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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Nas Mãos de 15 Famílias




















Desde que o rádio invadiu os lares brasileiros em 7 de setembro de 1922 e iniciou-se a era de comunicação de massa no Brasil, a estabilidade do regime democrático em seus epsódicos períodos de existência ficou como que refém da boa vontade dos capitães das empresas de radiodifusão.
O toque de midas conferido a essas empresas veio com o decreto de Getúlio Vargas de 1932 permitindo que as mesmas pudessem capitalizar-se por meio de anúncios pagos. Começava então a relação carnal entre famílias detentoras de concessões públicas de comunicação e diferentes grupos políticos que controlariam o poder no País daí em diante. A leitura de discursos oficiais da revolução constitucionalista de 1932 pelo radialista César Ladeira na radio Record, marcaria o início dessa relação proveitosa para cada um desses parceiros.
Percebendo os riscos que um controle estritamente privado dos novos meios de comunicação poderia repesentar para os interesse aninhados no Estado, Getúlio Vargas encampou em 1940 a rádio Nacional para servir de porta-voz oficiosa do regime. Não demoraria para que entrassem no ar os grandes intrumentos de formação da opinião pública, o Repórter Esso em 1941 na Nacional e o Grande Jornal Falado Tupi em 1942 que, com nome ligeiramente mudado, permaneceu no ar até 1977.
A rádio Bandeirantes nasceria de uma manobra do ex-governador Adhemar de Barros. Após ter adquirido reservadamente a emissora, guindou ao seu controle a família Saad para que desse cobertura aos seus planos (realizados) de fazer Lucas Nogueira Garcez governador do Estado de São Paulo.
No Rio de Janeiro a veiculação do grande Jornal Fluminense, sustentado por um grupo de prefeitos, daria ensejo aos negócios da família Marinho, depois fortalecidos com a desagregação do getulismo a que o jornalista fizera oposicão nos anos 50.
Com o golpe militar de 1964 e o fechamento das emissoras alinhadas à legalidade, como a Rádio Mayrink Veiga e a Rádio Nacional, é aprofundado o declinio do rádio e iniciada a ascensão da televisão como instrumento de poder e de hegemonia política.
Durante o regime militar as concessões obedeceram a critérios clientelísticos, que não foram abandonados na redemocratização. Juntou-se ao grupo das poucas famílias beneficiadas por concessões de emissoras de rádio e de televisão, políticos das diferentes esferas do poder que mantinham suas concessões ocultas em nome de parentes e de testas de ferro. Foram os interesses alinhavados nesse ambiente que permitiu à rede Globo de Televisão fazer pesidente da República o proprietário de uma de suas afiliadas, o alagoano Collor de Melo.
O coronelismo eletrônico posto em prática por esse jogo de conveniências não diminuiu senão que fortaleceu-se com o fim do regime militar, uma vez que a cada embate em que estavam em xeque interesses do governo era oferecido aos grupos aliados um número maior de concessões a fim de compensar apoios em votações no Congresso.
Foi assim que no governo José Sarney foram feitas 1080 concessões de radios e televisões. Dessas, de acordo com estudos dos pesquisadores Costa e Brener, 168 concedidas a 91 políticos com o objetivo de fazer aprovar a emenda que conferiu 5 anos de mandato àquele governante.
No governo Fernando Henrique Cardoso a prática foi mantida visando o apoio no Congresso à emenda da releeição. No primeiro mandato de FHC foram concedidas 1848 licenças para retransmissoras de televisão, distribuídas a 268 entidades controladas por 87 políticos (Lima e Caparelli, 2004). Tais concessões foram feitas sem licitação ou apreciação pelo Congresso, visto que foram entregues mediante meras portarias baixadas pelo então ministro das comunicações  Sérgio Motta.
Pelo lado do enclave empresarial de detentores de concessões, 15 famílias consolidaram seu poder sobre os meios de comunicação do país, controlando 8 principais emissoras: em âmbito nacional a família Marinho (Rede Globo), Saad (Rede Bandeirantes) e Abravanel (SBT). Em plano regional as famílias Sirotsky (RBS, no Sul), Daou (TV Amazonas, no norte), Jereissati (TV Verdes Mares, no Nordeste), Zahran (TV Centroeste, em Mato Grosso), Câmara (TV Anhanguera). A maioria das concessões locais são afiliadas às empresas dessas famílias, em particular a Marinho/Abravanel e são controladas por políticos.
O pesquisador Squirra (1999) chama essa situação de latifúndio do audio-visual, afirmando que a situação de concentração da radiodifusão no País lembra a época das Capitanias Hereditárias, já que um grupo de donatários “dividiu o espectro de canais como se fosse capitanias que, por não mudarem de mãos, tornou-se verdadeiro Tordesilhas eletrônico”.
Não bastasse o domínio que esse pequeno grupo de famílias e de políticos exercem sobre os veículos e cmunicação, seu poder é ainda amplificado pelo controle que têm dos demais elos da cadeia de produção do aúdio visual no País. Ao mesmo tempo que produzem programas para televisão, detêm os meios para divulgá-los em jornais, produzir trilhas sonoras e promovê-los em jornais do país. Quem não cansou de ver e ouvir cada uma dessas emissoras falando de si mesmas nos mais differentes meios sob seu controle?
Contribuem para esse grau de concentração tanto as sinergias produzidas pelas novas mídias que permitem maior integração entre cada um desses veículos quanto um tipo de operação em que o meio sucedente dá apoio ao antecedente, numa rede auto-alimentada de reforço mútuo. Uma espécie de Santo Graal do marketing gratuito. Os estudiosos Lima e Capelli não hesitam em afirmar que “somos o paraíso da radiodifusão desregulamentada, submetida apenas às regras de mercado e não as da cidadania”.
O resultado é que com a acoplagem do poder econômico das grandes corporações anunciantes ao poder de influência das empresas de comunicação, a mídia acabou por se tornar instrumento de opressão simbólica ao invés de intrumento plural da exposição dos múltiplos interesses presentes na sociedade democrática.
Mauro Porto em sua celebrada tese de doutorado defendida nos Estados Unidos em 2007 destaca que o funcionamento efetivo da democracia está atrelado à capacidade de deliberação dos cidadãos sobre assuntos que dizem respeito ao destino de sua comunidade e de seu País; e que essa capacidade depende do modo pelo qual os cidadãos mobilizam os conteúdos da mídia como atalhos para a compreensão dos processos politicos em que estão envolvidos.
Dá como exemplo no Brasil o Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, salientando o papel crucial que esse informativo teve, e ainda tem, na deliberação do indivíduo sobre os temas políticos sobre os quais deve a cada eleição decidir
Alerta, desse modo, para a necessidade de que se questione até que ponto os programas noticiosos postos em circulação na TV não representariam interpretações parciais dos fatos noticiados, que interferem no modo como os cidadãos compreendem e formam suas preferências a respeito de temas de iteresse público. 
Os resultados empíricos apresentados no referido estudo, com base em experimentos controlados levados a efeito junto a 2 grupos diferentes telespectadores, sendo um deles de controle, confirmaram objetivamente que os enquadramentos apresentados pelo Jornal Nacional interferem de forma significativa no modo pelo qual a audiência faz sentido da realidade política que a cerca.
As conclusões constituem um já bastante reverberado alerta: o conteúdo diversificado da mídia é determinante para a qualidade da democracia e pré-condição para o estabelecimento de uma opinião pública consistente e plural.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Mercado e Teatro












Existe algo mais próximo da encenação teatral que a colocação em pratica de um projeto, seja ele voltado à geração de um produto final ou à execução de um objetivo pessoal qualquer?

Porque é ela mesma um projeto, a preparação e apresentação de uma peça teatral reúne em si todos os elementos que faz com que uma idéia seja elaborada, sua implantação planejada, os recursos para pô-la em pratica reunidos e sua execução efetuada.

A comparação entre a iniciativa de um empreendimento na forma de um projeto e a prática teatral, que não é por certo original veio-me quando consultava anotações de curso sobre teatro russo realizado na Universidade de São Paulo.

Ao folheá-las dei-me conta do quanto o ato de levar um produto ou serviço ao mercado encerra do espetaculoso que anima as feiras livres e os shows de rua. Basta atentar para a natureza dos apelos mercadológicos do marketing no sentido de fazer aparentar o consumo a uma experiência marcante para a vida toda e equiparável em importância às grandes questões que afetam a humanidade, como a preservação do planeta ou a sobrevivência de populações inteiras na África.

Diga-se que nem sempre o sistema de produção e trocas foi assim. Transposto o longo período de intercâmbio comunitário, três estágios tiveram de sucedere-se a fim de que o símile teatral pudesse fixar-se como paradigma de modelo social.

Entre nós, o primeiro deles foi o de prevalência das comódites agrominerais, em que produtos indiferenciáveis de uma mesma categoria eram comercializados com base exclusiva em preço. No padrão de troca correspondente a esse estágio o comprador e o vendedor não interagem diretamente, tendo a ação orientada pela cotação de preços em mercado.

Essa fase alcançou o auge no Brasil nos anos 50, quando a participação do setor agrícola no valor da produção nacional (PIB) chegou a corresponder 70% do produto nacional (PIB), vindo a declinar depois enquanto o País industrializava-se.

