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sábado, 31 de março de 2012

Efeito dominó pode atingir Serra






Depois de cair Demóstenes Torres, senador do DEM, cai Agripino presidente do mesmo partido. Os dois maiores críticos do que chegaram a chamar de crise moral no governo Dilma viraram manchete de jornal e correm o risco de impeachment depois de abertos processos por desvio de conduta no Supremo Tribunal pelo Ministério Público Federal.

Com eles sucumbe o que restava dos escombros do edifício dos Democratas, trazido ao chão pelos filmes que mostravam o único governador eleito pela agremiação originada do extinto PFL, recebendo numerário de agente público incumbido da arrecadação de propinas.
 
Foram escândalos diferentes, ainda que de divulgação concomitante, os que vitimaram um e outro dos próceres oposicionistas. Mas o de maior estrago foi o de Agripino, que ameaça arrastar consigo o candidato `a prefeitura de São Paulo pelo PSDB, José Serra.

Serra, que insiste em São Paulo brigar como um cão velho pelo osso que pretende  saborear daqui a 2 anos em Brasília, tem gente graúda de sua confiança envolvida no escândalo que volta a atingir o último bastião moral do DEM, Agripino.

O nome do homem, que até rima com o de Maia , é João Faustino.  O tucano potiguar de quem ninguém tinha ouvido falar até que fosse preso pela polícia federal por chefiar esquema de fraude nos serviços de inspeção veicular em seu estado, foi feito suplente de senador de Agripino Maia por indicação do paulista José Serra, no momento em que desfrutava de grande prestígio dentro de seu partido pelo fato de ser candidato a presidente da república.

Estranho, não? O padrinho do prefeito paulistano Kassab, que teve os bens bloqueados pela Justiça por suspeita de fraude na inspeção veicular da cidade de São Paulo, patrocinou alguém do seu círculo com domicílio a quase 4.000 km de distância,  que, por sua vez, também ele envolveu-se em fraudes bilionárias nos serviços de inspeção veicular.

Mas não se pense que por suas pretensões eleitorais em âmbito nacional, José Serra foi buscar amigos e apoios lá onde as necessidades de voto o exigiriam, vindo a conhecer casualmente o aliado Faustino. Não, José era chapa de João desde os tempos da UNE, quando o famigerado, diria Guimarães Rosa, presidiu a seção norte-riograndense da entidade.

Mais, quando governador Serra abonou a ficha de filiação do amigo ao partido dos tucanos e abrigou-lhe na antessala de Aloysio Nunes, seu Chefe da Casa Civil, com o pomposo título de Sub-Chefe da Casa Civil, cargo de que desfrutou por 2 anos e meio no Palácio dos Bandeirantes. Até 2010 Faustino recebia estipêndios do governo de São Paulo como conselheiro de empresas estatais.

A convivência entre Aloysio e João tampouco foi difícil, desde que um e outro trabalharam juntos no governo Fernando Henrique Cardoso: Faustino na condição de Secretário da Presidência para Assuntos Federativos e Aloysio na de Secretário Particular do Presidente.

À aproximação da campanha eleitoral, Serra incumbiu seu “protegée” de levantar dinheiro no nordeste. Com uma boa ajuda de custo no bolso e uma idéia esplêndida na cabeça: reproduzir entre os nordestinos a bilionária experiência da inspeção veicular da cidade de São Paulo que ele, Serra, havia deixada prontinha para ser operada por seu  substituto e depois prefeito eleito com seu esforço pessoal, Gilberto Kassab.

João Faustino, usando o nome do candidato presidencial, foi direto à governadora Wilma Maia para que baixasse, ainda antes das eleições presidenciais, lei estadual instituindo a inspeção veicular no estado. 

Os investigadores interceptaram mensagens eletrônicas entre os operadores do esquema e contatos seus dentro da Prefeitura de São Paulo que comprovam estreita colaboração de funcionários com a quadrilha na elaboração da lei que criou a inspeção veicular em Natal, no edital de concorrência publicado e até nos despachos que deveriam ser apostos em caso de recursos apresentados contra o fraudado certame.

Agora Serra quer ser Prefeito e chama de inconsequente a proposta de seu jovem oponente Fernando Haddad de extinguir a taxa de inspeção veicular paga pelos motoristas paulistanos, mesmo depois de haverem já pago o imposto sobre veículos automotores, o IPVA, que tem cota-parte destinada ao município. Talvez não esteja mesmo bem avaliando o candidato do PT a importância que tem para o caixa de Serra as contribuições desse bilionário negócio em São Paulo.




  

quarta-feira, 28 de março de 2012

Millôr Fernandes e Chico Anísio


Quando o diabo decide carregar um aproveitador, Deus chama um homem justo para que o mundo mantenha-se como sempre foi. Isso é o que se pode dizer da morte de Millôr Fernandes poucos dias após a de Chico Anísio.

Com seu humor irreverente, sempre um tom acima do que seriam as conveniências do establishment, Millôr pontuou durante o tempo que durou o regime militar no Brasil e ainda depois dele – ao lado de chargistas, teatrólogos e jornalistas de oposição – o que havia de risível e grotesco na farsa jurídica e parlamentar que mantinha o poder em mãos de militares.

A ditadura, como se sabe hoje, poderia ter acabado antes não fosse o pacto que uniu setores diversos da sociedade bem estabelecida, meios de comunicação e políticos para impedir a perda atabalhoada de controle sobre um Estado moldado aos interesses de manda-chuvas.

 A fórmula da transição “lenta gradual e segura”, urdida para impedir que líderes de movimentos populares – como Lula da Silva – chegassem ao poder não foi ideia solitária do estrategista da ditadura Golbery do Couto e Silva, mas acordo explícito celebrado entre militares, parlamentares da oposição consentida e o comissário das telecomunicações no Brasil e dono das Organizações Globo, Roberto Marinho.

Foi esse o divisor de águas – a admissão do gradualismo na transferência de poder aos civis – que distinguiu, nos vinte anos que vão das greves do ABC ao impeachment de Collor, o humor feito para servir de instrumento ao avanço das lutas democráticas e o humor concebido como recurso de fragilização dos movimentos sociais e de ridicularização de manifestações culturais de oposição ao regime.

Entre Millôr Fernandes e Chico Anísio havia uma diferença de vulto. Um trabalhava com refinamento e arte para a causa da emancipação democrática; o outro, sob o soldo da empresa de comunicação dos militares, empenhava-se em transformar os únicos agentes de mudança real das estruturas de poder na sociedade, o povo, em amontoado de figuras cômicas incapazes de tomar o destino nas próprias mãos, exceto se dirigidos pelos prepostos do status quo.

Guiado pelo credo da coerência,  Millôr atuou para que se estabelecessem meios alternativos aos canais oficiais de comunicação, na mídia impressa e na televisiva, sem se importar se emergiria da empreitada mais rico ou mais pobre. Sua produção intelectual contribuiu verdadeiramente para o enriquecimento da cultura nacional e para a iluminação de nossas deficiências coletivas, visando o grande passo adiante que as décadas seguintes reservaria à democracia social no Brasil.

Chico Anísio, ao invés, não teve compromissos senão com seus contratantes, indo tão fundo no papel de bobo da corte do oficialismo a ponto de haver se tornado – com o tipo de humor desmoralizante praticado – inconveniente até ao esquema de poder que o consagrou.

Por essa razão, bem se manifestou a presidente da República quando disse que a morte de Millôr significava uma perda de referência para a cultura nacional e a de Chico Anísio o fim de um talentoso ator.

domingo, 25 de março de 2012

O escândalo Veja






Quem com ferro fere com ferro será ferido, diz o imemorial  adágio sobre quem se vale de métodos espúrios para atingir a honra de alguém em benefício próprio ou de terceiros.

