Mostrando postagens com marcador economia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador economia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Para Miriam Leitão ver: contas do Brasil são as melhores em 5 anos



Saíram os números da conta corrente brasileira para 2012. E os resultados apurados foram os maiores registrados nos últimos 5 anos: 65 bilhões de reais.
O desempenho é importante porque demonstra uma vitalidade sem precedentes da economia brasileira, que surfa as ondas da crise que varre a Europa. Não é mais marolinha, mas tsunami de verdade que a gestão competente da política de comércio vem sabendo aproveitar.
As consequência disso, além de um fechamento tranqüilo das contas externas, costuma ser um influxo de dólares que não apenas irriga o crédito de que tanto precisamos para manter o consumo em alta, como também um saudável reforço do escudo contra o agravamento da crise pelo efeito demonstração que os resultados colocam em evidência.
Há efeitos menos desejados. A apreciação do real, que tem o efeito de desestimular as exportações das indústrias. Porém, nas circunstâncias de crise que atravessamos a linha de resistência à maré recessiva está no mercado interno, cujo dinamismo estimulado por importações mais baratas pode sustentar um crescimento não inflacionário da economia.
Desatarão, por certo, os catastrofistas a cantilena da desindustrialização. Tipo de fantasma que ninguém até agora viu, já que as indústrias mais expostas à concorrência, como têxteis e alimentos, tem buscado competitividade deslocando-se para regiões onde a mão de obra é mais barata no país, como o nordeste, e investido pesadamente em tecnologia. Enquanto, de modo geral, a indústria como um todo ganha por meio da oferta mais abundante de meios de produção.
Não há que se esquecer que a apreciação de 12% do real frente o dólar foi uma das maiores do mundo durante a borrasca da crise. A eventual redução do valor da moeda nacional agora, motivada por um ingresso maior de dólares, deverá trazê-la para os níveis médios das moedas de países em desenvolvimento com que o Brasil compete, coisa de 5%.
Tudo posto, Miriam Leitão continuará desorientada perguntando a seu gurú Armínio Fraga o que dizer aos telespectadores cada vez menos interessados de suas análises furadas.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Trombini Acertou


Tamanho é o fogo cerrado do jornalismo econômico sobre a condução da política econômica que, ultimamente, fatos positivos têm sido vendidos como verdadeiros desastres. Justiça se faça ao Jornal Valor Econômico que em editorial (certamente para atender sua clientela da indústria) reconheceu que o Banco Central acertou de mão cheia as últimas apostas contra o chamado mercado.
Acertou e esse acerto haverá de tornar mais amena a vida dos brasileiros no próximo período.  As personalidades de sempre do mundo financeiro desceram o pau na autoridade monetária desde que esta, recusando a campanha movida por esses agentes, resolveu adotar, lá por agosto do ano passado, as medidas macro-prudenciais de restrição ao crédito.
 Consistem tais medidas na exigência de que os bancos comerciais aumentem as reservas mantidas junto ao Banco Central,  com a finalidade de conter o crédito via controles quantitativo de moeda e não por meio de mecanismo de mercado baseado na fixação de juros mais altos.
Não perdoaram a heterodoxia ao presidente do Banco Central porque antecipavam que o governo se empenharia a partir de então em fazer baixar as taxas de juros sem recorrer ao encarecimento do crédito para salvaguardar o lucro dos bancos.
Como todos sabem bancos gostam de criar moeda por meio do crédito. Desde que lhes preservem o patamar de juros estará tudo bem, porque podem ocupar-se apenas de controlar o quanto de moeda vão criar a partir de um piso alto de taxas de juros.
Aumentar o compulsório sobre s depósitos limita-lhes a liberdade de estabelecer o montante de empréstimos que podem conceder sem comprometer seus balanços de fim de ano. Algo semelhante à permissão hipotética que se desse à companhia de águas para cobrar uma tarifa mínima de R$500,00 dos seus consumidores e racionar a oferta de quem não se dispusesse pagá-la.
Por isso a grita geral quando o Banco Central efetivamente passou a baixar os juros. Acusaram-no de abdicar da sua autonomia para atender às conveniências do governo, que buscaria com a medida nada mais que aliviar suas despesas com juros para poder gastar em outras bobagens de custeio.
Foram além, fizeram troça da sabedoria econômica do presidente do Banco Central, recomendando-lhe que lesse mais sobre experiências internacionais e conversasse com entendidos da matéria.
Diante da ponderação de que baixar os juros seria crucial para o enfrentamento de uma conjuntura mais severa devido a crise na Europa, chegaram ao ridículo – como fez Luiz Carlos Mendonça de Barros – de argumentar que o governo agia com pessimismo demais em relação à crise no Velho Continente. Quase que roubando ao Lula a expressão “marolinha”, no esforço de convencimento dos agentes econômicos de que aquilo que é bom para os bancos é bom também para o Brasil.
Trombini não deu bola para a torcida e aprofundou a política de cortes de juros. Os resultados aparecem agora num esfriamento necessário da economia que, mesmo contida, haverá de galgar robustos 3,5% no final de 2011. Que traz ainda consigo o bônus de uma saudável reversão das expectativas inflacionárias para o centro da meta no curto prazo, 5,5%. 
Isso dá agora ao governo a possibilidade de ir temperando a demanda em direção ao nível que considere mais adequado em termos de custos alternativos de inflação e de emprego. É no contexto dessa busca por equilíbrio que devem ser interpretadas as medidas mais recentes de afrouxamento das condições de crédito  para bens de consumo da linha branca e dos critérios de ingresso de capitais estrangeiros no País.
 Graças à coragem de Trombini de recusar o receituário dos bancos para a política monetária, o Brasil vê ampliados os graus de liberdade com que pode contar para enfrentar os efeitos da crise internacional, que se aprofunda sim a despeito da argumentação irresponsável dos economistas de oposição.
Mais importante, os acertos do Banco Central provam que o sucesso do País pode prescindir da subserviência ao capital financeiro.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

No Pelotão de Frente






Insiste em não funcionar a bola de cristal dos analistas mais críticos com relação ao desempenho da economia brasileira. Como tem sido possível acompanhar pelos telejornais, as últimas semanas foram pródigas em análises que davam como certa a derrocada do saldo de comércio dos produtos industrializados na pauta de exportações do país.