Um segundo momento rumo à figuração de papéis sociais amplamente interatuantes nas relações de mercado foi aberto com a moderna produção industrial ainda nos albores do século XX, quando o modelo fabril imperante ensejou impulso irrefreável à multiplicação de mercadorias destinadas ao pronto consumo, as quais, para serem comercializadas, dependiam da diferenciação e de vantagens de custos oferecidas aos consumidores.

A contínua especialização técnica própria do modelo, que Schumpeter chamou de “destruição criadora” ao mesmo tempo que empregava mais trabalhadores promovia também maiores assimetrias sociais. A mão de obra ocupada na industria cresceu entre 1950 e 1980 ao redor de 70%, sendo a forca motriz por detrás do fenômeno o vertiginoso crescimento das maiores cidades brasileiras.

Ainda uma terceira etapa no percurso a uma sociedade de atores sociais no palco do mercado teve amadurecimento nas circunstâncias recentes de uma economia plenamente urbanizada em que uma gama variada de ocupações promoveu uma diversificação social bastante variegada.

Nesta os serviços ganham autonomia em relação às mercadorias, a ponto de muitas empresas tomarem-no como foco principal dos negócios, como o fez a IBM ao deslocar-se da produção de “mainframes” para o desenvolvimento de sistemas.

A mudança de paradigma operou-se não sem fricções. Ainda agora é possível ouvir de representantes da industria o alerta de que sem um forte componente fabril o sistema econômico estará fadado a sucumbir.

Nada mais falso, desde que estatísticas do processo de desenvolvimento experimentado por nações do mundo todo demonstram forte associação entre maior peso do setor de serviços e maior bem estar das populações.

Também sob esse prisma há indicações expressivas de que o deslocamento do Brasil no “ranking” de nações mais desenvolvidas se faz acompanhar de peso mais significativo do setor de serviços na economia. Ainda de acordo com dados do IPEA, de 1950 e 2008 o setor de serviços passou a responder por mais de 70 % da ocupação no País.

A extrema diversificação social que emerge desse momento ignora até mesmo as restrições à diferenciação da produção industrial em larga escala, como fêz a Dell Computers quando inovou personalizando a montagem massiva de computadores com sua marca.

A digressão acima foi necessária para melhor tematizar o que é propósito deste texto: a semelhança entre o modo de realização da mercadoria na etapa atual da sociedade de serviços e o teatro.

Só quando os serviços apresentam-se como o elemento diferenciador por excelência do produto e fator de arranjo do “hardware” gerado nas linhas de produção fabris, com vistas ao bem-estar de amplas parcelas de consumidores, é que também a experiência estabelece-se como aspecto central das trocas, facultando fruir da emoção verdadeiramente única do ato de consumir.

Na fenomenologia da experiência interferem 4 dimensões que a fazem aproximar-se do mundo teatral. Essas dimensões são aquelas que conferem à experimentação características de entretenimento, educação, escapismo e de proveito estético. Da mesma forma que sucede no deleite proporcionado pela milenar arte do teatro.

A forma teatral por excelência é o drama , que na acepção conferida pelos gregos à palavra “drão” correspondia à idéia de fazer ou atuar, no sentido de ensejar algo a que de antemão não era dado acesso.

Mais tarde esse “fazer” passou a subtender um conjunto de esforços humanos coordenados com a finalidade de levar ao publico uma representação da realidade que produzisse, em atos (elementos de representação), o mesmo efeito de significados quaisquer que fossem as circunstâncias e o momento daquilo que era representado.

Como na empresa contemporânea, que esforça-se por emprestar aos seus produtos “uma cara”, todos os envolvidos com a lide teatral empenham-se no sentido de proporcionar aos espectadores – ou a aqueles que sustentam a expectativa de virem a ser convencidos pela peça – uma representação convincente da realidade, cujo efeito perceptivo que produz foi definido por Aristóteles como verossimilhança ou a sugestão do que é real.

Contam nesse efeito, em primeiro lugar, a escolha dos aspectos da realidade que contribuam com a melhor compreensão dos fatos narrados; em seguida a ordem em que são apresentados os episódio e, por fim, o ritmo mesmo que se imprime à apresentação dos episódios selecionados.

No espetáculo da celebração em mercado do produto não se passa diferente. Depois de definido o que basta para fazer dele algo desejável (no caso do ipad, um computador para levar-se ao banheiro e à cama) deve-se introduzi-lo de modo a que não produza estranhamento (a Apple optou por lançar o ipad depois do iphone, ainda que o projeto do primeiro fosse anterior ao deste último); por fim é preciso que o andamento das ações de marketing sigam uma escalada de envolvimento do consumidor que faça-o sentir-se alguém fora de seu tempo na hipótese de não aderir ao produto.

Voltando ao teatro, os dois principais elementos que articulam a construção da peça teatral, dos argumentos ao ritmo, são o texto e a atuação. Enquanto que por intermédio do texto são estabelecidos os processos internos necessários ao desenvolvimento da peça por meio da atuação são coesionados os elementos a fim de que o enredo mantenha-se o mesmo e seja reiterada a resposta emocional da platéia.

Nos projetos conduzidos por uma pessoa ou empresa, o texto permite que sejam estabelecidas as regras processuais pelas quais se produz determinado efeito, trazido ao palco do mercado por força do fazer produtivo da atuação em equipe.

O texto está voltado para dentro da companhia de teatro ou da empresa; a atuação para fora, visando o público em 3 diferentes formatos: o da improvisação, da plataforma, da montagem e do teatro de rua.

O teatro de improviso é o lugar da abertura para o imprevisível. Sua dinâmica não é programada e decorre da criatividade que brota inesperada dos métodos sistemáticos fixados pelo ensaio e pela representação continuada. Envolve as sempre renovadas formas de enxergar-se temas conhecidos. Como o apelo que fazem as empresas em favor da imaginação e de que é exemplo o slogan “eco-imagination” adotado pela GE.

O teatro de plataforma corresponde ao teatro clássico em que ao texto formal cumpre o papel de estabilizar a atuação dos atores corrigindo imperfeições ensaio após ensaio. Este é o teatro em que o improviso dá lugar à preparação e que não raro o arejamento produzido pela criatividade e a experimentação é substituído por formulações consagradas. Aqui, como no mercado, há sempre o risco de que a ausência de impactos renovados junto ao público acabe por produzir desinteresse.

Na forma teatral da montagem, por sua vez, a técnica sobrepuja inteiramente o improviso através da filtragem pelo pessoal técnico de tudo que chega ao público. É o formato do cinema e da televisão em que a captura de imagens em diferentes momentos do tempo, devidamente editadas e retocadas, permite amplas chances de aceitação pelo público.

Esta modalidade requer análise, decisão e recorrência, como as exigidas aos programas de qualidade total no âmbito das empresas, já que nada pode dar errado sob pena de perda de audiência. Também nesta forma de espetáculo a esterilização do sentido de experiência e a previsibilidade esvaziada de conteúdo emocional pode ensejar a busca por novas opções.

Diferentemente das outras modalidades teatrais, o teatro de rua situa-se no campo da autenticidade. Seu potencial reside na capacidade de atrair pelo que é capaz de oferecer de emoção para só aí pedir dinheiro. Reflete a vida cotidiana, tendo no artista de rua o mais representativo agente e na carnavalização a mais fiel expressão.

Difícil pensar um produto de sucesso hoje que deixe de estar involucrado em espetáculo. Não um show qualquer, mas aquele que diz respeito à própria vida de quem se destina o produto, falando à sua fantasia e às suas aspirações mais intimas.

Qualquer que seja, entretanto, a modalidade de teatro oferecido ao publico será sempre a companhia é o espaço onde se dá o intercâmbio de talentos que cooperaram para tornar fato o espetáculo. Os principais operadores que colaboram para transformar o texto em experiência viva são o produtor, o diretor e o ator.

O produtor é o estrategista meticuloso sem o qual todos os esforços podem vir a perdem-se numa bilheteria vazia. É quem financia o projeto e pensa as melhores condições para sua realização, antevendo a fonte de financiamentos e o retorno esperado para o empreendimento.

Ao diretor compete operar as condições em que se realiza aquilo estrategicamente arranjado, sendo de sua responsabilidade conduzir tudo que ocorre em cena. Deve possuir capacidade organizadora e inventividade para colaborar, orientar e motivar a equipe, sempre na perspectiva estratégica traçada pelo produtor.

Integram a equipe do projeto dramaturgos, que auxiliam o diretor na interpretação do drama e roteiristas que estabelecem por meio do estabelecimento de “scripts” os processos a serem seguidos para a consubstanciação do espetáculo.

As funções do produtor e as do diretor não se confundem. O primeiro figura como “sponsor” do projeto teatral e como, na empresa, responde perante o corpo de acionistas pelo fracasso ou sucesso do empreendimento. Ao segundo cabe o desenvolvimento dos produtos que definem o projeto e por meio dos quais será avaliado o sucesso ou fracasso do empreendimento.