Pois uma enorme lâmina acaba de atravessar o fígado do semanário Veja, pródigo em assacar acusações contra desafetos do partido de José Serra, em particular membros dos governos legitimamente eleitos pelos brasileiros `a partir do encerramento do ciclo de poder  tucano em plano federal.

Investigações realizadas pela Polícia Federal sobre as atividades do mafioso Carlos Cachoeira levaram `a prisão de dois chantagistas ligados ao esquema de jogos de azar e a ninguém mais ninguém menos que ao chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior.

O acontecimento chega no pior momento para o Grupo Abril, empresa que pública o título, quando a queda de assinaturas devido ao esvaziamento de leitores para noticiosos na internet e a perda de grandes anunciantes tem levado seus sócios do grupo sul-africano Napsters a questionar a conveniência mercadológica da linha editorial da publicação.

O potencial explosivo dos fatos que vieram `a luz é proporcional `a notoriedade dos personagens envolvidos nos episódios, o senador da República Demóstenes Torres, presidenciável do DEM, e o governador tucano de Goiás Marconi Perillo. Todos com poderosos inimigos nos gabinetes palacianos e nos corredores do Congresso devido `as acusações de que já foram promotores na mídia.

E o efeito da explosão será o de revelar `a nação que tipo de vínculo afinal havia entre os dois principais partidos de oposição e a revista Veja: uma espécie de associação para o crime a fim de desestabilizar governos sufragados pelo voto em favor de partidos golpistas que, em troca, designava políticos corruptos para o acobertamento das fontes criminosas de informação.

Algo como a esfinge da cobra engolindo o próprio rabo, capaz de produzir escândalos de conveniência como o do chamado mensalão, que quase chegou a produzir um golpe branco contra Lula da Silva não fosse o apoio decisivo dos sindicatos e movimentos sociais a seu governo, e contra-dossiês cuja finalidade era a de desacreditar dossiês procedentes, como o que envolvia os crimes da família Serra, agora objeto de CPI no Congresso.

O escândalo que vem a tona agora imobiliza a revista Veja e a torna ainda mais dependente da tolerância do governo Dilma, a quem buscou impedir a vitória por todos os meios.

Compromete sobretudo o jogo que estava prestes a ser jogado a fim de impedir uma vitória avassaladora das forças políticas de apoio ao governo federal nas eleições municipais que se avizinham, o de usar o julgamento do caso do “mensalão” como instrumento de proselitismo político em favor das oposições.

Para essa nova armação já estavam a postos membros da corte superior de justiça do País, o STF, ligados ao senador integrante do bando de Cachoeira - que levariam a julgamento e condenariam ainda neste ano os apelados do PT - e a máquina de propaganda formada pela grande imprensa: Rede Globo, jornal Folha de São Paulo e a própria revista Veja.

Deverão pensar em outro estratagema rapidamente as oposições e seus sequazes na mídia para impedir que os brasileiros decidam como querem ser governados `a partir do ano que vem nas grandes cidades do País.


sábado, 24 de março de 2012

Dilma capa da Veja





Não deveria causar perplexidade a capa que a revista Veja da última semana de março de 2012 dedica a  Dilma Russef. Com o  horizonte de permanência no poder por prováveis  7 anos , a presidente representa uma relação importante demais para a empresa de mídia descartar.

Confrontada com dificuldades financeiras próprias `a modalidade de negócio que explora, a Editora Abril, empresa que pública o semanário busca reposicionar-se no mercado de modo a apagar o forte estigma que marcou a linha editorial da sua principal publicação ao longo dos 8 anos do governo Lula da Silva.

O expressivo peso que empresas governamentais e seus maiores fornecedores têm no faturamento publicitário dos cambaleantes negócios de mídia impressa e a contínua queda na venda de assinaturas de produtos da espécie, fez com que a editora rendesse-se `as contingências de mercado e desistisse – ao menos provisoriamente - de servir como instrumento nas mãos de grupos minoritários na política.

Mas há uma consideração de maior abrangência situada no campo do marketing que perpassa a decisão da empresa. O público consumidor em potencial da revista Veja mudou de perfil e agora se parece um pouco mais com os 42 milhões de pobres que passaram a fazer parte da classe média brasileira.

É a esse novo consumidor que a empresa terá agora que adaptar-se se quiser, como está obrigada, manter a escala de vendas que torne seu principal título economicamente viável no futuro. Desgraçadamente, para a Editora Abril esse público gosta do ex-presidente Lula e vê em Dilma Russef a continuidade de seu governo.

Essa nova classe média, que se informa fora do circuito tradicional de informação, tem opiniões próprias e, como ficou demonstrado com os resultado das últimas eleições presidenciais, não segue o segmento mais restrito dos extratos superiores da classe média, este fiel `a revista Veja.

Mesmo todas essas razões seriam insuficientes se ela própria Dilma não contasse com um governo bem avaliado pela opinião pública cujos índices de aprovação beiram os 60%. Nela os brasileiros vêm confirmadas suas inclinações quase religiosas no tocante `a figura da mulher, emprestando-lhe o apoio necessário para que confronte os epígonos do Congresso Nacional e as corporações de ofício político que lhes dão sustentação.

Afinal, se a presidente dá combate `a corrupção, nos termos em que vinha pregando o semanário Veja, e projeta a imagem de mãe protetora que os brasileiros admiram, como poderia a família Civitta confrontá-la?

Não poderia, e seu novo sócio no Grupo Abril, o fundo de investimento sul-africano Naspers, deu-se conta disso. O resultado é a aproximação com Dilma, com direito `a chamadas  nas rádios da Rede Globo que dão a entrevista como o passaporte para o ingresso da chefe do Executivo para o panteão dos grandes presidentes  do Brasil.

Nada mal para quem até um ano antes fora acusada de despreparada e adepta a teses que feriam a índole dos brasileiros. O fato é que agora o grupo Abril resolveu se compor com Dilma e isso constitui um passo formidável para  a reconciliação do partido dos trabalhadores com um setor que lhe é mais refratário nas maiores cidades do País.

A esquerda deve, pois, saudar, essa nova conquista política do governo que ajudou a eleger em outubro de 2010.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Chico Anísio, fama feita de preconceito


Com a morte de Chico Anísio não morrerá a modalidade de humor por ele disseminada. Rafinha Bastos, Danilo Gentili e outros estarão aí para dar continuidade ao legado de deboches e de escárnio às diferenças que o humorista deixou estabelecido como padrão de riso na cultura televisiva brasileira.

Nunca será demais lembrar que Chico Anísio, um escroque a serviço das Organizações Globo fez fortuna marcando as diferenças sociais em seu País: de gênero, de raça, de nível econômico, de religião e de condições de saúde.

Quem não se lembra, tendo mais de 40 anos de idade, de suas imitações de gagos, fanhosos, velhos, mulheres, nordestinos, judeus, umbandistas e homossexuais? Gerações acostumaram-se ao riso fácil das caricaturas que fazia dos mais fracos, reproduzindo depois essa modalidade de humor nas escolas e ambientes de trabalho, de modo a perpetuar a discriminação que pesava sobre os que se encontravam em oposição ao ideário de normalidade da classe média.

Chico Anísio não era um comediante como foi no seu tempo Oscarito, Zelloni, Golias e Zezé de Macedo. Foi um déspota do riso que apontava no meio da multidão o que era destinado à chacota e à humilhação.

Acomodou-se ao regime militar e a ele serviu comandando sessões apelativas de riso que desviavam a atenção dos rumores sobre as atrocidades cometidas pelos algozes, que seus patrões diariamente ocultavam.