Afinal, para soar coerente, a afirmação da existência de um processo de desindustrialização no Brasil,  que faria a economia retroceder à sua fase agrária-exportatora, não poderia dispensar a confirmação da tese de um desempenho pífio da exportação de industrializados.

Ocorre que os números agora divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior mostram exatamente o contrário. Entre janeiro e setembro o Brasil exportou 13% a mais de bens industrializados que um ano antes, ao mesmo tempo em que manteve o crescimento no valor das exportações de matérias primas . O resultado global, entre manufaturados e semi-manufaturados no mesmo período, foi o maior dos último 4 anos e surpreendeu analistas do comércio e da indústria com cifras que beiram os 20%. Já os números totais da exportação foram mesmo de assustar: 85% maiores em setembro último que em setembro de 2010, incluindo aí industrializados (manufaturados e semi) bem como os básicos (minérios e agrícolas).

Mas o que isso significa para os processos em curso na economia e para as  tendências do próximo período? Basicamente que a melhora das condições de comércio internacional viabilizadas pela inflexão de câmbio, agora mais valorizado, deverão estar assentadas sobre uma paridade cambial (considerada uma cesta referencial de moedas) não tão desfavorável como foi pensado de início, já que a contribuição do dólar mais valorizado nos últimos 15 dias não explicaria por si só o boom que os números divulgados evidenciam.

Fica patente também que todo blá-blá-blá sobre a desvalorização das comodities agrominerias em contrapartida à recidiva da crise internacional que atinge Estados Unidos e Europa era ao apenas o que era: puro blá-blá-blá. O dinamismo das economias em desenvolvimento tem se revelado forte o bastante para compensar via preços uma quantidade mais modesta da exportação de matérias primas, 4% maior no acumulado do semestre em relação a igual período do ano, mas que tiveram os preços puxados para cima coisa  entre 20 e 60% a depender da comódite. Algo digno de nota pelo que traz de revelador sobre a exacerbação da demanda por alimentos e matérias primas presente no mundo em desenvolvimento, China e Índia à frente.

Com isso ficam mais afastadas as hipótese de contaminaçnao da economia brasileira pelo lado das contas externas (relações com outros países) já que não só as contas de comércio mostram-se exuberantes como a conta de capital não pára de mostrar resultados superavitários por causa do ingresso continuado de cpitais buscando tirar proveito da excelente fase das condições econômicas do País frente o mundo.

Se está afastado o risco de contaminação  por via da situação internacional e as relações de comércio seguem bem então podemos contar ainda com um bom nível de importações que nos permita frear o impulso dos preços internos para continuar baixando a taxa de juros, ao mesmo tempo em que se põe um toriniquete nos gastos públicos a fim de tornar essa redução verdadeiramente exequível.

Não há, pois, porquê temermos a tormenta. Tudo indica que a economia brasileira sofreu uma transformação estrutural na sua forma de operar internamente e em relação com o mundo. Nenhum desajuste de monta parece obstar nesse mar tormentoso a chegada do País à condição de 7ª potência do mundo.

Segue artigo do Valor Econômico em que se fundamenta o comentário acima.


Preço de insumos e venda de manufaturados elevam saldo
Por Sérgio Leo da Valor Econômico, edição de 04/10/2011

O grande aumento nos preços das commodities, somado a um surpreendente desempenho na venda de produtos industrializados, como semimanufaturados de ferro e aço, ferro-gusa e motores de veículos, garantiu ao Brasil resultado surpreendente no comércio exterior nos primeiros nove meses do ano: com exportações e importações recordes para o mês de setembro, o país obteve saldo positivo de US$ 27 bilhões na balança comercial de janeiro a setembro. Só no mês passado, o superávit chegou a US$ 3 bilhões, 85% acima do resultado de setembro de 2010.
"Se estivéssemos concentrados apenas no mercado europeu e no americano, estaríamos sentindo a turbulência e o arrefecimento do crescimento", reconheceu o secretário-executivo-adjunto do Ministério do Desenvolvimento, Ricardo Shaefer. Em setembro, um dos destaques da exportação foram as vendas de óleo de soja em bruto, que aumentaram 155%, especialmente para China, Índia e Irã.

Segundo o ministério, o aumento nas exportações de minério de ferro, petróleo, soja em grão, café em grão e carne de frango - que representam mais de um terço das vendas brasileiras ao exterior - se explica principalmente pelos altos preços, entre 20% a 61% acima dos patamares verificados nos nove primeiros meses do ano passado.

O maior aumento nas quantidades exportadas foi de apenas 6% para o minério de ferro e 4% para o café em grão. O volume de petróleo exportado até caiu, 1%, o que foi compensado com o aumento de 40% nos preços.

"Tivemos um bom resultado na balança comercial de setembro", avaliou o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior Brasileiro (AEB), José Augusto de Castro. "Mas é claro que, em 2012, o cenário vai mudar completamente, com queda nas importações e exportações."

As vendas de produtos manufaturados, sensíveis à desaceleração econômica, subiram 12,3%. Somadas a elas as vendas dos semimanufaturados (produtos usados no processo industrial), que cresceram 40% em setembro, o aumento nas exportações de produtos industrializados chegou a 19,6%, pouco acima da média do crescimento no comércio mundial previsto para este ano pelo FMI.