Deve-se a Meyerhold, teatrólogo e diretor russo o feito de haver formulado durante a primeira década do século XX, no teatro de arte de Moscou, uma nova dramaturgia e que persiste até hoje.

Essa dramaturgia encaixava-se à sociedade do espetáculo que se estruturava no ocidente em torno do setor de serviços que se fortalecia crescentemente nos primeiros estágios de diferenciação da produção em larga escala no contexto de uma urbanização mais intensa.

Para ele o teatro seria antes a “a casa da emoção autêntica”, de onde ninguém sairia sem uma lágrima ou sorriso no rosto, concepção que iria desembocar no movimento de vanguarda que depois de 1917 alastrou-se pelo mundo inteiro e que marcou em definitivo a forma de pensar a relação público e espetáculo.

Com Meyerhold o teatro de rua chega às salas de espetáculo, desfazendo-se o preconceito que via no popular um tipo de manifestação menor assentada em repertório de expressões caricaturais.

O gosto popular passa então a desfrutar do status de arte elevada e os valores que o fundamentam a servir de esteio a um novo tipo de sentimentalidade menos dependente de aporte das elites cultas para sua tematizações, senão que lhe bastava ouvir as próprias ruas para a coleta de um repertório de oferta inesgotável.

No mundo da produção fenômeno parecido viria acontecer uma década depois com as empresas abrindo-se a um maior ecletismo do mercado e ao esquadrinhamento das preferências e do gosto popular como forma de promover o sucesso em vendas.

Meyerhold bebeu da fonte do escritor francês Rabelais para quem a comicidade era a expressão mais autêntica da vida. Sendo a arte incapaz de esgotá-la, apenas a inversão da realidade sobre a qual se funda a vida seria capaz de proporcionar plenitude à existência.

Na contramão do pensamento da época – que considerava a estilização um rebaixamento das experiências pessoais e coletivas – entendia a exacerbação das contradições aparentes uma forma mais efetiva de representação da vida.

As teses de Meyerhold podem ser consideradas precursoras do entendimento que via no domínio das ruas sobre os salões e na experiência do contato direto (até o mediado pelas redes sociais de hoje) entre produtores e consumidores um modo mais efetivo de interação assentada não mais em atributos físicos de produtos mas em algo bem mais elusivo, que é a emoção.

Estágio em que criatividade, vencendo as limitações impostas pelo do “know-how” ou daquilo que se chama estado da arte do fazer técnico em cada período, transforma-se em insumo de primeira importância para o desenvolvimento da sociedade e da sua base econômica.

Em São Paulo, Pequim ou Mumbay um novo horizonte abriu-se à prosperidade. Reinventarmo-nos todos como atores de rua, descobrindo o que um novo público precisa e deseja, conservando-lhe a atenção continuamente presa, eis a lição que o mundo do teatro tem hoje a dar ao mundo dos negócios.


























sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Encontro de Carolinas







Saboroso o artigo de Maria Cristina Fernandes publicado no jornal Valor Economico de 26/08/2011. Reporta a jornalista encontro ocorrido na sede do Instituto Fernando Henrique Cardoso entre luminares da economia do PSDB e intelectuais que engrossam o caldo de cultura entorno de suas posicões.

A idéia era a de ouvir dos próceres daquele período de “abre porteiras” da economia brasileira explicações do que fazer doravante em matéria de política econômica. O encontro partiu de um pressuposto no minimo duvisoso: o de que estando as reformas então promovidas incompletas urgiria levá-las ao fim. Era o que exprimia, pelos termos da pauta, a convocatória do encontro.


Não é difícil perceber que o resultado foi nada mais que a insistência em conhecidas teses, dado que se partia de pressuposto que não poderia redundar em outro resultado. É o que em logica se chama de pensamento circular. Estaria mesmo correto esse pressuposto de que o processo de reformas que se acentuaram naquela quadra da nossa história estaria incompleta? Ou seriam mesmo as condicões objetivas da conjuntura de mercado que teriam mudado tornando insubsistentes qualquer retomada do passado como referência para transposições futuras?


De qualquer forma o encontro transcorreu com a peroração dos luminares, que à partir do diagnóstico de que o governo vinha gastando demais previram o já propalado desarranjo futuro, próximo e esperado da economia. Gustavo Franco, o homem que torrou em 48h 50 bi de reservas do tesouro nacional, levando em 1998 o País a insolvência ainda reuniu alguma credibilidade entre pares para sugerir que se gastava muito em programas sociais.


O economista Pérsio Arida, cheirando o queimado das posições de baixa sensibilidade social daqueles que o procederam, pôs a culpa das ameaças que pairam sobre o fururo (é sempre assim) no brasileiro que poupa pouco e, é claro, no governo que se apropria de dinheiro do trabalhador (FGTS e FAT) sem que esse reclame do fato, de modo a provocar distorcões na alocacão dos recursos da economia e elevacão forçada das taxas de juros a fim de buscar remunerar esses recursos.


A platéia mais qualificada, composta por nomes de visibilidade como Felipe Reichtull (ex-presidente da Petrobras) e Maria Herminia Tavares não deixaram barato e perguntaram o por que dos pensadores geniais não haverem levado o trabalho a cabo quando estiveram no governo, em particular aquilo que estaria agora sendo identificado com a dependência crônica do BNDES des fundos formados pelas atividades do trabalho.

Perspicazes, como todos que não alheios a nova realidade do País desconfiam da adequação de formulaçnoes dogmáticas, perguntaram ainda sobre como fazer com as políticas sociais que, nececitando de serem finaciadas, respondiam em larga medida pelas mudanças do panorama da sociedae e da economia brasileira.


Nao ouviram resposta dos palestrantes, mas FHC, que fazia as vezes fazendo de mediador do debate que chegara a um impasse, e não sem o ressentimento de alguns om relação ao flerte com Dilma visando salvar apropria biografia, buscou o apaziguamento dos ânimos chamando a atençnao para outra direção.


Mostrou FHC a dificuldade de sensibilizar o eleitorado quando o povo estava feliz com a situação vivida e os agentes econômocos amplamente articulados com as perspectivas o atual governo. Não relatou a jornalista o que se passou depois no cafezezinho, mas é de supor que diante do impasse muito foi dito sobre vinhos e restaurantes da moda.


A mim, leitor, ressoou o conhecido refrão da cançnao de Chico Buarque em uma: o tempo passou na janela e só Carolina não viu...

Segue o artigo de Maria Cristina.

O futuro segundo os pais do Real
Maria Cristina Fernades

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pedia que os palestrantes se ativessem ao tempo que lhes estava destinado para não atrasar o cronograma do seminário: "Alguns aqui trabalham. Poucos".

À sua volta estava toda a árvore genealógica do Plano Real: Pedro Malan, Pérsio Arida, Edmar Bacha, André Lara Resende e Gustavo Franco. Às 10h da manhã de ontem contavam-se poucos assalariados no pequeno auditório do Instituto Fernando Henrique Cardoso. Além de Luís Stuhlberger (CSHG), Bernard Mencier (ex-BNP Paribas), Felipe Reischtul (ex-Petrobras), Celso Lafer (Fapesp), Roberto Teixeira da Costa (Bovespa), alguns intelectuais - José Arthur Gianotti, Bóris Fausto, Maria Hermínia Tavares de Almeida e Lourdes Sola - misturavam-se a uma maioria de silentes espectadores do que os pais do Real teriam a dizer sobre o futuro da economia brasileira.
Os palestrantes, convidados a discutir por que a transição da economia brasileira restava incompleta, convergiram para o diagnóstico já conhecido de que o país gasta demais e que, por isso, arrisca-se a perder oportunidade histórica de reduzir a taxa de juros. Pérsio Arida, o único a falar sem fazer uso de gráficos ou tabelas, foi o que mais se aproximou de um programa a ser oferecido à oposição, ainda que de viabilidade política duvidosa.

Questionava a razão pela qual a taxa de poupança no Brasil é tão baixa. Arriscou palpites culturalistas como o de que os pais brasileiros, ao contrário dos anglo-saxões, custeiam a educação dos filhos. E fez digressões sobre a tradição latinoamericana de poupar menos se comparada à asiática até pousar nos recursos que bancam o BNDES.
Avisou que trataria de um tema polêmico e politicamente indigesto. "O FGTS é um dos impostos mais regressivos que existe. É uma poupança compulsória do trabalhador. Sai do bolso dele e vai para o do empresário. Será que o trabalhador que elege seus representantes não tem condição de administrar seus próprios recursos?"Se o FGTS tutela o trabalhador, o FAT, na sua opinião, pressiona a taxa de juros - "A Selic precisa ser mais alta para remunerá-lo" - e, como direciona o crédito, acaba criando distorções na economia.
Da plateia, Gianotti comentou que faltava uma oposição para propor mudanças. Fernando Henrique contestou-o dizendo que não faltava oposição mas compreensão do que estava se passando. "É isso que estamos fazendo aqui. Temos que entender que eles [o governo] estão financiando empresário com dinheiro do trabalhador

Reichstul perguntou por que na época em que o PSDB foi governo - e Arida presidente do BNDES - não se promoveu uma reforma das fontes de financiamento do banco. Ficou sem resposta.