Contribuiu para que se criasse em torno do último ditador do ciclo de governantes da ditadura militar, João Figueiredo, uma aura de simpatia e tolerância por meio de um quadro em que mantinha conversas intimistas com o governante.

Afeiçoado a bajulações dos poderosos, ainda depois da ditadura Anísio chegou ao cúmulo de dar sustentação ao confisco da poupança praticado pelos sócios de seus patrões, os Collor de Mello, vindo até a casar-se, em troca disso, com uma das primas e ministra da economia do ex-presidente Fernando Collor, Zélia Cardoso de Mello.

Viciado em cocaína, como ele mesmo declarou um dia às TVs, Chico Anísio nunca se recuperou da dispensa de seus serviços pela Rede Globo depois que a emissora – para a qual muito contribuiu com o elevado faturamento de seus programas – decidiu renovar sua imagem nos anos de 1990 apelando a uma nova abordagem de humor, representada por grupos humorísticos egressos do teatro.

Antes que iniciasse a lenta agonia em direção ao destino igualitário da morte, a Globo cedeu à mágoa do humorista e deu-lhe a chance de um breve retorno à cena representando a idosa que fazia ligações telefônicas para o ditador Figueiredo. Só que nesse ato de despedida, quem estava do outro lado da linha era a mulher e ex-prisioneira política Dilma, a quem o preconceito do humorista jamais perdoaria por haver derrotado  o estigma machista e vergar, sem os favores da Globo, a faixa de presidente da República.

Um troco que, por felicidade, a vida dá aos homens sem caráter antes que caiam no esquecimento.

A nova caixa registradora das estradas estaduais

Os liberais brasileiros que tanta estima demonstram pela propriedade privada, quando no poder nada mais fazem do que tirar proveito dela para encher os cofres públicos e remunerar seus consorciados do setor privado.

 Esse é o caso do PSDB e sua sanha de onerar o uso do automóvel por meio daquilo que ficou conhecido como a indústria das multas.

 A novidade agora é controlar a velocidade de veículos nas estradas já pesadamente tarifadas do Estado de São Paulo com os mesmos recursos utilizados pelas concessionárias de estradas para arrecadar numerário: os chips eletrônicos e os pontos de captura de informações sobre velocidade em cada uma das praças de pedágio.

Argumentam os furibundos coletores de receitas para-fiscais do Estado que a medida virá no sentido de proporcionar maior segurança ao usuário e reduzir o número de acidentes nas estradas, alegando sua adoção em algumas cidades europeias.

Nada mais falacioso. A incidência de acidentes nas estradas não está relacionada apenas à velocidade do veículo, mas também a um conjunto de condições desfavoráveis ao tráfego. A maioria delas fora do alcance dos motoristas e de inteira responsabilidade do ente estatal que construiu a via ou de seu operador, a empresa privada detentora da concessão.

É comum nas estradas paulistas o usuário deparar-se com gradientes de pistas mal concebidos, rampas com declives excessivos e ausência de vias de escape para emergências. Para não ir muito longe, o exemplo mais notório é o do trecho sul do rodoanel metropolitano de São Paulo,há pouco inaugurado.

Nessa via considerada de última geração, destinada principalmente a veículos de carga, curvas fechadas demais se mostram incompatíveis com a velocidade possível de ser desenvolvida nas pistas que lhe dão acesso; descidas excessivamente íngremes forçam frenagens em fundos de aterros destituídos de rotas escape; e a falta de sinalização e iluminação são uma constante.

A comparação com as estradas na Europa soam, nesse sentido, pura galhofa. As impecáveis auto-bhans que ligam as principais cidades do velho mundo são estradas bem planejadas e bem assistidas por serviços complementares, onde é possível desenvolver com segurança velocidades superiores a 150 Km/h sem que passe pela cabeça de ninguém ir além do limite estipulado.

A macaquice encenada pelas autoridades rodoviárias estaduais incorre, também, numa impropriedade matemática. Como o cálculo para imputação da multa é baseado na velocidade média desenvolvida pelo veículo, nada impede que o motorista busque ganhar tempo em determinado trecho, praticando uma velocidade acima do permitido, para depois poder compensá-lo num restaurante de estrada a meio caminho.

Outro aspecto que deve ser levado em conta na nova prática diz respeito ao fato de que, para viabilizá-la, as concessionárias de rodovias deverão investir em equipamentos e remunerarem-se dessa despesa de capital com parcelas das multas impostas aos motoristas, o que oferece questionável fonte extraordinária de receitas.

Melhor sopesados os argumentos brandidos pelos representantes do Estado, tudo indica que a ideia que se busca vender aos contribuintes do imposto sobre veículos automotores com ares de zelo administrativo, não passa de estratagema para aumentar o faturamento desses comensais corporativos do governo e sua cada vez mais evidente cunha para-fiscal.

Tudo isso ao preço de uma ilegalidade, pois o código nacional de trânsito não contempla a possibilidade de aplicação de multas com base em inferências matemáticas. De liberais assim o inferno está cheio.






quinta-feira, 22 de março de 2012

O livro perdido de nossas vidas


A célebre constatação de Tolstoi em Ana Karenina de que “todas as famílias felizes são iguais, as infelizes o são cada uma a sua maneira”, oferece uma chave para a compreensão do sofrimento individual em tempos de socialidade ditada pelo relacionamento virtual das redes sociais.

Nelas a dor permanece oculta aos olhos sagaz do narrador anônimo que fala em cada um, e deixa entrever uma espécie de literatura fragmentada cujos personagens ganham vida mais pelo que parecem ser e menos pelo que verdadeiramente padecem no isolamento de suas escrivaninhas.

Se a angústia foi banida do mundo da virtualidade, assim sucedeu em razão do pacto que beneficiou personagem e escritor. Este escapa à confidência de narrar o que é comum a quem escreve e a quem lê, a dor. Aquele não precisa mais expor-se à dualidade constitutiva do drama pessoal que cindi a vida em aparência e interioridade incômoda.

É desse modo que todos comungamos o gosto pela arte, expomos um sempre presente bom gosto e uma genialidade vertida à nossa própria maneira. Com alguma pesquisa ao Google o que é admirável coloca-se ao alcance da mão e tudo que basta é a simplicidade da técnica do copiar e colar, de reproduzir sem sentir e de comunicar sem falar.

Quão admiráveis somos então em nossa generosidade, em nossa capacidade de discernir o elogiável e o belo. Nessa nivelação de folhetim escapa, contudo, o essencial: a capacidade de colocar-se em confronto com o mundo e trazer à tona o que em si mesmo incomoda, tortura e machuca.

Talvez, por isso mesmo esse nosso tempo seja de bloqueio às vias de acesso ao autoconhecimento e por meio dele de transformação da realidade. Quando Tolstoi, Machado e outros escreveram delinearam as arestas que distinguia o ser da imagem qu projetava, tornando possível compreender o indivíduo pela forma de sua afetação no mundo.

Perambulamos agora pela vida sem saber se somos autênticos ou inautênticos, se criadores ou criaturas. Interrompemos uns aos outros na movimentada infovia para mostrar nossas jóias e cicatrizes, indagando, num diálogo surdo, de quem são afinal tantas marcas trazidas num corpo que já não reconhecemos como nosso. E, sem respostas plausíveis, insistimos em escrever nas páginas soltas desse livro que é nossa cara, que por brincadeira alguns chamam de "facebook".

A nova caixa registradora das estradas estaduais

Os liberais brasileiros que tanta estima demonstram pela propriedade privada, quando no poder nada mais fazem do que tirar proveito dela para encher os cofres públicos e remunerar seus consorciados do setor privado.
Esse é o caso do PSDB e sua sanha de onerar o uso do automóvel por meio daquilo que ficou conhecido como a indústria das multas.