"As exportações de produtos industrializados cresceram 22,6% até setembro, um aumento expressivo comparado ao crescimento do comércio mundial previsto pelo FMI", comparou a secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres.

Ela enfatizou que o saldo comercial, de US$ 23 bilhões nos primeiros nove meses do ano, é o maior dos últimos quatro anos. Segundo Tatiana, só no começo do próximo ano deverá fazer efeito a variação do dólar, que, ainda instável, impede qualquer previsão. As importações, em setembro, aumentaram apenas 13,8%, mas ficaram acima de US$ 1 bilhão diário, o que reflete a comparação com as médias de importação muito altas de setembro do ano passado.

Um desempenho que chamou a atenção do governo foi a queda, pela primeira vez em muitos meses, das importações de máquinas e equipamentos para a indústria, os bens de capital. O governo rejeita, porém, a interpretação de que esse resultado reflita uma desaceleração dos investimentos.

A queda se deve, segundo o Ministério do Desenvolvimento, à comparação com setembro de 2010, quando um número reduzido de empresas fez compras "muito expressivas" no exterior de equipamentos siderúrgicos e de energia elétrica. "Se descontarmos as operações atípicas de setembro do ano passado, as importações de bens de capital teriam crescido 8,5%, dentro da média", disse Tatiana.

Para Shaeffer, a queda nas vendas de automóveis, de 13% em setembro, comparadas aos resultados de setembro de 2010, devem se explicar pela preferência pelo mercado interno, que fez aumentar em 40% as importações de veículos no mês. "É cedo para chegar a qualquer conclusão em relação às exportações de manufaturados", disse. "O que se verifica é que é as exportações brasileiras não estão sofrendo impacto da retração nos mercados", disse.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O aumento do IPI para carros importados foi correto, conclui estudo da GV



Estudos divulgados há pouco pela Fundação Getúlio Vargas mostram que, ao contrário do alarido de economistas da oposição, o Governo estava absolutamente certo quando elevou as tarifas para automóveis importados com baixo conteúdo nacional. O estudo chegou a essa conclusão comparando  a relação que as moedas da China e do Brasil mantêm com o dólar por meio das respectivas taxas de câmbio.

Enquanto sabemos que o real está bastante valorizado com relação ao dólar, o contrário se passa com o yuan (moeda chinesa). A nossa moeda está valorizada cerca de 30% em relação à americana. A moeda chinesa está desvalorizada mais ou menos 30% frente a estadunidense.

Uma coisa pela outra, não só nossas tarifas de importação ficam zeradas se considerado o nível de 30 a 35% da tarifa aduaneira vigente hoje no Brasil, como os chineses levam ainda uma vantagem de quase  35% nas suas trocas com o Brasil por causa do grau de desavalorização de sua própria moeda.

A diferença total, somando a nossa desvantagem e a vantagem deles, fica em 70 pontos a favor dos orientais. Isso significa que nossas tarifas de importação, sem a rodada recente de elevação  do impostos sobre produtos industrializados ficariam negativas em 30%.

O cálculo da GV deixa bem claro que não havia qualquer fundamento na afirmação de que a elevação do IPI representaria uma restrição ilegítima ao comércio entre os dois países. Ao contrário, já há contencioso aberto no âmbito da Organização Geral de Comércio de que eventuais diferenças a partir de 20% da paridade entre as moeda de 2 países devam ser corrigidas por mecanismos compensatórios a serem definidos. Na nosso caso, a diferença já somava 70%.

Interessante notar que o crítico mais ácido da medida de elevação do IPI foi o ex-candidato à presidência José Serra, que fêz publicar artigo de baixa repercussão na imprensa especializada relacionando o aumento da alíquota do imposto a uma suposta herança maldita legada pelo governo anterior ao atual. O que não procede sequer como discurso político dado o fato de ter sido exatamente a suposta herança que fêz possível à política de comércio exterior brasileira suportar a bucha do desequilíbrio entre as moedas por tanto tempo.

Mais incosistência foi o ex-ministro  do governo FHC, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que considerou a compensação pretendida pelo imposto com o fechamento comercial perpretado pela ditadura militar, como se os dias de hoje pudessem ser comparados, em termos de abertura e integração do comércio internacional, com aqueles de 30 anos atrás.

Já pensaram uns caras desses chegando à Presidiencia da República. Aí sim bau-bau para indústria nacional.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ninguém Durma, alerta Delfim


Não é à toa que os economistas de oposição firmam a mira em buscam almejar o velho professor Delfim Netto. O homem, do alto dos seus talvez 80 e poucos anos de idade, é portador de uma cuidade intelectual de tirar o chapéu - e talvez a própria cabeça - de quem venha avaliar a pertinência e a pertinácia de seus escritos semanais no jornal Valor Econômico.
O fato novo é que agora o radar de Delfim detecta o inelutável aprofundamento da crise internacional. Até agora havia muita palpitaria de torcida sobre o grau de afetação do Brasil pela crise, esquecida a maioria da caracterização da crise em si, em termos de sua capacidade de afetar a estabilidade macroeconômica do país.
Mas Delfim mostra, com forte dose de realismo, que a vaga vem mesmo por aí. Aponta como indícios veementes dessa factualidade a vacilação no FMI e uma quase confissão de funcionários seus franceses de que há comprometimento além do esperado sistama financeiro do país. O que é exasperante dado o peso que tem a França no sistema europeu de mercado. A Alemanha, centro da gravidade da política européia, divide-se com debandada de parte do corpo de diretores de seu banco central. Segue o artigo do professor.
Nessun Dorma...
Antonio Delfim Netto para o jornal Valor Econômico, edição de 20/09/2011