Maria Hermínia perguntou o que fazer, por exemplo, com investimentos em saneamento, por exemplo, financiados, em grande parte, com recursos do BNDES. Arida respondeu-lhe com uma história de quando presidiu o Banco Central. Disse que ao chegar lá encontrou um imposto que os bancos pagavam pela emissão de cheque sem fundo, o funcheque. Esse imposto era repassado aos juros. Resolveu zerá-lo. Percebeu aí que seus recursos eram canalizados ao MEC e repassados às gráficas que imprimiam livros escolares e financiavam campanhas. "Parte do dinheiro efetivamente virava livro escolar. É o melhor arranjo? Não, certamente não é o mais eficiente".

"Aprendi com vocês o que é bem público", replicou Maria Hermínia, numa referência ao conceito econômico de bens universalmente usufruídos sem dispêndio. A professora chamava atenção para incompatibilidades entre a eficiência da economia e o bem estar social.

Um pouco antes Malan tinha dito que a crise financeira mundial explicitara os limites do Estado de bem estar social promovido por meio do gasto público: "Os que tinham a Europa como modelo vão precisar rever seus conceitos".

Gianotti não conseguiu conter a impaciência: "Desde o último artigo que li de Gustavo Franco tive a impressão de que vocês descreem da impossibilidade de se prover o welfare state. Mas o que pretendem fazer com essa gente?".

Gustavo Franco fez-se de desentendido: "A Lei de Responsabilidade Fiscal cuida do limite da dívida. E quem cuida do limite do gasto? Não é o welfare state que está em questão, mas a necessidade de se compatibilizar receita e despesa".

Fernando Henrique tentou fazer a ponte. Situou o buraco em que está metido o PSDB ao explicar que, ao contrário do que acontecia na época da inflação, as pessoas não percebem mudanças na política econômica como necessárias porque a conta quem vai pagar são as gerações futuras e não quem hoje está usufruindo do crescimento.

O ex-ministro da Fazenda fez uma crítica indireta à presidente Dilma Rousseff com quem Fernando Henrique tem feito gestos públicos de aproximação. Malan apontava os equívocos na visão de que o Brasil, dados os crescentes vínculos de sua economia com a Ásia e o fortalecimento do mercado interno, estaria blindado da crise mundial sem cortar gastos. E lembrou o momento em que, no primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro Antonio Palocci, o atual ministro Paulo Bernardo e outros ex-titulares da fazenda como Delfim Netto, subscreveram proposta de limite ao crescimento do gasto. "A ideia foi considerada rudimentar", lamentou Malan, referindo-se ao termo cunhado pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff sobre o plano.

Ao concluir a mesa, o diretor do IFHC, Sérgio Fausto, reportou o impasse político, que chamou de 'situação aflitiva', para levar à rua as propostas daquele debate: "O movimento pelo Real aconteceu num momento de desarticulação do sistema político. Agora está tudo articulado".


Fernando Henrique reconheceu que as mudanças gestadas pelos formuladores do PSDB ainda carecem de viabilidade política porque o governo hoje está alinhavado social e empresarialmente: "Há acertos lícitos (BNDES) e ilícitos (corrupção) no atual arranjo. A economia cresce e há uma base sólida de cumplicidade. A conjuntura não é favorável a mudanças".

Fausto revelou ter convidado todos os líderes da oposição. Ninguém foi. Além dos aliados de Dilma, alguém tem que se ocupar da desarticulação.





segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Diferença de gerações no trabalho












Há pouco tempo atrás pude experimentar situação de trabalho em importante projeto de obra de infraestrutura em que as equipes encontravam-se sob comando de um septuagenário . O homem era um feixe de todas as emoções do que fora no passado e de como se via hoje em relação aos demais.
Não se tratava exatamente de intolerância a marca de seu comportamento mas da continuada demonstração da emocionalidade exacerbada de um homem inconformado com o não domínio de códigos , abordagens e leituras do mundo que tinham os mais jovens à sua volta e que respondia a qualquer gesto não comandado com externalizações emocionais as quais pareciam significar uma única coisa: o entendimento de que o mundo atual gerara um bando de incompetentes ou acomodados aos quais não seria sua tarefa “preparar”.
O personagem , com passar do tempo produziu no ambiente de trabalho como que uma guerra de gerações. O pessoal da faixa dos 20 já não falava com o pessoal da faixa dos 40 que já não falava com o pessoal da faixa dos 60. Um verdadeiro colapso da sociabilidade interna, que tinha na figura pusilânime do chefe o único elemento de coesão.
Não é preciso dizer dos prejuízos trazidos ao trabalho. Erros atrás de erros produzidos pelo não estabelecimento de canais informais de comunicação que tornavam de todo modo inútil os canais formais.
A dúvida que me acometeu naquela circunstância foi a de que se não seria o cataclisma da interaçao entre as pessoas ao invés de resultado da personalidade de um indivíduo um problema relacionado mesmo às dificuldades intrínsicas de relacionamento no ambiente de trabalho de pessoas em diferentes estágios etários.
A reposta à indagação surge agora de pesquisa realizada, pela American Academy of Management, com 8 mil profissionais de 60 companhias americanas, buscando averiguar até que ponto e em que circunstâncias a diferença de idade interfere no relacionamento de trabalho entre as pessoas.
Os resultados da pesquisa mostraram de maneira inconteste que diferenças de idade interfere sim, e muito, no grau de entrosamento e integração possível de ser alcançado pelas equipes engajadas em diferentes projetos das empresas pesquisadas.
Detalhe interessante da pesquisa diz respeito à constatação feita de que a correlação positiva entre diferenciais de idade, entrosamento e satisfação com o trabalho dependeria mais do grau com que os diferentes membros da equipe manifestavam suas próprias emocões no dia a dia do que das diferenças de idade em si.
Ambientes em que a cultura da organização tinha por salutar a externalização sem reparos da alternância de estados de ânimo pessoais, tendiam a apresentar também maior grau de conflito, insatisfação com o trabalho e perda da eficácia da comunicação interpessoal.
Contrariamente, ambientes pautados pelo tratamento mais formal entre as pessoas, limitando-se a manifestação das emoções pessoais e a liberdade na forma de apresentação individual (como por ex. barba e cabelo), tendiam a ser marcados por maior harmonia de relacionamentos e a propiciar um diálogo intergeracional de melhor qualidade.
No mesmo diapasão, a pesquisa mostrou que organizações que dispunham de equipes compostas por profissionais de diferentes idades eram tão mais produtivas, em relação às de maior homogeneidade etária, quanto mais definidos fossem os protocolos de atitudes com relação à demonstração das emoções pessoais. A cordialidade e a formalidade constituir-se-iam na garantia de uma ambiente com baixos níveis de "stress" nos relacionamentos interpessoais.
O que resulta da pesquisa é que o o proveito obtido em fundir a experiência dos mais velhos com o ânimo e a criativadade dos mais jovens apenas produzirá efeito na hipótese da haver elevado grau de formalização (certamente não exagerado) das relações entre as pessoas de diferentes idades, impedindo-se, desse modo, o comprometimento da cooperação esperada por uma natural tendência de cada grupo etário exergar a si mesmo como mais merecedor de posições de influência ou de comando na condução do projeto que o outro.
(Contudo, nem sempre idades harmônicas entre os membros da mesma equipe significam relações pacíficas)




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sábado, 20 de agosto de 2011

Castells: O Governo dos Modelos Matemáticos


Manuel Castells, no Outras Palavras: Sob o governo dos modelos matemáticos

Do Blog Vi O Mundo http://www.viomundo.com.br/

Quando milhares de [jovens] indignados, [que ocuparam as praças da Espanha], tiram de foco a “crise” e atacam diretamente o sistema que produz tantos desarranjos, estão sustentando algo importante. Querem dizer que é preciso ir à raiz dos problemas, olhar para suas causas. Porque se elas persistirem, continuarão produzindo as mesmas consequências.

Mas de que sistema falamos? Muitos diriam capitalismo, mais é algo pouco útil: há muitos capitalismos. Precisamos analisar o que vivemos como crise para entender que não se trata de uma patologia do sistema, mas do resultado deste capitalismo. Além disso, a critica se estende à gestão política. E surge no contexto de uma Europa desequilibrada por um sistema financeiro destrutivo que provoca a crise do euro e suscita a desunião europeia.

Nas ultimas décadas, constituiu-se um capitalismo global, dominado por instituições financeiras (os bancos são apenas uma parte) que vivem de produzir dívida e ganhar com ela. Para aumentar seus lucros, as instituições financeiras criam capital virtual por meio dos chamados “derivativos” [ou, basicamente, apostas na evolução futura de todo tipo de preço]. Emprestam umas às outras, aumentando o capital circulante e, portanto, os juros [e comissões] a receber. Em média, os bancos dispõem, nos Estados Unidos ou na Europa, de apenas 3% do capital que devem ao público. Se este percentual chega a 5%, são considerados solventes, [em boa saúde financeira]. Enquanto isso, 95% [do dinheiro dos depositantes] não está disponível: alimenta incessantemente operações que envolvem múltiplos credores e devedores, que estabelecem relações num mercado volátil, em grande parte desregulado.