A novidade agora é controlar a velocidade de veículos nas estradas, já pesadamente tarifadas do Estado de São Paulo, com os mesmo recursos utilizados pelas concessionárias de estradas para arrecadar numerário: os chips eletrônicos e os pontos de captura de informações sobre velocidade em cada uma das praças de pedágio.

Argumentam os furibundos coletores de receitas para-fiscais do Estado que a medida virá no sentido de proporcionar maior segurança ao usuário e reduzir o número de acidentes nas estradas, alegando sua adoção em algumas cidades europeias.

Nada mais falacioso. A incidência de acidentes nas estradas não está relacionada apenas à velocidade do veículo, mas também a um conjunto de condições desfavoráveis ao tráfego. A maioria delas fora do alcance dos motoristas e de inteira responsabilidade do ente estatal que construiu a via ou de seu operador, a empresa privada detentora da concessão.

É comum nas estradas paulistas o usuário deparar-se com gradientes de pistas mal concebidos, rampas com declives excessivos e ausência de vias de escape para emergências. Para não ir muito longe, o exemplo mais notório é o do trecho sul do rodoanel metropolitano de São Paulo,há pouco inaugurado.

Nessa via considerada de última geração, destinada principalmente a veículos de carga, curvas fechadas demais se mostram incompatíveis com a velocidade possível de ser desenvolvida nas pistas que lhe dão acesso; descidas excessivamente íngremes forçam frenagens em fundos de aterros destituídos de rotas escape; e a falta de sinalização e iluminação são uma constante.

A comparação com as estradas na Europa soam, nesse sentido, pura galhofa. As impecáveis auto-bhans  que ligam as principais cidades do velho mundo são estradas bem planejadas e bem assistidas por serviços complementares, onde é possível desenvolver com segurança velocidades superiores a 150 Km/h sem que passe pela cabeça de ninguém ir além do limite estipulado.

A macaquice encenada pelas autoridades rodoviárias estaduais incorre, também, numa impropriedade matemática. Como o cálculo para imputação da multa é baseado na velocidade média desenvolvida pelo veículo, nada impede que o motorista busque ganhar tempo em determinado trecho, praticando uma velocidade acima do permitido, para depois poder compensá-lo num restaurante de estrada a meio caminho.

Outro aspecto que deve ser levado em conta na nova prática diz respeito ao fato de que para viabilizá-la as concessionárias de rodovias deverão investir em equipamentos e remunerarem-se dessa despesa de capital com parcelas das multas impostas aos motoristas, o que oferece questionável fonte extraordinária de receitas. 

Melhor sopesados os argumetos brandidos pelos representantes do Estado, tudo indica que a ideia que se busca vender aos contribuintes do imposto sobre veículos automotores com ares de zelo administrativo, não passa de estratagema para aumentar o faturamento desses comensais corporativos do governo e sua cada vez mais evidente cunha para-fiscal.

Tudo isso ao preço de uma ilegalidade, pois o código nacional de trânsito não contempla a possibilidade de aplicação de multas com base em inferências matemáticas. De liberais assim o inferno está cheio. 


quarta-feira, 21 de março de 2012

A coragem política de Dilma

O país vive um clima de bonança e isso não é bom para a oposição. No cenário interno a economia continua exibindo robusto crescimento de quase 3% , a inflação recua em direção aos 4,5% ao ano, os juros caminham para alinhar-se com as taxas de longo prazo de 6% e o desemprego é menor a cada nova contagem do IBGE, aproximando-se dos 5,5% da população economicamente ativa;  um dos menores percentuais do mundo.  

A onda de choque vinda da Europa, que se esperava repercutisse no País com força o bastante para por em xeque as políticas de governo, vem sendo dissipada em nova rodada de depreciação do euro que, se não é bom para competitividade da moeda brasileira, tampouco representa um desastre contra o qual não há remédio à disposição nas prateleiras do Ministério da Fazenda.

O ambiente político se desanuviou com o aproveitamento que soube fazer em seu favor o governo das formações nebulosas dos escândalos ministeriais recentes, a fim de extrair a energia necessária para conduzir uma reforma ministerial à frio que arrancou a presidente do garrote que lhe pretenderam impor às vésperas de eleições os partidos aliados.

A mídia já não pode falar de corrupção como antes, porque foram retirados do comando das respectivas pastas ministros contra os quais pesavam suspeitas de irregularidade. Sem que se desse conta, a oposição colaborou com sua fanfarra para que fosse emprestado ao governo o respaldo necessário a uma  reforma ministerial que desse perfil próprio ao governo Dilma.

Naturamente não ficaram contentes os partidos aliados com essa espécie de reforma extra-agenda que lhes impôs o governo com o apoio da mídia, e fez marcar seu desagravo com o ato de sublevação que representou a não condução do indicado oficial ao cargo de diretor geral da Agência Nacional dos Transportes.

Coerente com a estratégia que havia posto em movimento, a presidente não titubeou diante da rebeldia encetada e afastou, de uma só pernada, os dois representantes do governo nas duas casas do parlamento, egressos dos dois principais partidos de sua base de sustentação. Também neste episódio teve a mídia a seu favor e com ela parcela preponderante da opinião pública.

É a isso que chamam agora de crise: a perplexidade de partidos aliados que dormiram sonhando com um parlamentarismo contingente, em que teriam o executivo por refém, e acordaram no presidencialismo de forte predomínio do chefe do executivo que vigora historicamente no arranjo institucional brasileiro.

Em ano eleitoral, em que precisam mais do que nunca de instrumentos e garantias federais para o sucesso na disputa de vida e morte que travam pela hegemonia nas grandes cidades do País – e com isso, também pelo tamanho futuro das bancadas – a rebeldia que agita os partidos da base de apoio ao governo não deverá ter vida longa.

Resistir à chantagem que terá lugar quando das negociações visando a composição de chapas para a disputa municipal e a votação de matérias de interesse do governo no Congresso, será o gesto natural que adotará a presidente no jogo corajoso que decidiu jogar.

As composições de chapas constituem questão de economia interna dos partidos político e deverão ser resolvidas com a permuta de apoios em cidades julgadas de importância pelas lideranças para a configuração de forças no período pós-eleitoral.

As matérias de interesse do governo deverão de todo modo aguardar melhor oportunidade de votação, e a nova correlação de poder que haverá de emergir depois das eleições de outubro permitirá com maior percuciência completar a reforma ministerial já iniciada bem como reconfigurar a aliança para a sucessão presidencial.    

Lula, vivo como nunca, será a carta na manga de que disporá o PT para fazer lembrar aos aliados de agora que, por questão de imposição física, alianças se fazem a partir do elo mais forte de uma corrente.  




quarta-feira, 14 de março de 2012

Além da inspeção veicular


Devem estar atentos os candidatos de oposição às eleições municipais em São Paulo quanto às alterações operadas no tipo de demanda que lhes dirigirá o eleitor.

Embora permaneçam importantes as propostas para as soluções dos problemas crônicos da cidade – como trânsito, transporte e inundações – não menos importantes se afigurarão as preocupações quanto às garantias de vivências sociais no espaço da metrópole.

Espera-se que a gestão municipal tenha que prover mobilidade urbana a fim de proporcionar não apenas padrões satisfatórios de qualidade de vida como também de manutenção do trabalho aos moradores da cidade, já que atrasos frequentes ao serviço podem vir a oferecer restrição ao emprego. Não menos presumível, no dia a dia do munícipe, é que a vida e o patrimônio devam ser resguardadas contra eventos climáticas severos, de todo antecipáveis.

São questões que parecem já precificadas – como diriam os economistas – para os habitantes da cidade. E a essas expectativas estão obrigados a responder, em primeiro lugar, os governantes em exercício que foram eleitos para dar-lhes atendimento. No caso de São Paulo, o duo Serra e Kassab.

