poder, ainda que por um dia, de tornar realidade tudo que jazia em seu bom coração.
O asceta depois de ouvir o pedido do peregrino e confiante que a virtude divina não favorecia aqueles que viviam na licenciosidade dos homens senão no silêncio da reclusão, ergueu os braços descarnados lentamente para os céus e pediu ele mesmo a Ormuzd que atendesse àquele peregrino, dando prova a todos do significado da devoção.
Ao terminar sua imprecação, relâmpagos luziram o céu, chispando os olhos do profeta, cristalizados como a pedra dura. Ao mesmo tempo seus lábios descolaram-se um do outro para dizer que Ormuzd haveria de atender aquele pedido. Disse que o deus houvera concedido a Toriri o dom de fazer realizar o primeiro desejo que lhe viesse ao coração, no primeiro momento do despertar de cada manhã.
O peregrino, que não conteve o júbilo, regozijou-se com tamanha concessão e pôs em palavras seu pensamento na caverna escura, exclamando que a cidade viveria dali em diante uma  era de prosperidade e ventura. Pudesse enxergar pela densa barba do asceta veria a balançar um tênue sorriso de dúvida.
Foi assim que Toriri despertou na manhã seguinte e beijou a fronte da mulher como fazia todos os dias, ao que ela num ímpeto de desespero correu à janela e projetou-se por sobre o parapeito. Ao descer atônito deu à rua com um grupo de mendigos de sempre, mas ao depositar-lhes  as moedas nas mãos, antes que estas se fechassem, seus corpos vieram desfalecidos ao chão. Consolado depois da morte da esposa pela mais bela moça da cidade,  Mandanik, que o tinha em tamanha consideração, ao afeto do seu abraço o belo corpo da jovem caiu morto ao solo.
Naquela noite mesmo Toriri pôs fim à própria vida, fazendo atravessar um punhal no coração. Por vontade de Ormuzd, terminou também na mesma noite  a vida terrena do asceta. Foi uma noite sem lua, em que o povo recolheu-se entristecido ao silêncio das suas casas.
No reino de Ormuzd, o homem comum e o asceta apresentaram-se ao grande deus para colher a recompensa final por uma vida digna. Dirigiu-se a divindade aos dois, que de cabeça baixa aguardavam pelo veredicto com diferentes sentimentos na alma. Toriri de fracasso, Maitreya de confiança no reconhecimento.

Disse-lhes o deus:
- Toriri, tu que soubestes ser humano entre humanos, contribuindo com a construção dessa civilização que guardo com meu cajado, abro a ti as portas do meu reino. Por certo te dilacera o coração o desgosto pelo que presumes ser o mal em que incorrestes, mas saibas, meu bom Toriri ,que o primeiro sentimento de um homem é sempre imperfeito. É animado pelo egoísmo, que nada mais é que morte do que lhe é alheio. Vê Toriri, que sufocar o impulso primeiro tornando a ventania da pusilanimidade em brisa de acolhimento, é essa a maior conquista de um homem no mundo inteiro!

E continuou:

- A você, Maitreya, também concedo a vida no paraíso, apenas por compreender a falha de quereres viver em reclusão. Fossem todos os homens como tu e a humanidade pereceria na busca insensata deste mundo perfeito que não é o dela, mas o meu. Zelo para que a humanidade se faça mais humana pela vida imperfeita que vive na terra e tu, Maitreya, foi guiado pelo egoísmo de querer chegar ao reino dos céus antes que os teus.
Por fim sentenciou:

- a ti, Toriri, ofereço o meu reino porque sou justo; enquanto a tu, Maitreya, concedo-te o perdão porque sou generoso.

Diante de deus Toriri baixou os olhos e chorou, Maitreya ergueu os seus e agradeceu. 

(na gravura, o poeta Saadi de Shiraz)      

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