Diz-se que umas transações compensam umas às outras e o risco se dilui. Para cobrir os riscos, há os seguros – mas as seguradoras também emprestam o capital que deveriam reservar para fazer frente a sinistros. Ainda assim, permanecem tranquilos, porque supõem que, em ultima estancia, o Estado (ou seja, nós) vai salvá-los das dívidas – desde que sejam grandes o suficiente [para ameaçar toda a economia]… O efeito perverso deste sistema, operado por redes de computadores mediadas por modelos matemáticos sofisticados, é: quanto menos garantias tiverem, mais rentáveis (para as instituições financeiras e seus dirigentes) as operações serão. E aqui entra outro fator: o modelo consumista que busca o sentido da vida comprando-a em prestações….

Como o maior investimento das pessoas são suas próprias casas, o mercado hipotecário (alimentado por juros reais negativos) criou um paraíso artificial. Estimulou uma industria imobiliária especulativa e desmesurada, predadora do meio ambiente, que se alimenta de trabalhadores imigrantes e dinheiro emprestado a baixo custo. Diante de tal facilidade, poucos empreendedores apostaram em inovações. Mesmo empresas de desenvolvimento tecnológico, grandes ou pequenas, passaram a buscar a autovalorização no mercado financeiro, ao invés de inovar. O que importava não eram as habilidades e virtudes da empresa, mas seu valor no mercado de capitais. O que muitos “inovadores” desejavam, na verdade, é que sua empresa fosse comprada por uma maior. A chave desta piramide especulativa era o entrelaçamento de toda essa divida: os passivos se convertiam em ativos para garantir outros empréstimos. Quando os empréstimos não puderam mais ser pagos, começou a insolvência de empresas e pessoas. As quebras propagaram-se em cadeia, até chegar no coração do sistema: as grandes seguradoras.

Diante do perigo do colapso de todo o sistema, os governos salvaram bancos e demais instituições financeiras.

Quando secou o credito às empresas, a crise financeira converteu-se em crise industrial e de emprego. Os governos assumiram o custo de evitar o desemprego em massa e tentar reanimar a economia moribunda. Como pagar a conta? Aumentar os impostos não dá votos. Por isso, recorreram aos próprios mercados financeiros, aumentando sua já elevada dívida pública. Quanto mais especulativas eram as economias (Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha) e quanto mais os governos pensavam apenas no curto prazo, maior eram o gasto público e o aumento da dívida. Como ela estava lastreada por uma modea forte – o euro –, os mercados continuaram emprestando. Contavam com a força e o crédito da União Europeia. O resultado foi uma crise financeira de vários Estados, ameaçados de falência. Esta crise fiscal converteu-se, em seguida, numa nova crise financeira: porque colocou em perigo o euro e aumentou o risco de países suspeitos de futura insolvência.

Mas quem quebraria, se fossem à falência os países em condições financeiras mais precárias, eram os bancos alemães e franceses. Para salvar tais bancos, era, portanto, preciso resgatar os países devedores. A condição foi impor cortes nos gastos dos Estados e a redução de empregos em empresas e no setor público. Muitos países – incluindo a Espanha – perderam sua soberania econômica. Assim chegaram as ondas de demissões, o aumento do desemprego, a redução de salários e os cortes nos serviços sociais. Coexistem com lucros recordes para o setor financeiro. Claro que alguns bancos perderam muito, e terão de sofrer intervenção do Estado – para serem, em seguida, reprivatizados. Por isso, os “indignados” afirmam que o sistema não está em crise. O capital financeiro continua ganhando, e transfere os prejuízos à sociedade e aos Estados. Assim se disciplinam os sindicatos e os cidadãos. Assim, a crise das finanças torna-se crise política.

Por que a outra característica-chave do sistema não é econômica, mas política. Trata-se da ruptura do vinculo entre cidadão e governantes. “Não nos representam”, dizem muitos. Os partidos vivem entre si e para si. A classe política tornou-se uma casta que compartilha o interesse comum de manter o poder dividido entre si mesma, através de um mercado político-midiatico que se renova a cada quatro anos. Auto-absolvendo-se da corrupção e dos abusos, já que tem o poder de designar a cúpula do Poder Judiciário.

Protegido desta forma, o poder Político, pactua com os outros dois poderes: o Financeiro e o Midiático, que estão profundamente imbricados. Enquanto a dívida econômica puder ser rolada, e a comunicação controlada, as pessoas tocarão suas vidas passivamente. Esse é o sistema. Por isso, acreditavam-se invencíveis. Até que a surgiu a comunicação autônoma e as pessoas, juntas, perderam o medo e se indignaram. Adonde ván? Cada um tem sua ideia, mas há temas em comuns. Que os bancos paguem a crise. Controle sobre os políticos. Internet livre. Uma economia da criatividade e um modo de vida sustentável. E, sobretudo, reinventar a democracia, a partir de valores como participação, transparência e prestação de contas aos cidadãos. Porque como dizia um cartaz dos indignados: “Não é que estamos em crise. Es que ya no te quiero”.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Na GV a discussão sobre o futuro do câmbio




















Duas grandes linhas de pensamento parecem colocar-se em relevo quando o assunto é que tipo de politica conduziria o país a uma desvalorização controlada do cambio que, resguardando o nivel de emprego na disputa entre o produto nacional e o importado, preservasse, ao mesmo tempo, o real dos efeitos inflacionários das medidas a virem ser implantadas nesse sentido.
O pomo da discordia, como quase sempre oocorre em economia, é entre os que perdem e e os que ganham com desenhos alternativos de políticas, brandidas por economistas como exercício desinteressado de pesquisa. Em meio a esses partisans pode-se ouvir sempre alguma voz pautada por um sopro de patriotsmo, ainda que fora de época.

No colóquio em questão primeiro posicionou-se o Governo. O economista Eduardo Pires de Souza, do BNDES, apontou que a indústria perde aceleradamente a competitividade frente concorrentes mundo afora. Mostrou como prova dados apontando que enquanto a economia brasileira andou ao rítimo de 4,4% médios ao ano de de 2004 para cá a indústria não acelerou o passo do crescimento para além dos 3%. Andando de lado a produtividade, cresce o peso da mão de obra no produto da indústria, o que mina sua competividade e a torna dependente crônica das medidas fiscais laxantes do Governo. Pediu o assessor para que se atentasse aos números: enquanto os custos da folha aumentaram para a indústria manufatureira no Brasil estratosféricos 130%, na Alemanha permaneceram estáveis em 0,2%. Silêncio no auditório.

Veio de Minas a invectiva mais canhestra contra uma formulação mais consentânea para o problema do câmbio. O professor Marco Rezende da Federal de Minas, traduzindo talvez algo do que entende ser a posição do presidenciável Aécio Neves sobre o assunto, propugnou por mais do mesmo. Assim ponderou o economista o conservador: se o problema é o excesso de divisas que ingressam no país e o risco de que saiam tão abruptamente quanto entraram, nada mais natural que se controle o câmbio na entrada e saída desses capitais. Diante do programado rebaixamento da caixa d’água das divisas que nesse caso seria de esperar, o professor arrematou dizendo que continuaria ser necessário manter os juros elevados e sob severo controle as despesas governamentais (as de investimentos, inclusive) para garantir preços acomodados.

Algo como reunir os especuladores à mesa para combinar com eles as regras do jogo, transferindo a conta do acerto aos trabalhadores e às empresas brasileiras que precisem recorrer ao mercado de crédito. Mas passemos adiante, já que tal posicionamento não se mostrou capaz de arrancar uma expressão sequer aos presentes.
Seria preciso uma voz de autoridade, com moral histórica para apontar um caminho que não fosse nem muito ortodoxo nem demais inovador, mas que - neste ano em que se comemora o centenário de Raul Prebish, o pai do pensamento nacional-desenvolvimentista latinoamericano - indicasse uma maneira menos autopunitiva de convivência com o capitalismo internacional ou com o que deu-se agora de chamar “mercados”.
Ninguém melhor para desempenhar esse papel que o professor Bresser Pereira, paladino de uma versão bastante aceita de internalização do desenvolvimento econômico e ele mesmo decano da Instituição promotora do encontro. O professor Bresser reverberou Prebish e Celso Furtado e apontou nos céus as pás de moinho da doença holandesa: o perigo de um ingresso indesejado de moeda forte (não só dolar) que valorizasse o real e aniquilasse a indústria nacional , o que, no entender do respeitado economista, já estaria ocorrendo desde alguns anos.

Os presentes entreolharem-se porque, afinal, não é de todo certo de que o organismo econômico do país esteja padecendo de enfermidade desse tipo. Afora a profissão de fé no papel da indústria nacional, Bresser Pereira nãofez ouvir aos participantes do colóquio nada nada de mais inovador que não fosse a cantilena da proteção incondicional da indústria nacional,lembrando os áureos tempos de juventude, tre as d´cadas 60 e 80 passadas, em que a indústria brasileira teria crescido quase 1000%, permitindo o intenso processo de urbanização que então se verificou (acrescento eu). Os acadêmicos bocejaram.