Há, contudo, outra ordem de problemas que afeta os cidadãos numa dimensão mais sutil, porém não menos verdadeira. Dizem respeito às condições de que dispõem para o desfrute da cidade em atividades cotidianas como ir aos parques públicos em segurança, estacionar seus veículos sem riscos nas ruas e não ver incidir sobre os serviços de bem-estar proporcionado pelo município taxas e custos que não sejam aqueles ordinariamente fixados pela constituição.

Antes limitados à classe média mais tradicional, moradora dos bairros nobres da cidade, esses anseios, a que se pode chamar de vivenciais, espalharam-se para as demais camadas da população por causa da expressiva mudança verificada na estrutura de classes da sociedade brasileira, desde a última década.

Para satisfazê-las no aspecto da segurança o postulante ao cargo de prefeito conta com a guarda metropolitana, que deveria ter assegurada - nas propostas de governo - a duplicação de seu efetivo a fim de dar garantias ao morador da cidade de que poderá frequentar, com tranquilidade, os espaços públicos de interesse especial da comunidade, como parques e centros de comércio ao ar livre.

Garantir-lhes também que serão realizadas com regularidade rondas civis noturnas junto a equipamentos públicos, de modo que não sofram depredações ou se transformem em pontos de concentração de marginais.

Mais de que em qualquer outro tempo viver na cidade tornou-se algo caro, em razão de taxas que oneram o desfrute de bens privados como o automóvel. Nesse sentido fez bem o candidato Haddad em haver anunciado que, se eleito, extinguirá a taxa de inspeção veicular.

Entretanto, deverá ir além nas promessas e dizer que acabará também com as taxas de estacionamento nas ruas, por meio das chamadas zonas azuis, que cobram aos contribuintes serviços de empresa privada sem as garantia devidas e sem a posse efetiva das áreas, que são públicas e, portanto, dos próprios cidadãos.  

Se quiser vencer as eleições o ex-ministro Haddad, ou qualquer outro que pretenda derrotar a aliança de direita que se desenha em São Paulo, não deverá renunciar -  senão que aprofundar - uma   agenda de propostas conservadoras que contemple, sem hesitação, os anseios da nova classe média paulistana.


segunda-feira, 12 de março de 2012

Conformismo, rir ou chorar?




Rimo-nos da mimetização de atitudes que parecem reproduzir sem qualquer mediação o comportamento de terceiros. Mas é exatamente esse o fundamento das atitudes coletivas nas sociedades de massa.
O efeito piada desse traço de psicologia social já havia sido bem apreendido no mais popular e duradouro programa de “pegadinhas”, apresentado pelo apresentador Alan Fant.
Num dos episódios, transmitido em 1962, denominado “de cara para parede”, as câmeras registram o breve deslocamento por elevador de quatro integrantes do show, ao lado de um passageiro qualquer.  No interior do equipamento, o grupo adotava o gesto inusitado de voltar os rostos para os fundos do veículo, no que eram invariavelmente acompanhados pelo desconhecido que não resistia a imitar-lhes o movimento.
O impulso de ajustamento a que se viu submetido o cidadão comum frente o grupo dotado de poder dentro do elevador, pode ter consequências bem mais funestas que a do riso quando transposta a ambientes sociais.
Foi o que demonstrou o experimento conduzido dez anos depois pelo psicólogo Philip Zimbardo, com alunos da Universidade de Stanford, que entrou para a história dos mais célebres estudos de investigação comportamental como a “experiência da prisão de Stanford”.
Nas dependências da própria universidade foi simulada uma prisão com todas as características físicas de um centro de detenção: grades de ferro, corredores escuros e celas com uma latrina, uma pia e um acolchoado sobre o cimento.
Para o estudo foram convocados jovens entre 25 e 30 anos de idade por meio de anúncios em jornal ao que se apresentava como sendo um experimento científico realizado por uma instituição de renome, à remuneração de 50 dólares ao dia.
Apresentaram-se para os testes de seleção quase 100 pessoas, dentre as quais foram selecionadas 20, em função de histórico pessoal de não violência e comprovado equilíbrio emocional, além de perfeitas condições de saúde.

Os indivíduos selecionados foram triados aleatoriamente para compor 2 diferentes subgrupos, o dos policiais e o dos prisioneiros. Estes foram uniformizados e dotados de um bastão e óculos escuros a fim de que seus olhos não pudessem ser vistos pelos detentos.

Os prisioneiros, de acordo com o contrato firmado com o departamento de psicologia da universidade, foram detidos por policiais verdadeiros da polícia da cidade de Palo Alto, ainda ao amanhecer de um dia qualquer quando saiam desprevenidos de suas residências. Foram algemados, encaminhados para um cárcere real e depois transferidos para as instalações prisionais da Universidade.

Propositalmente, não foram estabelecidas regras moduladoras da conduta dos guardas, a fim de que se pudesse observar o padrão de comportamento do grupo diante do empoderamento determinado pela força de manter em custódia o grupo de prisioneiros.

O que se viu chocou os estudiosos e levou à suspensão do experimento 15 após o seu início. Os maus tratos e a busca de propósitos de satisfação pessoal por meio da violência cresceram, na mesma medida em que se generalizavam os sintomas de despersonalização e de transtornos emocionais entre os prisioneiros.

Ao fim da primeira semana, uma rebelião foi controlada com espancamentos e a privação do sono dos rebelados. O líder do motim foi posto em solitária enquanto os liderados com melhor comportamento foram premiados com condições privilegiadas de aprisionamento. Em pouco tempo a lealdade interna do grupo foi quebrada e o líder isolado e hostilizado pelos demais.

O conformismo não se restringiu aos encarcerados senão que também a seus parentes que, diante dos cuidados de aparência dirigidos aos presos apenas dois dias antes da visitação, consideraram a transformação por que passavam algo natural quando não desejável. Crises convulsivas de choro e tentativas de suicídio puseram fim ao experimento.

O que se viu em Stanford foi que o grupo dominante agiu de maneira crescentemente insidiosa visando a quebra da dignidade pessoal dos condenados, ao ponto de passarem a ter desprezo pelo direito dos mesmos à vida. Humilhações e violações daquilo que poderia ser considerado direitos humanos, foram a regra e o risco de morte tomou proporções verdadeiramente assustadoras para os psicólogos. As sequelas sobre os voluntários prisioneiros perseveraram ao longo de 5 anos transcorridos os experimentos.

Um pouco mais distante das celas de uma prisão, se o conformismo de que padecem os homens livres em mercado é para rir ou para chorar, só os desdobramentos futuros dessa nossa condição de consumidores irresolutos o fará demonstrar. Daí talvez o por que de tantos risos histriônicos nos programas cômicos de “stand-up comedy”, que divertem expondo  a própria anomia moral dos espectadores. E o choro incontido em quartos escuros e consultórios, que a maioria tem vergonha de publicamente revelar.




quarta-feira, 7 de março de 2012

Caminhões abóbora

A mobilização de caminhoneiros que desabastece de mercadorias a cidade de São Paulo, em protesto contra a proibição da circulação de veículos pesados nas marginais, é vendida pelas autoridades municipais como atentado de grupos organizados e de sindicatos contra a população.

Não é bem assim. O protesto traduz o inconformismo com um conjunto de medidas disfuncionais para a vida da cidade que vem sendo tomadas pelos órgãos encarregados de assegurar a mobilidade na metrópole, desde que a precariedade da infraestrutura de transportes públicos transformou o meio individual de transporte em alternativa mais viável de deslocamento no espaço urbano da capital.