É um fato conhecido que os competentes economistas alemães representam a fina flor do mais extremo monetarismo ao qual somam uma boa dose de conservadorismo. Foram ferozmente contra as concessões (com implicações econômicas) feitas por Helmut Kohl, quando aproveitou uma janela semiaberta e teve a coragem de reunificar a Alemanha, objetivo político de longo prazo absolutamente desdenhado pelos "puristas econômicos".
Quando a Alemanha decidiu participar do euro, 150 dos seus mais reconhecidos acadêmicos publicaram um célebre manifesto contra, com bons argumentos, mas que de novo ignorava solenemente o objetivo político de longo prazo, que era a pacificação de um continente que durante os últimos mil anos foi atormentado por guerras.
Os argumentos eram respeitáveis e mostravam que o sucesso do euro dependia de um rigoroso controle da situação fiscal de cada país, preliminar para a construção de uma área monetária ótima: absoluto controle fiscal, liberdade de movimentos da mão de obra e de capitais e a cessão da emissão das moedas nacionais a um banco central autônomo, com uma nova unidade monetária, com relação à qual as taxas de câmbio de cada país seriam irrevogavelmente fixadas.
Nem o Fed, nem o BCE sabem, até agora, o que fazer
Eram contra, porque não acreditavam que os países se submeteriam a tal disciplina. Para impô-la, foi formalmente estabelecido e aprovado no acordo de Maastricht, que precedeu a introdução do euro, que: 1) nenhum país poderia ter déficit nominal superior a 3% do PIB; e 2) uma relação dívida/PIB maior do que 60%.
Por que não funcionou? Porque os governos de vários países (em particular da Grécia) mentiram, como suspeitavam os economistas alemães! Ilidiram aquelas condições com a conivência do sistema financeiro internacional e das agências de risco. Tudo veio à tona depois da "quebra" do Lehman Brothers, quando a "rede de patifarias" escondida nos derivativos tóxicos explodiu na cara dos bancos centrais, sob o nariz dos quais ela se realizara. É cada vez mais evidente que esses não se recuperaram do choque: nem o Federal Reserve dos EUA, nem o BCE da Eurolândia sabem, até agora, o que fazer.
Nos EUA, parece que começa a haver uma mudança. Mais de uma dezena de instituições financeiras, que ativamente (com a conivência das agências de risco) assaltaram os incautos aplicadores, começam a ser investigadas e, seguramente, algumas serão responsabilizadas criminalmente. Trata-se de um problema moral, que não pode mais ser escondido pelo governo Obama como foi até agora.
Tardiamente, ele propõe ao Congresso um novo pacote de estímulos para diminuir o sofrimento de 25 milhões de honestos trabalhadores (15 milhões com desemprego aberto e 10 milhões semiempregados), que acabaram desempregados com a política econômica (inspirada por distintos acadêmicos comprometidos com o sistema financeiro) que "salvou" os desonestos administradores.
Até agora, o presidente do Fed, Ben Bernanke, não disse a que veio: apenas repete, repete e repete o velho refrão, "farei o que tenho de fazer". Continua indeciso sobre como atender ao seu duplo mandato: manter alto o nível de emprego e manter baixa a taxa de inflação.
O sinal de que ainda resta vida inteligente nos EUA veio num artigo no "Financial Times", do secretário do Tesouro, Tim Geithner, onde afirmou que é hora dos governos deixarem de lado a paralisia política e esquecerem os medos infundados com a inflação.
No fundo, ele está transmitindo aos bancos centrais, que continuam mesmerizados pelos seus modelitos, que a taxa de juros nominal já é nula e que a taxa de inflação está na "meta", mas a taxa de desemprego é quase o dobro da famosa Nairu (a taxa de desemprego que não acelera a inflação). Logo, é uma eficaz política fiscal que deve ser ativada.
É por isso que ele afirma que os EUA resistirão a um rápido ajuste fiscal em 2012 e recomenda a todos os países em dificuldades que façam o mesmo. Essa coordenação, se realizada, tornará mais potente e mais veloz os resultados.
No Banco Central Europeu (BCE), a situação se agrava. Enquanto Trichet aguarda sua substituição formal por Mario Draghi, os representantes alemães (diante do iminente desastre político da chanceler Merkel) abandonam o barco, alegando "razões pessoais". Primeiro foi Alex Weber (presidente do Bundesbank). Agora foi Juergen Stark, o que aperta ainda mais a "saia justa" de Merkel.
Se não bastassem esses problemas, o ministro das Finanças da Holanda, Jan Kees de Jager, sugere claramente a expulsão da Grécia, a pedido: "Quando não conseguimos respeitar as regras do jogo, devemos deixá-lo". O FMI, por sua inexperiente diretora-gerente, Christine Lagarde, lança dúvidas sobre a higidez dos bancos europeus que têm em carteira títulos gregos. Como todos sabem que ela conhece apenas os bancos franceses, produziu uma corrida sobre eles.
Parece óbvio que ninguém se entende. Tem razão o dr. Tombini. Vamos pôr nossas barbas de molho e nos proteger da provável desintegração da economia mundial.

Fisgado pela Boca





Acostumamo-nos a ver nas pessoas que se pronunciam com freqüência na mídia vergando a beca de “experts” em assuntos que não dominamos, autoridades máximas a quem devêssemos dar ouvidos mesmo pouco entendendo daquilo sobre o que discorrem.

Esse ponto de vista perigoso tem sido tônica na opinião pública durante as últimas décadas e não raro tem levado a impasses terríveis, pagos em geral por aqueles que optam pela passividade diante de um ponto de vista enviesado.

Lembro bem que minha mãe, diante de polêmica acalorada sobre a qual não entendia os fundamentos, costumava deixar a solução da pendenga aos contendores, dizendo: “vocês que são brancos que se entendam!”.