Coube, no entanto, a um jovem professor da Universidade de Campinas, Ricardo Carneiro, o ponto de vista mais ousado e também funcionalmente mais aderente à situação concreta experimentada pelo país no atual contexto da economia internacional. Retomando as avaliações do representante do BNDES, o jovem professor lembrou qua não dava mais para retomar a paridade cambial de 10 anos atrás para assegurar competitividade a setores industrias moribundos que haviam irrremediavelmente perdido a capacidade de reagir à obsolescência e ao atraso tecnológico.

Ousou sustentar que se tratava sim de voltar os olhos aos setores de mais alta produtividade e competitividade da economia nacional e que vinham respondendo pelo substancial das mudanças estruturais verificadas no país: os execrados setores de comódites agrominerais e de alimentos, o setor de serviços (reponsável pela criação de 75% do estoque de empregos nos últimos 1a anos), o setor metal-mecânico e aero-espacial. Porque aí, aí sim estaria o força motriz do que se poderia chamar de mercado interno.

Para surpresa dos que pensavam nada existir além do senso comum do jornalismo econômico diário defendeu as inversões em tecnologia capitaneadas por empresas ligadas ao setor público e a recusa em disputar-se com a China o papel de fabrica do mundo, dado as vantagens de escala e de custos fabris de que desfruta aquela economuia asiática. Terminou dizendo: “o câmbio está muito valorizado mas é preciso tomar cuidado com ele. O crescimento brasileiro se baseia na demanda doméstica e não só nas exportações”

Com sua fala ficou a impressão de que o país está no rumo certo e de que Prebish e qe as teses cepalinas são uma referência e não um fetiche.















quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Educação e Tecnicismo




















A última palavra da moda em matéria de educacão passou a ser "ensino técnico e profissionalizante". Em se tratando de moda, que sempre retorna algo adaptada, muito já foi dito em análises críticas sobre essa perspectiva em educação: que cria modernos ajustadores de parafusos; que esvazia o caráter formativo do ensino, conservando-lhe apenas o informativo; ou que cria contingentes de despreparados para intervir nas sempre cambiantes condições com que opera a economia do conhecimento.

Muito embora as críticas dirigidas à natureza dos programa em educação colocados em prática pelos governos no Brasil - particularmente os de extração mercadista - sejam todas válidas, farei aqui como recomendava Schopenhauer em sua "a arte de escrever", atendo-me apenas ao que for digno de ser dito.

Mesmo que bem sucedidas em abastecer de técnicos o mercado, essas políticas fracassarão em seus objetivos últimos caso as novas aptidões de trabalho que venham proporcionar não sejam elas mesmo resultado de um processo mais difundido de produção intelectual tendentes a lhes dar alcance produtivo mediante integração às cadeias mais flexíveis de um desenvolvimento tecnológico internacionalmente articulado.

A autonomização do conhecimento que articula a produção tecnológica, exprime transformações de natureza mais complexa situadas no âmbito da superestrutura das sociedades capatalistas contemporâneas, em questões ligadas ao exercício da cidadania e da formação inteletual da juventude, que não se circunscrevem exclusivamente ao preparo técnico.

De pouco ajudaria na constituição de um ambiente propício à reprodução e ao desenvolvimento incremental da ciência uma sociedade sem rosto que surgisse de esforço educacional desse tipo, baseado tão somente no "moto" do atendimento mais imediato às expectativas de consumo e de bem estar de segmentos sociais emergentes da presente e alterada configuração da divisão internacional do trabalho entre os principais grupos de nações do mundo.

A idéia tola de falar politicamente a um ou outro desses setores de classe, com vistas ao calendário eleitoral, substima que o lugar do estabelecimento de uma mentalidade secular e cidadã é a escola e não o "shopping center". E que o gosto pela ciência e por tudo aquilo que ela será capaz de fazer pelo país nasce das cátedras comprometidas com o conhecimento e valorizadas pela sua função social.







Não seria excessivo lembrar que a tendência a fazer-se sobrepor a ascensão social mais imediata aos ganhos coletivos que possam advir do rápido preenchimento dos espaços deixados vagos pelos deslocamentos tectônicos do mecado de trabalho, não é característica deste ou daquele país nem tampouco daqueles em fase de rápido desenvolvimento.

Também a Inglaterra viveu situação semelhante nas décadas de 60 e de 70 do século passado na contrapressão das mudanças operadas com a ascensão dos Estados Unidos à condição de potência hegemônica depois da segunda grande guerra. Aos contingentes de trabalhadores dos distritos industriais de Manchester esvaziados com a perda de lugar da ilhas britâncas no comércio pós-colonial somaram-se outros ainda mais numerosos egressos da indústria de máquinas e equipamentos e da City londrina, depois que o silenciar dos canhões revelaram a balbúrdia das bolsas novaiorquina.

A resposta do governo britânico foi remodelar o ensino no país buscando emprestar a um sistema educacional que havia produzido luminares como Janes Watson e Francis Crickt , formuladores do modelo di-helicoidal do dna, uma feição mais pragmática e mais consorte com as necessidades de ajustamentos econômicos de curto-prazo do reino.

Foi por esse tempo que um então bastante conhecido grupo de rock, Pink Floyd, produziu um vídeo-musical denúncia sobre as mazelas da educação inglesa e sua incapacidade de preparar o futura como pretendia a propaganda de governo. Chamava-se "mais um tijolo no paredão, para insinuar o fechamento à reflexão que tal sistema operava.

O material é de todo válido não só para o mesmo Reino Unido nos dias de hoje - às voltas com os efeitos sociais disruptivos do tecido social de um capitalismo não comprometido com a formação - mas, de uma maneira bem mais proveitosa, para as nações que passam a ocupar um novo lugar na ordem mundial. A mensagem é que cidadania, ciência, formação e democracia caminham juntas.


O papel da educação é o de colocar a ciência no cotidiano das pessoas.




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domingo, 14 de agosto de 2011

A Turma do Lero-Lero


Ah essas incríveis consultorias e seus subterfúgios maravilhosos...




Mal começa se consolidar uma visão mais informada sobre como dar combate a inflação sem o sacrifício diretamente proporcional das taxas de crescimento, baixando-se drasticamente a taxa Selic de juros (coisa de 2 a 3 pontos percentuais ainda neste ano) ao mesmo ritmo da cedição da inflação ditada pela queda das comodities agrominerais, e já aparece gente acenando com os riscos do efeito China sobre o desempenho das contas correntes nacionais.




Parte-se de ponderações razoáveis quanto ao peso daquele país asiático no balanço de comércio brasileiro (da ordem de 70%) para chegar-se a prognósticos catastróficos de que um ciclo perverso de desvalorização do câmbio puxado pela queda das importações chineses, bola da vez na atual crise das dívidas soberanas, precipitaria um desarranjo das contas correntes e um baque final do PIB.




Apavorante? Sem dúvida. Mas como qualquer estória contada para amedrontar também essa é composta por quadros premeditadamente arranjados de modo a que produzam o maior susto possível em leitores desavisados. Isso porque em economia tudo tem a ver com tudo, e se não se delimita com precisão as relações causais postas em movimento é bem possível ligar os mais recentes fatos econômicos com as profecias de Nostradamus.




Senão vejamos. Pregar que a China possa ser severamente afetada nesse quadro de crise equivale a insinuar que na hipótese de não serem seguidas as prescrições ortodoxas de manutenção dos juros em níveis elevados o doente poderá morrer vitimado pela natural progressão da epidemia, que deveria seguir seu curso até que organismos adaptados pudessem espontaneamente sobreviver ao mal. O alerta vem do escritório do Senhor Maílson da Nóbrega e vertido a uma linguagem menos paramentada poderia significar: "temos sobre o colo uma bomba bacteriológica que só uma longa quarentena da produção poderia desarmar".




Diga-se que a idéia de achar que a nossa felicidade vai até onde vai a felicidade dos Chineses precede o atual tensionamento dos fluxos internacionais de capitais e vem sendo reiterada desde que ficou patente que a superação do longo ciclo das restrições estruturais das contas externas brasileiras decorriam do estabelecimento de um novo arranjo da divisão internacional do trabalho entre os países centrais e periféricos, em que a complementaridade entre produção de mercadorias em larga escala e a de comodites entre nações de mercados em rápida expansão viria a constituir-se no novo eixo de um ciclo duradouro de crescimento econômico mundial.




A primeira insuficiência do argumento brandido é a de não ter em devida conta o contexto em que se opera essa interação de comércio, ela mesmo resultado e vetor de uma nova ordem capitalista ditado pela ampliação de mercados e integração ao consumo de centenas de milhões de trabalhadores em economias de desenvolvimento retardatário.




Falar nesse caso de efeito dominó é pensar que a corrente possui resistência correspondente à de cada um dos seus elos e que a sequência dos efeitos desencadeados ocorreria numa espécie de vácuo de coordenação do qual estariam ausentes os principais interesses em jogo.




A exemplo de China e Índia, as forças postas em movimento nos países de mais rápido crescimento gozam de relativa autonomia em relação à dinâmica dos países centrais figurando como atratoras de capitais produtivos em busca de maior rentabilidade.