Essas decisões são pautadas por critérios de visibilidade das medidas anunciadas, deixando aos agentes econômicos os custos pela sua adoção. No caso da proibição de caminhões nas marginais, a norma estabelecida foi justificada como sendo em decorrência da operação do Rodoanel; outra via anelar em torno da cidade que, como o circuito integrado pelas marginais, permite também que se chegue aos diferentes quadrantes da metrópole.

Mas com a previsão da conclusão do Rodoanel apenas para 2014, inexiste uma rota alternativa que permita aos veículos de carga de grande porte alcançar os armazéns e silos de transbordo de cargas mais próximos das zonas centrais, tampouco existe a possibilidade do abastecimento de bens essenciais como gasolina e combustíveis em caráter contínuo.

Na ausência dessa infraestrutura de fornecimento de bens e mercadorias à cidade, as empresas transportadoras que se ocupam desses serviços devem arcar, por si mesmas, com os custos da guarda e do transporte mais oneroso em termos trabalhistas nos períodos de circulação estipulados pela prefeitura.

Não há como deixar de ver na greve que paralisa o setor de transporte de cargas a justa reivindicação por critérios de circulação que reconheçam as lacunas de instrumentos para que a restrição venha ser atendida sem desorganizar a própria atividade e onerar, por fim, os consumidores pela transferência dos custos decorrentes da medida.

Mas, não poderiam os burocratas de serviço na prefeitura deixar de ceder a mais uma medida de fácil apelo eleitoral, porque privilegia, a princípio quem possui automóvel. Acostumou-se o prefeito com o ganho político proporcionado por medidas que mostram a cidade de São Paulo como se fosse uma Estocolmo dos trópicos.

Depois de haver fechado casas noturnas e ter retirado cartazes das ruas, Kassab e sua turma pensam que podem transformar os caminhões que servem a cidade em carruagens de abóbora, como na estória de Cinderela. Acuado, contudo, pelo que fez com o transporte de passageiros e agora também com o transporte de cargas, voltará a ser ele mesmo – quando der meia noite no dia das eleições de outubro – simplesmente Kassab o incompetente.

terça-feira, 6 de março de 2012

Ninguém mais anda em São Paulo

O mais divertido hobby dos nossos barnabés do planejamento de transportes urbano é fazer mudanças no ordenamento do sistema para testar alternativas de desempenho.
 Miram-se em geral no que é praticado em grandes capitais do mundo sem se importarem com as contingências e limitações da malha que administram.
São as consequências de uma ingerência irresponsável desse tipo que enfrentam agora os paulistanos, as quais explicam o agravamento do trânsito e a superlotação de ônibus e trens do metrô.

O que pretenderam os planejadores em São Paulo foi imitar a lógica que preside o sistema de transportes de grandes cidades europeias. Lá há muito tempo os ônibus deixaram de cortar as metrópoles em todas as direções para levar passageiros em percursos completos de um extremo a outro.
A extensa e radicular malha de metrô e trólebus ali existente reorganizou o transporte com base em hubs de transbordo estabelecidos nos terminais de cada um desses modais. A partir de cada um deles, os passageiros dirigem-se a outros hubs secundários ou centrais, para o prosseguimento de viagem até o destino final.
Acompanhou tal concepção a adoção de modalidades de bilhetes únicos – seja por tempo seja por viagem – a fim de conferir flexibilidade ao sistema.
A tentativa de aplicação da mesma lógica em São Paulo sem que houvesse a mesma disponibilidade infraestrutura de meios de grande capacidade, tem produzido apenas sobrecarregamento da rede de metrô e a intensificação de congestionamentos, devido ao maior número de usuários que passaram a optar pelo transporte individual diante dos gargalos produzidos pela insensata reordenação do sistema.
Com congestionamentos ainda maiores, mesmo os coletivos que deveriam cobrir ligações mais curtas entre terminais acabam retidos no trânsito, comprometendo ainda mais a mobilidade geral.

Perde com isso o passageiro que, além do tempo exagerado que é obrigado a despender no interior desses coletivos, vê-se na contingência de gastar mais em múltiplos deslocamentos em pequenos trechos.
Tivesse a cidade uma malha de linhas de metrô subterrâneo e de superfície que fosse o triplo da existente hoje, seria possível que as mudanças postas em práticas pela municipalidade funcionassem.

Mas com linhas subdimensionadas e a completa estagnação da oferta de outros meios de transporte coletivo por décadas, o que se assiste na cidade de São Paulo é ao espetáculo da incompetência denunciada em pontos de ônibus lotados e ruas com trânsito absolutamente parado.

São Paulo perderá a Paulista

Deu em nada a intervenção policial para dissolver a concentração de usuários de drogas existente na área do centro paulistano conhecida por Cracolândia.
Ou melhor, deu no pior dos cenários possíveis, que foi o do deslocamento e do reforço de grupos numerosos de consumidores para as regiões mais próximas aos bairros nobres da Avenida Paulista.

 As ruas antes dominadas por cinemas e bares tradicionais agora são foco da mesma concentração de jovens das mais diferentes classes sociais que se aglomeram para formar espécies de cordões de isolamento, em cujo centro é praticado livremente o consumo de drogas.

Violência contra moradores, conflito de grupos rivais e destruição de patrimônio tornaram-se rotina nas ruas Frei Caneca, Augusta e Bela Cintra. É claro que os órgãos de segurança conhecem o fenômeno, dado o elevado número de ocorrências policiais registradas. Apenas não o tomam pelo que de fato é, uma nova Cracolândia, pelo simples fato de que estariam assumindo com isso a existência de uma situação social fora de controle.

O interessante a ser notado nesses novos centros do comércio e consumo de drogas é o perfil do público. Diferentemente dos tipos marginalizados que se via na zona central, o frequentador dos novos pontos é de classe média e assume estereótipos sociais bastante comuns como o do “skatista”, do “rapper” e outros assim.

Ao final de cada noite de tumultos as ruas amanhecem forradas de invólucros feitos de plástico transparente, que se prestam à distribuição de drogas. A polícia, chamada por moradores a intervir, assiste a tudo impassível.

Aos poucos, no entanto, os moradores começam a mudar-se para outros locais, temerosos dos riscos apresentados à segurança pelo lugar. E mais uma mancha de degradação urbana toma o espaço do que era antes um tradicional bairro da capital paulista.

Dificilmente o tema virá à tona na campanha eleitoral que principia pela boca do candidato governista, representante de forças políticas que permitiram que a questão das drogas tomasse na cidade a proporção de fator de indução à desurbanização.

O tema é de grande interesse para a classe média tradicional, porque diz respeito à afetação de bairros que há pouco tempo foram referenciais para a vida da cidade.  Sua discussão e a proposta  de soluções apenas poderão ser suscitadas pelos candidatos de oposição. Esperamos que o façam.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Economia e interesse popular


Aos poucos vão diminuindo o alarido sobre a crise internacional e a sensação de hecatombe que produziria sobre a economia brasileira.

Do lado de lá do Atlântico, o segundo pacote de ajuda ao sistema financeiro começa a atenuar os efeitos mais graves de desequilíbrio entre ativos e passivos dos bancos europeus e os casos mais graves de ruptura institucional no arranjo monetário do euro começam a ser contornados.

A Grécia já não se desgarrará, enquanto Portugal e Espanha reagem com mais facilidade ao purgativo de orçamentos fiscais mais apertados.

Ao norte da América latina, os Estados Unidos mostram o quanto há de venturoso possuir, na era do conhecimento, uma economia baseada em larga medida na inovação e na tecnologia. Enquanto setores tradicionais, como indústria e transformação, retomam lentamente o passo de crescimento, o setor de serviços mostra resultados surpreendentes no ritmo das contratações e empregos.