Esse tipo de postura omissa veio-me à mente ao ler artigo do professor, mas agora homem do mercado financeiro Roberto Mendonça de Barros, publicado no Jornal Valor Econômico da última 2ª feira, no qual se manifesta sobre os riscos embutidos na recente medida de elevação do IPI (imposto sobre produtos industrializados) para conter a importação de carros asiáticos sem agregação de valor em componentes nacionais.

Confessando-se de partida não identificado com medidas restritivas às importações, que considera inocente das dificuldades por que vem passando a indústria nacional, Mendonção (como era conhecido nos tempos do governo FHC) perfila percentuais referentes ao peso da indústria no PIB dos tempos da redemocratização para cá a fim de dar mostras de que a indústria vem paulatinamente perdendo importância no produto nacional. Aponta que essa participação já foi de 30% do PIB quando passaram o governo ao sucessor Lula, e que agora teria chegado a 28% do PIB sob Dilma.

Mas o propósito de Mendonça de Barros não é o de demonstrar maior apreço pela indústria por parte do governo que integrou, mas acusar o governo Dilma haver se rendido a uma política de fechamento de mercados tal qual o regime militar na primeira metade da década dos 80 , quando o peso da indústria chegou a corresponder a 50% do PIB por força de um quadro generalizado de proteção a indústria que, com justa razão, reputa como responsável pelo atraso tecnológico e a alta inflação que se verificou durante aquele decênio.

Mas aposta o professor na baixa capacidade de contextualização do leitor para avançar em seu arrazoado, pondo em comparação dois períodos que a única coisa em comum que possuem é a de terem transcorrido ao mesmo povo num mesmo lugar do mundo, o Brasil.

Para começo de conversa, no início do último quartil do século passado o fechamento do mercado era regra e não execção no mundo, porque ainda não havia se aprofundado o movimento de internacionalização de capitais e de mercados a que damos hoje o nome de globalização.

Atualmente a economia internacional, devido às forças avassaladoras da acumulação de capital, é quase que perfeitamente integrada e o grau de abertura da economia brasileira, em particular, se considerado o fluxo de comércio (soma de exportações e importações sobre o total da produção), é em linha com os maiores players do mundo (cerca de 17%).

A conta de menos que faz o professor da perda de participação relativa da indústria no PIB, imaginando a única operação de que seus leitores sejam capazes de fazer, deixa de levar em conta o fato definitivo de que em todos os países que experimentaram um processo de desenvolvimento econômico e social foi comum a perda de relevância da indústria frente o setor de serviços, devido à maior sofisticação dos mercados e ao  maior aporte de conhecimentos trazidos pelos avanços tecnológicos. Tudo isso implicando reforço do setor de serviços.

Na medida em que o professor limita a avaliação do que considera desindustrialização ao  critério da perda de representatividade da indústria no PIB, não é ocioso considerar se há de fato perda de complexidade dos fluxos de comércio do país, o que é melhor obtido pela ótica das exportações.  

Deve-se reconhecer que apesar da grande participação de produtos básicos, o Brasil encontra-se em posição intermediária quando considerada uma medida de complexidade de sua pauta de comércio.  Um produto será considerado mais complexo (mais sofisticado) quanto menos países conseguirem exportá-lo; a pauta de exportações de um país será considerada mais complexa quanto mais tipos de produtos diferentes ele conseguir exportar, e mais ainda se conseguir exportar produtos que outros não consigam.

Um país só será capaz de produzir e exportar um determinado produto somente se possuir as capacitações específicas necessárias (habilidades técnicas, instituições, máquinas, infraestrutura, matérias primas etc.). Assim, um país com uma estrutura produtiva mais diversificada demonstrará ter mais capacitações. A complexidade será associada com o conjunto de capacitações requeridas para a elaboração de um produto e disponíveis em uma economia.

Pelo uso de método de classificação baseado nesse critério é possível classificar 124 países segundo a complexidade de sua pauta de exportações; quanto menor a posição no ranking, ou seja, mais próxima à primeira posição, maior é a complexidade imputada à estrutura produtiva do país.

Apresentam pautas mais sofisticadas desde alguns dos maiores exportadores mundiais (Alemanha e EUA) até países com menor volume total de vendas (Suécia e Finlândia). No ranking de países, o Brasil situava-se na 30ª posição. Índia e China encontravam-se em posições bastante posteriores, 49ª e 50ª, respectivamente. Os últimos da amostra considerada são Camboja (124ª), Papua Nova Guiné (123ª) e Nigéria (122ª).

No que toca especificamente às medidas contingenciais de proteção a importações predatórias, maliciosamente Mendonça de Barros busca dar a elas uma dimensão que não tem. São medidas que pelo seu caráter circunstancial são impotentes para induzirem um processo de fechamento da economia ou de restringirem os efeitos anti-inflacionários das importações. Trata-se de medidas conjunturais, perfeitamente legítimas na gestão de qualquer economia em condições de crise internacional.

A verdade por trás da análise com sabor de groselha do professor é que hoje em dia não é ele nem mais professor nem economista isento. É dono de um grande escritório de consultoria econômica, a MB Associados, que tem entre os seus clientes uma vasta lista de importadores e financiadores de Blockbusters sobre 4 rodas.

Como muitos pássaros emplumados, o consultor (agora podemos dizê-lo) esconde sua verdadeira natureza de ave de rapina.
               

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dois Fronts


Com o aprofundamento da conjuntura de crise começam a ganhar contornos mais definidos as posições dos diferentes agentes econômicos e também mais nítidas as vozes que as veiculam. De um lado, como sempre tem sido, estão os bancos e as instituições financeiras que precisam ganhar dinheiro girando recursos de nacionais e de estrangeiros em aplicações financeiras.
Daí a resistência cada vez mais evidente desses tanto à queda nas taxas de juros quanto à depreciação do real frente o dólar. Com os juros altos captam mais recursos e remuneram-se melhor com os diferenciais entre o que pagam ao aplicador e o que recebem por seus empréstimos (o chamado spread bancário); com o real valorizado faturam com as comissões recebidas das revalorizações de moeda estrangeira que entra e sai do país por causa de polpudos rendimentos financeiros.   
O Governo, como fazia Django nos antigos faroestes italianos e com legitimidade de quem enfrenta uma agressão externa, sacou de dois colts ao mesmo tempo e disparou certeiramente contra os juros e contra o câmbio. Ao primeiro abateu com calibre 0.5 e reduziu a 12 % a taxa dejuros de referência vigente no país (a Selic).