O velho berço do capitalismo industrial agora às voltas com efeito de mais longo prazo das reformas liberais das décadas de 80 e 90 do século passado, por meio de sua revista de maior circulação, a The Economist, não enxerga mais que uma oscilação conjuntural nos mercados latino-americanos, festejando as boas políticas introduzidas nas últimas décadas pelos governantes dos respectivos países, em particular do Brasil. Extrai a uma declaração da presidente guerrilheira o termo que dá título ao artigo.




O periódico conservador reputa a melhora na qualidade das políticas implementadas ao maior rigor fiscal posto em prática e a cautela na formação de reservas. Recomenda doravante uma menor ênfase na política monetária e em seu corolário os juros altos, propugnando por um maior empenho nas reformas estruturais que, em seu entender impulsionariam o investimento público e privado para dotar o país da infraestrutura necessária a um ciclo mais prolongado e consistente de crescimento.




Nesse sentido, caberia perguntar: a que se prestaria a estória de bicho papão que começa a dominar o discurso das consultorias? A reposta é simples: a esconjurar a idéia posta em debate de aproveitar a menor pressão internacional sobre os preços para finalmente alinhar o juros internos aos do mercado externo, contendo, dessa forma, da única maneira eficaz, a enxurrada de capital especulativo em fuga dos cassinos centrais. Segue o artigo da The Economist, traduzido por este economista.





Quadro de Estremecimento




The Economist



12/08/2011







Nos últimos 2 anos os líderes políticos latinos-americanos puderam admirar o mundo com uma certa satisfação. Enquanto a Europa e os Estados Unidos eram vistos em estagnação, a América Latina desfrutava de uma vigorosa recuperação, tendo atravessado, na maior parte do tempo, a recessão sem muitos danos colaterais. Turbinada por afluxos de capitais, por cotações recordes nos preços das comodites, por políticas bem concebidas e pela consistente expansãoo do crédito doméstico, a região alcançou crescimento econômico de 6% no ano passado e que neste ano está em vias de bater na casa dos 5%.




Esta semana trouxe, no entanto, preocupações. Com o medo assaltando os mercados financeiros mundiais, as bolsas regionais e as moedas estancaram em 8 de agosto último. O índice Bovespa brasileiro despencou 8% e o real chegou a sua cotação mais baixa em 3 meses, assim como o México que se desvalorizou ao menos nível em 6 meses. Desde então os mercados permanecem cautelosos.




Assim, poderia então a recuperação da américa latina estar ameaçada? “Essa é a segunda crise que afeta o mundo e pela segunda vez o Brasil não balança”, declarou Dilma Roussef, sua presidente. “Estamos hoje numa posição muito melhor para enfrentar esta crise do que estávamos no começo de 2009 e fins de 2008”.




E de certo modo ela tem razão. As reservas internacionais da região tiveram aumento substancial desde outubro de 2008 (no caso do Brasil saltaram de 200 bi de dólares para quase 350 bi). Confrontados com o aquecimento econômico e o desconfortável fortalecimento da moeda machucando os fabricantes nacionais, os formuladores de política brasileiros e de outros países da região saudariam uma ainda que modesta depreciação de suas moedas.




Preocupa que a inflação tenha disparado na américa do sul (no Brasil foi a 6,9%, acima da meta do Banco Central). Mas Augusto De La Torre, economista chefe do Banco Mundial para a região, aponta que uma eventual desvalorização teria hoje menor impacto sobre as expectativas inflacionárias que nos anos 90. O que pode ser atribuído a credibilidade granjeada pelo formuladores da política econômica do país.




A melhor condução das economias latino-americanas tem também a ver com uma disponibilidade de recursos de política maior que a existente nos países mais ricos do mundo. Tendo passado os últimos 9 meses elevando as taxas de juros com o propósito de desaquecer a demanda, os bancos centrais põem agora reduzi-las novamente se necessário (a despeito do fato de que a inflação incomode menos que antes). Os déficites fiscais são relativamente modestos como modestas são também as margens de endividamento público (exceção feita a região do Caribe), que devem se manter na média de 32% do PIB em 2010, de acordo com a Comissão Econômica para a América Latina da ONU.




O principal motivo para que a américa latina permaneça calma é que a ameaça externa desta vez diferente da que se verificou em 2008. Nessa ocasião, a queda do banco Lehman Brothers deflagrou súbita paralisia dos fluxos de capitais destinados a região. Agora, a menos que o pânico venha se espalhar pela zona do euro, o receio está mais associado a um período prolongado de estagnação no mundo desenvolvido. Dois fatores respondem por esse sentimento: o primeiro é que o motor do crescimento global, em particular da américa latina, consiste na demanda chinesa por minerais, alimentos e outras matéria primas. O que parece deverá continuar; o segundo fator, é a elevação do consumo dos próprios latino-americanos na medida em que milhões emergem da miséria e passam a beneficiar-se da oportunidade recentemente adquirida de acesso ao crédito. Assim o é no México, que tendo sofrido mais que os demais latinos em 2009 e que se mostra mais vulnerável ao crescimento lento dos Estados Unidos, dispõe de uma maior abertura que outros na região para promover a expansão do crédito domestico.




Mas mesmo antes da última turbulência de mercado, esperava-se um arrefecimento das economias latino-americanas para perto de 4% ao ano. A região “está batendo no seu limite de velocidade depois de uma recuperação bastante vigorosa”, diz o Sr. De La Torre. A américa latina não dispõe de uma BMW, tem sim um Lada que esquenta muito rápido”.




Isso ocorre porque muitos dos países não investem nem poupam o bastante. Tampouco usam seus recursos de maneira eficiente. Mckinsey, uma consultoria de negócios, reconhece que entre 1991 e 2009 a produtividade do trabalho cresceu na America latina a uma taxa anual de apenas 1,4%, comparado com os 3,9% da Coréia e os 8,4% da China. A razão deste desempenho fraco incluem uma economia informal enorme e leis trabalhistas pouco flexíveis, falta de inovação das empresas e investimentos públicos insuficientes em educação e infraestrutura de transportes.





Os governos bem que poderiam fazer mais para a mudança desse quadro. Para começar, deixaram muito de suas políticas de prevenção a aquecimentos inflacionários dependerem da política monetária, jogando para cima o custo do crédito. John Welch da Macquarie capital, braço de um banco de investimento australiano, destaca que o Brasil investe só 18,5% do PIB (enquanto a China 49%) por causa da combinação de baixos níveis de poupança, altas taxas de juros e tarifas comerciais sobre insumos que tornam o investimento particularmente mais caro.




Dado o vigor da recuperação experimentada, os governos deveriam ter ajustado suas políticas fiscais mais rapidamente. O Chile foi o que foi mais longe. Graças em parte a um aumento da taxação, irá cortar seu déficite fiscal para 1,8% neste ano, apesar das despesas extraordinárias a que foi obrigado depois do terromato ocorrido no ano passado, diz Felipe Larrain, ministro das finanças. O Brasil está revertendo seu déficite este ano, no entanto programa substancial aumento de aposentadorias e vencimentos do funcionalismo para o próximo ano. Ao mesmo tempo que o setor público precisa investir mais, especialmente para elimiar o gargalo nos transportes.Mas há um obstáculo político. “Pregar ajuste fiscal em Período de abundancia não é nada fácil, por causa das demandas sociais” na America latina, admite Nicolas Eyzaguirre, o responsável do FMI para a região, que tem tentado a receita nos últimos anos.




Quanto mais os países latino-americanos adiarem as reformas estruturais de que precisam, mais reféns tornam-se do resto do mundo. O déficite conjunto em conta corrente deles sobem cada vez mais a despeito dos termos de comércio (razão entre preços de exportação e importações) terem saltado 25% desde 2005. Muitos desses países têm dissipado o bônus num explosão de consumo e importações ao invés de dirigi-los a investimentos, argumenta Neil Shearing da Capital Economics, consultoria que faz projeções de decréscimo do ritmo de expansão das economias latino-americanas para 3,5% no próximo ano e 3% em 2013.




Apesar do fortalecimento das reservas na região, seu crescimento tem sido alimentado pelo que o FMI chama de “rabo de vento” do dinheiro barato dos países ricos e preços elevados das comodites. O primeiro pode continuar por hora, mas o segundo não. Se o mercado vier a lhes infundir neste momento um senso de urgência, não terá sido em vão.



Segue um breviário da ressurgência da crise:





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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O jogral dos juros altos







Quadro interessante começa a se desenhar entorno da discussão do que fazer com as taxas juros mantidas em níveis elevados pelo banco central a fim de prover estabilidade macroeconônica ao país, neste momento de agravamento da crise de solvência de importantes países da zona do euro, depois do rebaixamento da classificação dos títulos do tesouro norte-americano.






Como é sabido, as taxas de juros Selic, que funcionam como piso para as taxas praticadas no mercado financeiro brasileiro, foram fixadas em 12,5% na última reunião do comitê de política monetária do Banco Central como medida de política monetária destinada a fazer recuar a inflação que, pelas projeções da própria instituição, ameaçava romper o limite de 6,5% ao ano estabelecida para a meta de variação dos preços para o ano em curso.






