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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Matou 50 e foi tomar cerveja



Depois de lançar o transatlântico pelo qual era responsável contra o continente, passando a apenas 150 metros da costa e vê-lo adernar com 4.200 passageiros a bordo, o capitão Schetino abandonou a embarcação e foi calmamente para um hotel.
O caso faz lembrar ainda um outro, o do Airbus 386 da Air France, que se precipitou contra o oceano atlântico há mais de um ano atrás, matando quase 300 pessoas, enquanto seu comandante repousava em uma das poltronas da primeira classe. Ou o episódio do avião da TAM em São Paulo, que posou sem que as turbinas fossem invertidas causando o choque contra  edifícios próximos ao aeroporto.
Os dois eventos tem em comum o fato de envolverem aparatos tecnológicos de alta complexidade, capazes de detectar qualquer anormalidade no ambiente externo ou no funcionamento de equipamentos de maneira automática, sem a necessidade de qualquer perícia especial humana.
Em todos, o fator definitivo para que o desastre ocorresse foi o humano, a distração e a incúria de gente que se supunha altamente treinada e de elevada responsabilidade para zelar pelas vidas cujo destino tinham em mãos.
Também por trás de todas esses casos havia grandes corporações ou empresas comerciais, que gastam fortunas nos meios de comunicação para vender aos consumidores de seus serviços a idéia de máxima segurança e conforto, arregimentando-os em massa para uma viagem sem volta.
A sensação de segurança que parece guiar todos os responsáveis pela operação de sistemas, em que falhas mínimas podem ter repercussões desastrosas, advém da falsa idéia de exercerem o controle sobre processos de alta complexidade por meio de rotinas e equipamentos que, presume-se, alertam e corrigem em tempo hábil alterações imprevistas no curso das ações programadas.
Em plano mais elevado, a mesma alienação de responsabilidades assoma as instâncias de controle oficiais incumbidas de acompanhar, regular e controlar as operações de empresas comerciais ávidas por encher de gente navios e aviões e colocar em serviço - ao menor custo possível com remunerações, manutenção e treinamento - equipes gerenciadoras dessas máquinas que faturaram bilhões de dólares anualmente.
Da parte dos consumidores, certo sentimento de afluência e ansiedade coletiva pelo consumo de coisas que pareçam grandiosas contribui com mais um ingrediente para a ocorrência de tragédias com elevado custo em vidas humanas.
Enquanto empresas, governos e consumidores não assumirem cada um seus papéis, fazendo refrear a oferta e consumo irresponsável dessa modalidade bens e serviços, muitas mortes podem ser esperadas. E nem sempre haverá um capitão tomando cerveja tranquilamente num hotel para imputar a culpa.

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