Tudo parece indicar que os impasses de 2011 na economia internacional não passaram de uma ligeira recaída no processo de recuperação do contágio das sub-prime (créditos podres securitizados por instituições de investimentos) iniciada de forma mais consistente quase 2 anos antes.

Os efeitos para o Brasil desse quadro externo favorável são que dificuldades conhecidas retomam agora seu lugar na agenda dos grandes problemas nacionais que aguardam solução: a queda na taxa de juros, como forma mais consistente de lidar com o problema cambial derivado da terapia de injeção monetária para salvar mundo afora grandes bancos; e a elevação da taxa de investimentos dos atuais 19% para desejáveis 21% , em relativamente curto espaço de tempo, a fim de ampliar o horizonte de crescimento econômico brasileiro sem que se gere inflação.

A solução desses dois problemas mais gerais cobra, contudo, uma série de medidas encadeadas no tempo de ajustes, estímulos e mudanças que bem poderiam consumir um governo inteiro, como haverá de ser com o governo Dilma. Mas o esforço ao final terá valido a pena.

Porque com a redução em termos estruturais das taxas de juros terá sido levado a bom termo o segundo processo mais relevante de transformações macroeconômicas já empreendidas no Brasil desde a eliminação do descontrole inflacionário na década de 1990.

Além de constituir passo formidável na conquista de investimentos sustentáveis na indústria, uma maior aproximação dos juros internos aos praticados nas principais praças financeiras do mundo terá o efeito de frear o ingresso de dólares no País em busca de ganhos fáceis de senhoriagem financeira, também causa da valorização artificial do real com todas suas consequências danosas para o emprego e, de novo, para o investimento em setores industriais menos competitivos.

Por sua vez, o deslocamento do que se convencionou chamar de formação bruta de capital em mais 2 ou 3 pontos percentuais fornecerá ao País a pista de que precisa para poder avançar à taxas de crescimento do PIB cada vez mais robustas, de modo a colocar-se logo em passo com o avanço de outros destacados emergentes, que o fazem em ritmo que é pelo menos o dobro do brasileiro.

O fato de que o caminho para esse programa visando proporcionar ao País condições de desenvolvimento prolongado no tempo, de modo a elevar o padrão médio de vida da população, esteja agora praticamente livre de ameaças externas, não deve fazer esquecer que seu traçado é politicamente construído. No sentido de que constitui-se das opções feitas com relação às diferentes modalidades possíveis de desenvolvimento e dos valores que possam ser adotados como guia para essa conquista.

O propósito de um tipo de desenvolvimento autônomo em relação à conveniências de outros países, que seja inclusivo e promova ao mesmo tempo a integração das demais nações da América do sul, não pode prescindir do combate ideológico permanente às visões de cunho liberal em economia e políticas públicas, lastreadas em visões de mundo próprias dos setores rentistas da sociedade, persuadidos a retomar a hegemonia na condução dos interesses nacionais. 

Nunca como agora economia e política mostraram-se tão emaranhadas nas perspectivas que se abrem ao País em futuro de não mais que uma década .  E da mesma forma que em outros momentos críticos da história, das escolhas em economia política feitas depende a afirmação dos interesses mais genuinamente nacionais.

Algo nada diferente do que se passa também em outros países que atravessam igual passagem para a condição de nações desenvolvidas, como Rússia, Índia e China.

domingo, 4 de março de 2012

A ciclista e o motoboy




Somos seletivos no nosso sofrimento e mais dispostos a prantear o infortúnio de quem nos pareça igual.

Um ciclista atropelado na avenida Paulista nos enche de comiseração enquanto a morte de um jovem mensageiro, em sua motocicleta comprada a prestação, mal nos chama a atenção.

Dois casos acontecidos quase que simultaneamente nas ruas de São Paulo deixaram há poucos dias essa impressão. Um, a morte de uma jovem que rumava ao trabalho pela a avenida paulista em sua bicicleta. O outro, o acidente fatal de um rapaz sobre sua moto numa avenida menos conhecida da cidade chamada Cupecê.

O perecimento da moça foi noticiado nos telejornais do dia com referências carinhosas ao nome que a vítima teve em vida, Jú. No local em que se acidentou, uma multidão aglomerou-se sob chuva intensa para homenageá-la com uma simbólica bicicleta branca.

A morte do outro jovem não mereceu menção, exceto pela referência indireta do repórter que fazia sobrevoo de helicóptero naquela tarde para informar a situação do trânsito. No mesmo dia foram outros dois casos como o dele, em diferentes pontos da cidade. No mês, dizem as estatísticas, quase 70.

Não houve culpados em nenhuma das situações. Apenas a rotina da cidade que, nos interstícios do anonimato, engendra todos os dias fatalidades. Há sim causas responsáveis, que para a ciclista foi uma cidade cedida aos automóveis e para o motociclista o subemprego a que se condenam garotos sem escolas e paternidades precoces.

Embora sejam  de igual modo frágeis os corpos estraçalhados pela lógica perversa que organiza a cidade, a percepção seletiva que temos nós mesmos das suas vítimas, por simples identidade de classe, com frequência nos colocam mais perto das soluções fáceis das pistas exclusivas para bicicletas nas avenidas nobres, do que de esforços mais sérios para acabar com o morticínio de meninos submetidos `a exploração do trabalho e `a baixa instrução.

sexta-feira, 2 de março de 2012

O descompromisso de Serra com São Paulo


A ausência de vínculos da candidatura Serra com os problemas da cidade é capturada por diferentes canais de percepção da sociedade e apresenta-se aos formadores de opinião como mero movimento de o candidato relançar sua carreira política no jogo da disputa política

Fica cada vez mais caracterizado que optou pela prefeitura no contexto de um plano partidário para resgatar a hegemonia das forças políticas que foram alijadas do governo federal com a vitória de Lula da Silva e que agora correm risco de perder a última trincheira no governo de São Paulo com sucesso das políticas econômicas e sociais que animam a força de adversários nesta segunda década do século XXI.

É essa sensação de uma candidatura descomprometida com os grandes problemas da cidade que expressa a editora de política do jornal Valor Econômico Maria Cristina Fernandes na coluna que fez publicar em 2 de março de 2012 (íntegra à baixo). 

Em texto elucidativo resgata o conteúdo de todos os artigos que o agora candidato Serra escreveu para periódicos de grande circulação em São Paulo desde quando saiu derrotado das últimas eleições presidenciais até que anunciasse sua candidatura a prefeito.

Mostra que em nenhum deles há uma linha sequer sobre questões relativas à cidade de São Paulo ou à discussão de temas que afligem as pessoas que nela vivem. Exclusivamente temas nacionais dominam a pauta abraçada pelo ex-candidato a presidente nos seus textos.

Mas um artigo escrito para uma revista esportiva parece chamar a atenção da jornalista nos comentários que faz. Aponta que Serra diz admirar o papel de goleiro no futebol, pelo fato deste jogar às costas de seu time e usar as mãos como instrumento privilegiado num jogo dominado pelos pés.

Estaria aí o candidato cometendo o ato falho de dizer que é da sua índole jogar sozinho nos bastidores e valer-se de meios estranhos às regras do jogo com a finalidade de obtenção de sucesso solitário? Ao artigo da articulista.



 Uma Página em branco

Maria Cristina Fernandes, para o jornal Valor Econômico

Entre a campanha presidencial de 2010 e a decisão de candidatar-se à Prefeitura de São Paulo, José Serra foi colunista de jornal. Escreveu 21 artigos em "O Estado de S.Paulo" e dez em "O Globo". A íntegra desses artigos está no seu site (www.joseserra.com.br), onde também se encontram discursos feitos em encontros partidários de que participou nesse período, comentários sobre a conjuntura e um artigo sobre goleiros publicado pelo jornal "Lance!".