Considerava-se líquido e certo, entre analistas de diferentes escritórios de consultoria, com privilegiado acesso aos meios de comunicação, que os juros continuariam a subir pelo menos mais 0,5 ponto neste ano, alcançando 13%, e chegariam a níveis ainda mais salgado em 2013.






Ocorre que estudos mais minuciosos sobre a estratégia de política econômica adotada pelo Banco Central para peservar o país dos efeitos da crise de 2008, demonstraram que as medidas de enfrentamento postas em prática foram por demais zelosas com a rentabilidade dos grandes bancos ( o que não surpreende dado o status de dandy de que desfrutava Meirelles junto aos conglomerados financeiros) indo muito além do plausível para garantir liquidez às operações do mercado interbancário (empréstimos entre bancos) e chegando mesmo a assegurar-lhes a rentabilidade via preservação do preço da mercadoria transicionada por essas instituições: o dinheiro.






Não carecia de tanto, diriam as sábias quituteiras da Bahia, desde que o sempre eficaz rebaixamento dos compulsórios (espécie de garantia sobre empréstimos que os brancos são obrigados a manter junto a autoridade monetária) e o franqueamento a linhas especiais de emergência bastariam para manter preservada a confiança dos depositantes no sistema financeiro nacional, de resto muito bem avaliado mundo afora.







Perdeu-se naquele momento oportunidade de ouro para alinhar as taxas de juros nacionais às internacionais, o que teria de quebra poupado a indústria nacional do infortúnio trazido pela intensa valorização do real verificada no momento seguinte, em decorrência da enxurrada de capitais forâneos atraídos ao país pelos ganhos de arbitragem proporcionado pelo diferencial de juro interno e externo, permitindo, com isso, que o desempenho da economia pudesse ser mais pautado pelo investimento produtivo, induzido por juros baixos, que por uma abundante oferta de crédito associada ao maior endividamento das famílias e empresas.






A recidiva da crise da crise financeira internacional a que hoje se assiste, reabre a perspectiva de decepar a meio corpo a píton dos preços que insinuava erguer a cabeça sob o impulso da valorização internacional das comodities agrominerais e da expansão da demanda via a maior participação dos salários na renda nacional e alternativas creditícias de menor risco.






Eis que as mesmas vozes que se levantavam há 2 anos atrás em favor do que chamavam de "medidas monetárias de cautela", retomam o conhecido jogral de projeções autoajustáveis que prevêm a manutenção dos juros para este ano em patamares irrevogavelmente elevados e quiçá ligeiro relaxamento da alta para o próximo. Uma concessão feita a sociedade quanto à possibilidade de existência de alguma luz no fim do túnel depois de purgada a luxúria do consumo. Um discurso ainda que destituído de bons fundamentos econômicos todavia de forte apelo numa cultura de base cristã dada ao sacrifício.






Mas tudo indica que desta vez o cansativo e pouco desinteressado número contará com pouca audiência. Tanto a presidente guerrilheira como seu banqueiro central, ele mesmo voto vencido em 2009 quando a diretoria que integrava no Bacen optou pela decisão que bonificou a intermediação financeira em detrimento da economia real (mundo da produção), enxergam na situação presente uma oportunidade rara de matar alguns coelhos com uma única cajadada. Um consenso mais informado sobre estratégias alternativas de combate a inflação, na nova situação de contas externas com reservas de US 350 bi, começa a se formar nos setores econômicos do país ligados a produção (comércio, indústria e serviços).






Já pensou na possibilidade de um Brasil com juros civilizados e sem o fantasma da inflação? Pois bem, esse momento parece ter chegado. O artigo abaixo de Claúdia Safatle, publicado no jornal Valor Econômico de 12/08/2011 auxilia a compreensão desse momento.












Claudia Safatle
12/08/2011






Os sinais de desaceleração da economia começam a ficar evidentes. Os grandes bancos funcionam em bases sólidas. Não há notícias de que empresas brasileiras estejam altamente alavancadas em derivativos, como ocorreu no segundo semestre de 2008. E, além dessas diferenças entre as condições brasileiras para o enfrentamento da crise de 2008 e hoje, há informações até então desconhecidas sobre os efeitos de políticas anticíclicas no país, sejam fiscais ou monetárias. O quadro em 2011 é mais claro.







Em 2008, o que se sabia da experiência histórica do país era que, ao menor sinal de turbulências no mercado internacional, a resposta da política econômica no Brasil era sempre a mesma: aumentar a taxa de juros para atrair capitais e fechar as contas do balanço de pagamentos. E, quando possível, apertar as condições fiscais para garantir a solvência do governo. Era a reação clássica de um país acostumado com crises cambiais. O Brasil nunca havia feito política monetária contracíclica e as autoridades temiam seus efeitos, avaliam fontes que estavam no governo em 2008.







Por outro lado, descobriu-se no início das turbulências daquele ano que empresas brasileiras estavam com elevadíssima alavancagem em derivativos cambiais, expostas em cerca de US$ 40 bilhões, com contratos recheados de truques e gatilhos. Uma redução precipitada dos juros e a desvalorização mais acentuada da moeda doméstica poderiam agravar a situação.
Tombini se posicionou a favor da redução dos juros em 2008.







Além do mais, a toda desvalorização do câmbio no país seguia-se a elevação da inflação. No segundo semestre de 2008, a economia ainda estava com crescimento acelerado e as expectativas de inflação esbarravam no teto da meta (6,5%).












Foi nesse ambiente que o Copom fez a reunião de outubro, após a quebra do Lehman Brothers em setembro, quando os créditos externos para o Brasil já haviam secado e a liquidez bancária estava empoçada, com grandes dificuldades para instituições de pequeno e médio porte. Em 29 de outubro, o comitê decidiu manter a Selic em 13,75% - após a alta de agosto.






Em dezembro, ao contrário do esperado, o Copom manteve os juros inalterados, sinalizando com redução só a partir de janeiro de 2009.







Esse foi um dos momentos em que o Copom recebeu mais críticas por parte de economistas e analistas de mercado. E, também, de políticos como o ex-governador José Serra, que considerou aquela foi uma oportunidade perdida para o país ousar em busca de taxas mais módicas de juros. O BC poderia ter reduzido a Selic em quatro pontos percentuais durante o ciclo recessivo que se iniciou então, argumentava o governador de São Paulo.







Revisitando a história recente, é possível descobrir alguns fatos não divulgados à época. Poucos dias após a quebra do Lehman Brothers, em 15 de setembro, os diretores do BC tiveram uma conversa em São Paulo. Alexandre Tombini, então diretor de Normas, foi o único a opinar a favor da redução dos juros naquele momento. O que foi ouvido com certa perplexidade pelos demais presentes.







Na reunião de dezembro, Tombini foi mais incisivo e posicionou-se totalmente a favor da redução da Selic. Outros diretores foram contra e ele chegou a dizer que não estava convencido dos argumentos contrários, mas votou com os demais pelo adiamento da decisão para janeiro. Naquela reunião, o Copom foi unânime, mas a ata trouxe um malabarismo verbal que deu o que falar.






Ela dizia que as restrições financeiras em curso poderiam esfriar a demanda e, portanto, conter a inflação. Nessas circunstâncias, a maioria dos membros do Copom discutiu a redução de 0,25 ponto percentual da Selic. Mas prevaleceu o entendimento pela manutenção da taxa inalterada até o mês seguinte, janeiro, quando o corte foi de um ponto. A direção do BC em 2008 se preocupou mais em fornecer liquidez para o sistema bancário e suprir o crédito em moeda estrangeira, que havia desaparecido, centrando todas suas atenções para evitar uma crise financeira no país.







À parte os engenheiros de obra feita, o fato é que ficou marcado na história da política monetária que o BC perdeu ocasião de ouro para reduzir os juros, como, aliás, fizeram os demais países. A experiência daquele período passou a pautar as análises do atual governo. Tudo o que não se quer nessa crise, dizem fontes oficiais, é repetir o "erro" de 2008. Ao contrário, a avaliação que se faz no governo - em meio às preocupações quanto às dívidas soberanas dos países da zona do euro e o temor de uma recessão global - é que há boas possibilidades para o Brasil aproveitar a maré e, finalmente, reduzir os juros.







A favor dessa ideia há vários argumentos. Diferentemente de 2008, o agravamento da turbulência externa coincide com a desaceleração da economia brasileira. Ontem saíram dados do IBGE sobre o varejo, que mostram desaquecimento moderado. As vendas cresceram 0,2% em junho sobre maio.






As empresas que não quebraram aprenderam com o susto dos derivativos e hoje estão mais comportadas. Os efeitos de uma desvalorização do câmbio sobre a inflação podem ser neutralizados pela queda nos preços das commodities que o Brasil exporta, atenuando, assim, as pressões sobre preços domésticos. Em 2008, isso não era claro, explicam fontes da época.






Há, portanto, melhores condições, estruturais e conjunturais, para se administrar uma política monetária contracíclica e forma-se um consenso, no mercado e no governo, de que a crise na Europa, EUA e Japão pode ajudar o país a começar a remover sua maior aberração: a de campeão de juros.