Ao segundo fustigou, com projéteis de fragmentação de IOF a 30%, as margens que vinham auferindo especuladores no mercado futuro de câmbio. Surpreendidos, bancos e agentes financeiros falharam no revide, arrastando-se ao abrigo de alguns conhecidos meios de comunicação.
Enquanto isso, no plano político Dilma, toma a iniciativa e passa por xerife poderosa com direito a capa na revista NewsWeek feita só para americanos (acontecimento único nos Estados Unidos em se tratando de dirigentes estrangeiros) e proferindo discurso histórico como primeira mulher a falar no “saloon” da Conferência Geral da ONU. Não sem antes mandar retirar de seu posto mais um de seus colaboradores acusados por uma imprensa livre de malversação de fundos públicos e mandar proteger o mercado interno da sanha de destruição de empregos nacionais por exportadores asiáticos.
Dois lances casados e perfeitos. Pelo primeiro, o das medidas econômicas, Dilma rearticula-se com os setores produtivos da nação, trabalhadores e empresários, reforçando o arsenal para fazer aprovar no Congresso as medidas que opaís precisa para de início defender-se e depois atacar no front internacional.
Pelo segundo, o das iniciativas políticas, Dilma silencia uma oposição que já tinha pouco a dizer constrangida que estava com a desmoralização das medidas liberais de abertura aos capitais internacionais que sempre sustentou e com a perda de liderança sobre um movimento de moralização da administração pública que, por lideranças na sociedade civil, prescindiu de sua intermediação.
Desse modo ficam provisoriamente imobilizados os movimentos dos  banqueiros nessa guerra de conquista, e roucos os clarins de seus lugares-tenentes na política, os quais, na contramão da história, esbravejam contra a ação de um Estado que interfira em favor dos interesses nacionais.  Para quem depende da renda do trabalho a sensação é de alívio. A nação pode prosseguir alguns passos rumo ao seu destino de um desenvolvimento mais igualitário.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sobre Macacos e Brasileiros: Crítica à The Economist


 A revista The Economist, bíblia semanal dos liberais do mundo inteiro anda um tanto incomodada com a perda relativa de status internacional de seu país de origem e a de seus pares desenvolvidos (EUA a frente), e vem se empenhando em fazer crer que a percepção dominante de uma economia mundial puxada pelos BRICs, (acrônimo para Brasil, Rússia, Índia e China) não é o que parece.
Daí que fez publicar em seu último número (link abaixo) atraente infográfico em que busca demonstrar o que considera ser a falácia do destaque recebido pela economia brasileira na imprensa mundial. O artifício é simples: no infográfico a revista permite que o leitor compare com um simples toque do “mouse” do computador o PIB per-capita (produto interno bruto por habitante e indicação de bem-estar presumido das populações) de cada Estado Brasileiro com o de um país mais pobre porém com PIB equivalente. Resulta que o Estado mais desenvolvido do Brasil, São Paulo, aparece comparado à Polônia, prosseguindo em decadência os demais Estados até serem comparados com os países mais pobres da África e da Ásia.
Como sempre sucede aos números, é possível relacioná-los sempre de todas as maneiras, extraindo deles o resultado que mais se deseja. Contam os editorialistas para esse exercício de presdigitação com o parco conhecimento dos leitores sobre técnicas estatísticas o que, embora seja fato, não elide a má fé da revista na distorção da realidade que o confronto dos números acaba por produzir.
Não é preciso dizer que o material foi saudado como “genial” ou “revelador” pelos garotos cult cujos Blogs os jornais brasileiros mantêm como apêndice de suas redações. Foi o caso do pseudo blogueiro José Roberto de Toledo, do “O Estado de São Paulo” que espalhou entre os nacionais o material que, como seria de esperar-se de uma revista inglesa, era mesmo só para inglês ver. Maledicências à parte, é mesmo da falta de ciência e, sobretudo, da concepção canhestra que presidiu a elaboração da peça gráfica do que gostaria de ocupar-me.
Há duas formas de comparar um homem e um gorila (modo, aliás, como gostavam de nos chamar os europeus). A primeira é comparar o peso de um grupo significativo de indivíduos de ambas as espécie e verificar se encontramos um padrão distintivo de comparação que permita categorizar cada indivíduo seja como homem seja como macaco. A surpresa é que relativamente a esse quesito, homens e macacos parecerão bastante parecidos: há seres humanos que pesam os 150 Kg de um gorila e há também símios que pesam os 80 ou 90 Kg de um homem adulto.
A fim de não forçar demais a comparação, poderíamos ainda nos valer de outro atributo para diferenciar as espécies, a altura. Mas também esse critério apresentaria resultados comuns às duas categorias, uma vez que há homens com 1,50 m assim como há macacos com 1,70 m de altura. Mesmo com essas dessemelhanças, seria possível perfilar os dados para fazer mostrar que em certo lugar do planeta os residentes apresentariam características muito próximas às dos seus ancestrais das savanas.
Contudo há uma maneira mais honesta de relativizar o desempenho da economia brasileira, que acabou de subir 5 posições no ranking das mais competitiva do mundo desbancando o próprio Reino Unido que desceu 3 degraus na mesma classificação, não a esquartejando e depois comparando cada pedaço com aquilo que ela não é em seu todo.
O método mais ético e mais científico de estabelecer a comparação seria por meio do que os economistas chamam de análise do componente principal. No comparativo entre brasileiros e primatas poderiam ser considerados como componentes principais as características de uma e outra espécie que importariam para uma diferenciação, como o peso e a altura. No caso das economias seriam indicadores significativos de desempenho – alguns daqueles contemplados na elaboração do ranking de competitividade mundial, por exemplo – vistos não um a um, mas em conjuntos contra conjuntos de mesma tipologia de informações. O que produziria uma terceira variável, produto da eliminação dos maiores desvios verificados internamente a cada grupo isolado de características as quais quando comparadas tornariam possível um confronto se status tecnicamente de maior validade.
Complicado? Nem um pouco. Para melhor ilustrar a maior pertinência de um raciocínio desse tipo frente o utilizado pelo pasquim de Yuppies liberais, imaginemos um casarão no Morumbi (bairro nobre da cidade de São Paulo) que fosse ocupado por membros de uma família. Se a intenção fosse aferir o grau da riqueza da família que ali habita não faria qualquer sentido dividir o casarão em cada uma de suas dependências e comparar cada uma, em metragem e renda média do ocupante, com as mesmas variáveis referentes a um sobradinho inteiro na Vila Formosa. O correto seria comparar o casarão em sua totalidade com todos os sobradinhos que lhe equivalessem, agrupando as variáveis de diferentes quesitos (como disponibilidade luz, água e renda familiar média) a eles pertinentes numa única medida e aí sim submeter essa medida homogênea a comparação.
Da minha humildade posição de leitor-gorila escreverei à redação do pasquim para alertar do inocente descuido. Vai aí o link do quase-engano que transgorma o Brasil num amontoado de Zâmbias
                                                                                                                                                                  