Os artigos revelam o ex-candidato à Presidência da República, o ex-senador e, eventualmente, o ex-governador do Estado de São Paulo. Em nenhum momento, porém, avoca sua experiência de um ano e três meses frente à prefeitura da capital.

São textos fluidos e ácidos com raras concessões ao lirismo, como no texto em que revela sua simpatia pelos goleiros: "Vê seu time sempre pelas costas e o adversário pela frente. Trabalha com as mãos no esporte dos pés".

Faz revelações de sua infância ao rememorar os 50 anos da renúncia de Jânio. Sua mãe entusiasmou-se pela campanha do tostão contra o milhão. As mulheres consideravam Jânio um político diferente dos outros. O jovem Serra também. Achava que havia feito um bom governo em São Paulo, "operoso e sem escândalos" e, por isso, tinha lhe dado o primeiro voto de sua vida. O pai era contra por sua gestão na prefeitura, quando os fiscais cobravam caixinha dos feirantes do Mercado Municipal.

Serra fez duas estreias. Na imprensa começou com um "Oposição para quê?", em que faz referências não tão veladas à proeminência que o senador Aécio Neves havia adquirido no partido. Diz que o PSDB não sabe fazer oposição e considera razoável o eleitor imaginar que "não sabe governar quem não sabe se opor". Sugere os 10 Mandamentos como cartilha para a oposição e sugere o 11º: "Não ajudarás o adversário atacando teu colega de partido".

Faltou São Paulo nos artigos de José Serra

Ao abrir o site, em um pequeno artigo com o título "Minha primeira vez", cita um conto de Machado de Assis: "As palavras têm sexo, unem-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas chama-se estilo".

Na internet e nos jornais o que predomina são os textos de crítica ao governo federal. Desindustrialização, câmbio e infraestrutura são os temas econômicos mais frequentes. Recorre à terceira colocação do Brasil no índice do Big Mac mais caro para fazer suas críticas ao câmbio sobrevalorizado. Reclama de uma política mais agressiva para o turismo, capaz de competir pelos R$ 16 bilhões que os brasileiros gastaram em 2010 no exterior.

Considera o trem-bala "o pior projeto da história" e diz que as concessões petistas das rodovias federais "não foram 'a preço de banana', foram de graça mesmo" para concluir que "a pior ideologia é a incompetência".

Faz um único elogio à política econômica, reservado ao site. Quando o Copom baixa meio ponto da Selic defende a credibilidade do Banco Central e o direito de a presidente conversar com seus diretores e ministros da área econômica sobre os rumos da política monetária.

Volta e meia analisa a economia internacional. Diz que o Euro foi o "maior erro de política econômica em escala internacional na segunda metade do século XX".

Faz críticas recorrentes a corrupção e a loteamento de cargos, queixa-se dos rumos da reforma política e do que avalia como abandono do tema dos direitos humanos na política externa. Faz um artigo sobre saúde, relembrando sua atuação no ministério e defendendo a vinculação de recursos. Já este ano escreveu um artigo sobre o Enem em que critica a iniciativa petista de tentar mudar a forma de ingresso nas universidades transformando-o num vestibular gigantesco e mal administrado.

Nos 12 meses em que escreveu Serra não falou do transporte público, das creches, das AMAs (Assistências Médicas Ambulatoriais) ou da limpeza urbana da cidade de São Paulo.

Ele avisara, ao estrear como articulista, que estaria ocupado com o "futuro do Brasil e dos brasileiros". Na carta que entregou ao diretório municipal do PSDB reconheceu que os 44 milhões de votos que recebera em 2010 lhe estimularam a voltar sua atenção a questões nacionais.

Em sua primeira entrevista como pré-candidato, Serra disse que apresentava sua postulação por "necessidade política e por gosto de ser prefeito".

Se nem ele nem seu partido acreditavam ter alternativa, foi efetivamente por necessidade que resolveu se apresentar. Mas que a prefeitura mobiliza seus gostos não havia como adivinhar.

Esta é, no PSDB, uma das principais preocupações de sua campanha. Serra terá, provavelmente, a vantagem de liderar a mais robusta aliança partidária da sucessão paulistana. Além disso, conta com o histórico eleitoral de uma cidade que favorece candidaturas de centro-direita. Apesar disso tudo, porém, esta deve ser uma campanha mais difícil do que aquela em que venceu Marta Suplicy em 2004.

Naquele ano Serra ainda tinha fresco na memória do eleitor a passagem, havia dois anos, pelo Ministério da Saúde, quando fez uma gestão inovadora.

Agora já se passaram dez anos desde que deixou a Saúde. A avaliação é que lhe faltam marcas e sobram desgastes acumulados numa polêmica campanha presidencial. Aquilo que fez na rápida passagem pela prefeitura acabaria sendo creditado na conta de Gilberto Kassab, que ruma para concluir seu segundo mandato no posto. Também é difícil evitar que o que restou de sua administração como governador de Estado durante dois anos e três meses não se diluísse nos mais de sete anos que Geraldo Alckmin já acumula no cargo.

Até pode ser verdade, como diz Serra, que na eleição paulistana disputam-se os rumos da política nacional, dado o peso que os dois principais partidos do país jogam na parada. Mas não parece tão claro que a mão inversa funcione com a mesma fluidez. A blindagem do regime sírio, o futuro do euro, o nó cambial, o loteamento da Funasa ou a reforma política talvez tenham pouca influência sobre o voto paulistano.

Não que se deva esquecer o que escreveu. Há muitos momentos de lucidez nos artigos de Serra. A questão agora é preencher a página de São Paulo que ficou em branco.






O primeiro passo em falso do candidato Serra


Diz um conhecido adágio que esperteza demais acaba devorando o esperto. Esse é o risco em que incorre a dupla Serra- Kassab ao anunciar que o ex-governador poderia apoiar a recondução de Dilma Russef ao Planalto em eventual disputa contra seu colega de partido, o mineiro Aécio Neves.

O estratagema repete o usado pelo ex-governador em 2010 quando deu a conhecer que se eleito presidente daria continuidade às grandes linhas do governo Lula da Silva.
Além de não convencer adversários, a idéia, gestada em laboratórios de marketing eleitoral, produziu um cisma irreversível na própria base eleitoral do candidato.

Deve considerar Serra agora que, em virtude da aproximação do seu adepto prefeito à base de apoio do governo federal, o argumento soaria mais verossímil. Com aparência de verdade sim, de algum modo convincente jamais.

Para que Serra abandone o candidato presidencial tucano de momento,  em favor de Dilma, teria antes que anunciar o abandono futuro de seu partido e recusar, desde já, o apoio de que necessita das instâncias partidárias superiores do PSDB - todas alinhadas com o senador mineiro - a  fim de que continue cogitando de vencer nas eleições de outubro.

O suspeitoso gesto mal esconde o fato que verdadeiramente o motiva; a preocupação com a popularidade da presidente que, de acordo com pesquisas a serem divulgadas, conta com índice aprovação de 62% no Brasil e algo inferior a isso na capital paulista.

Tampouco oculta o incômodo com a popularidade nas alturas do presidente Lula da Silva que, convalescente de doença grave teve sua força eleitoral reforçada pela gratidão que lhe devotam diferentes setores da sociedade pela rota de sucesso em que colocou a economia nos últimos dez anos.

Mas se as falaciosas declarações de apoio a Dilma não têm o condão de fazer baixar os fuzis que haverão de levantar-se – à direita com Chalita e à esquerda com Haddad – contra a tentativa do ex-governador de reerguer-se na cena política, possui octanagem suficiente para carbonizar a recalcitrante confiança que ainda depositam em Serra a militância e a liderança tucana, de que desta vez não fará uma campanha traiçoeira a seu próprio partido.