   

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Encontro de Carolinas







Saboroso o artigo de Maria Cristina Fernandes publicado no jornal Valor Economico de 26/08/2011. Reporta a jornalista encontro ocorrido na sede do Instituto Fernando Henrique Cardoso entre luminares da economia do PSDB e intelectuais que engrossam o caldo de cultura entorno de suas posicões.

A idéia era a de ouvir dos próceres daquele período de “abre porteiras” da economia brasileira explicações do que fazer doravante em matéria de política econômica. O encontro partiu de um pressuposto no minimo duvisoso: o de que estando as reformas então promovidas incompletas urgiria levá-las ao fim. Era o que exprimia, pelos termos da pauta, a convocatória do encontro.


Não é difícil perceber que o resultado foi nada mais que a insistência em conhecidas teses, dado que se partia de pressuposto que não poderia redundar em outro resultado. É o que em logica se chama de pensamento circular. Estaria mesmo correto esse pressuposto de que o processo de reformas que se acentuaram naquela quadra da nossa história estaria incompleta? Ou seriam mesmo as condicões objetivas da conjuntura de mercado que teriam mudado tornando insubsistentes qualquer retomada do passado como referência para transposições futuras?


De qualquer forma o encontro transcorreu com a peroração dos luminares, que à partir do diagnóstico de que o governo vinha gastando demais previram o já propalado desarranjo futuro, próximo e esperado da economia. Gustavo Franco, o homem que torrou em 48h 50 bi de reservas do tesouro nacional, levando em 1998 o País a insolvência ainda reuniu alguma credibilidade entre pares para sugerir que se gastava muito em programas sociais.


O economista Pérsio Arida, cheirando o queimado das posições de baixa sensibilidade social daqueles que o procederam, pôs a culpa das ameaças que pairam sobre o fururo (é sempre assim) no brasileiro que poupa pouco e, é claro, no governo que se apropria de dinheiro do trabalhador (FGTS e FAT) sem que esse reclame do fato, de modo a provocar distorcões na alocacão dos recursos da economia e elevacão forçada das taxas de juros a fim de buscar remunerar esses recursos.


A platéia mais qualificada, composta por nomes de visibilidade como Felipe Reichtull (ex-presidente da Petrobras) e Maria Herminia Tavares não deixaram barato e perguntaram o por que dos pensadores geniais não haverem levado o trabalho a cabo quando estiveram no governo, em particular aquilo que estaria agora sendo identificado com a dependência crônica do BNDES des fundos formados pelas atividades do trabalho.

Perspicazes, como todos que não alheios a nova realidade do País desconfiam da adequação de formulaçnoes dogmáticas, perguntaram ainda sobre como fazer com as políticas sociais que, nececitando de serem finaciadas, respondiam em larga medida pelas mudanças do panorama da sociedae e da economia brasileira.


Nao ouviram resposta dos palestrantes, mas FHC, que fazia as vezes fazendo de mediador do debate que chegara a um impasse, e não sem o ressentimento de alguns om relação ao flerte com Dilma visando salvar apropria biografia, buscou o apaziguamento dos ânimos chamando a atençnao para outra direção.


Mostrou FHC a dificuldade de sensibilizar o eleitorado quando o povo estava feliz com a situação vivida e os agentes econômocos amplamente articulados com as perspectivas o atual governo. Não relatou a jornalista o que se passou depois no cafezezinho, mas é de supor que diante do impasse muito foi dito sobre vinhos e restaurantes da moda.


A mim, leitor, ressoou o conhecido refrão da cançnao de Chico Buarque em uma: o tempo passou na janela e só Carolina não viu...

Segue o artigo de Maria Cristina.

O futuro segundo os pais do Real
Maria Cristina Fernades

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pedia que os palestrantes se ativessem ao tempo que lhes estava destinado para não atrasar o cronograma do seminário: "Alguns aqui trabalham. Poucos".

À sua volta estava toda a árvore genealógica do Plano Real: Pedro Malan, Pérsio Arida, Edmar Bacha, André Lara Resende e Gustavo Franco. Às 10h da manhã de ontem contavam-se poucos assalariados no pequeno auditório do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Além de Luís Stuhlberger (CSHG), Bernard Mencier (ex-BNP Paribas), Felipe Reischtul (ex-Petrobras), Celso Lafer (Fapesp), Roberto Teixeira da Costa (Bovespa), alguns intelectuais - José Arthur Gianotti, Bóris Fausto, Maria Hermínia Tavares de Almeida e Lourdes Sola - misturavam-se a uma maioria de silentes espectadores do que os pais do Real teriam a dizer sobre o futuro da economia brasileira.
Os palestrantes, convidados a discutir por que a transição da economia brasileira restava incompleta, convergiram para o diagnóstico já conhecido de que o país gasta demais e que, por isso, arrisca-se a perder oportunidade histórica de reduzir a taxa de juros. Pérsio Arida, o único a falar sem fazer uso de gráficos ou tabelas, foi o que mais se aproximou de um programa a ser oferecido à oposição, ainda que de viabilidade política duvidosa.

Questionava a razão pela qual a taxa de poupança no Brasil é tão baixa. Arriscou palpites culturalistas como o de que os pais brasileiros, ao contrário dos anglo-saxões, custeiam a educação dos filhos. E fez digressões sobre a tradição latinoamericana de poupar menos se comparada à asiática até pousar nos recursos que bancam o BNDES.
Avisou que trataria de um tema polêmico e politicamente indigesto. "O FGTS é um dos impostos mais regressivos que existe. É uma poupança compulsória do trabalhador. Sai do bolso dele e vai para o do empresário. Será que o trabalhador que elege seus representantes não tem condição de administrar seus próprios recursos?"Se o FGTS tutela o trabalhador, o FAT, na sua opinião, pressiona a taxa de juros - "A Selic precisa ser mais alta para remunerá-lo" - e, como direciona o crédito, acaba criando distorções na economia.
Da plateia, Gianotti comentou que faltava uma oposição para propor mudanças. Fernando Henrique contestou-o dizendo que não faltava oposição mas compreensão do que estava se passando. "É isso que estamos fazendo aqui. Temos que entender que eles [o governo] estão financiando empresário com dinheiro do trabalhador

Reichstul perguntou por que na época em que o PSDB foi governo - e Arida presidente do BNDES - não se promoveu uma reforma das fontes de financiamento do banco. Ficou sem resposta.

Maria Hermínia perguntou o que fazer, por exemplo, com investimentos em saneamento, por exemplo, financiados, em grande parte, com recursos do BNDES. Arida respondeu-lhe com uma história de quando presidiu o Banco Central. Disse que ao chegar lá encontrou um imposto que os bancos pagavam pela emissão de cheque sem fundo, o funcheque. Esse imposto era repassado aos juros. Resolveu zerá-lo. Percebeu aí que seus recursos eram canalizados ao MEC e repassados às gráficas que imprimiam livros escolares e financiavam campanhas. "Parte do dinheiro efetivamente virava livro escolar. É o melhor arranjo? Não, certamente não é o mais eficiente".

"Aprendi com vocês o que é bem público", replicou Maria Hermínia, numa referência ao conceito econômico de bens universalmente usufruídos sem dispêndio. A professora chamava atenção para incompatibilidades entre a eficiência da economia e o bem estar social.

Um pouco antes Malan tinha dito que a crise financeira mundial explicitara os limites do Estado de bem estar social promovido por meio do gasto público: "Os que tinham a Europa como modelo vão precisar rever seus conceitos".

Gianotti não conseguiu conter a impaciência: "Desde o último artigo que li de Gustavo Franco tive a impressão de que vocês descreem da impossibilidade de se prover o welfare state. Mas o que pretendem fazer com essa gente?".

Gustavo Franco fez-se de desentendido: "A Lei de Responsabilidade Fiscal cuida do limite da dívida. E quem cuida do limite do gasto? Não é o welfare state que está em questão, mas a necessidade de se compatibilizar receita e despesa".

Fernando Henrique tentou fazer a ponte. Situou o buraco em que está metido o PSDB ao explicar que, ao contrário do que acontecia na época da inflação, as pessoas não percebem mudanças na política econômica como necessárias porque a conta quem vai pagar são as gerações futuras e não quem hoje está usufruindo do crescimento.

O ex-ministro da Fazenda fez uma crítica indireta à presidente Dilma Rousseff com quem Fernando Henrique tem feito gestos públicos de aproximação. Malan apontava os equívocos na visão de que o Brasil, dados os crescentes vínculos de sua economia com a Ásia e o fortalecimento do mercado interno, estaria blindado da crise mundial sem cortar gastos. E lembrou o momento em que, no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro Antonio Palocci, o atual ministro Paulo Bernardo e outros ex-titulares da fazenda como Delfim Netto, subscreveram proposta de limite ao crescimento do gasto. "A ideia foi considerada rudimentar", lamentou Malan, referindo-se ao termo cunhado pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff sobre o plano.

Ao concluir a mesa, o diretor do IFHC, Sérgio Fausto, reportou o impasse político, que chamou de 'situação aflitiva', para levar à rua as propostas daquele debate: "O movimento pelo Real aconteceu num momento de desarticulação do sistema político. Agora está tudo articulado".


Fernando Henrique reconheceu que as mudanças gestadas pelos formuladores do PSDB ainda carecem de viabilidade política porque o governo hoje está alinhavado social e empresarialmente: "Há acertos lícitos (BNDES) e ilícitos (corrupção) no atual arranjo. A economia cresce e há uma base sólida de cumplicidade. A conjuntura não é favorável a mudanças".

Fausto revelou ter convidado todos os líderes da oposição. Ninguém foi. Além dos aliados de Dilma, alguém tem que se ocupar da desarticulação.