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terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Propaganda Imoral do HSBC



O que as empresas financeiras não fazem para vender! Ou melhor, o que fazem para degradar as relações humanas a fim de imputar-lhes um preço e comercializá-las em mercado! 

E a velhice, desvalorizada pela glorificação midiática do corpo jovem e pelo apelo ao descarte de tudo que perdeu estilo, oferece-se como vítima preferencial dessa pregação.
A reflexão é sugerida pela propaganda de um grande banco, que vem sendo veiculada pelas emissoras de TV, em que um idoso percorre com semblante contristado as dependências do que seria um asilo, acompanhado por alguém que lhe serve de guia às instalações do lugar.
Perfilam pela câmara a sala de televisão, onde um grupo de internos queda-se silencioso diante da tela de um aparelho de TV, de modo mimetizar deliberadamente a audiência que assiste à propaganda.
Em seguida a sala de jogos, em que outro grupo movimenta, com gestos maquinais e rostos destituídos de alegria, peças sobre tabuleiros.
Por fim, o quarto reservado ao suposto interno abre-se à audiência sob o giro da maçaneta do enigmático acompanhante. Momento em que os olhos do idoso erguem-se em direção ao guia com ares ao mesmo tempo de súplica e de condenação. Enquanto isso, cenas em retrospectiva retomam um momento qualquer da vida do infeliz homem, quando podia entregar-se ao convívio dos que amava.
É nesse instante que a tensão criada pela peça de ficção é dissipada para fazer revelar que as instalações do iminente confinamento não são as de um asilo, mas as de uma “casa de repouso” legadas por quem agora se apresenta como sendo um zeloso pai, por meio da poupança de um plano de previdência privada.
Num último segmento, o pai é mostrado abandonando o lugar palco das angústias que as imagens antecedentes insinuaram. Suas expressões são de alegria, enquanto o filho lhe acena da janela.  Sorte que, presume-se, não tiveram os demais internados devido à incúria dos que não adquiriram o produto do HSBC.  
A peça publicitária, em que pese o glamour da produção, é abjeta. Sabe-se que o objetivo de qualquer instituição financeira não é amparar os mais velhos, mas ganhar dinheiro. Bem poderia, no entanto, o banco inglês pautar-se por um pouco mais de decência diante das famílias brasileiras, que de modo algum vêm-se diante do dilema proposto ou de abandonar seus idosos em asilos ou de financiar o sucesso daqueles que serão, no futuro, seus proprietários.
Sem qualquer surpresa para quem se acostumou ao aviltamento dos mais vulneráveis e ao projeto de cobiça desmesurada dos grandes bancos, o filme é a reiteração luminosa do quanto a mídia e seus principais anunciantes desdenham dos valores morais que dizem propagar. Pior, o quanto o coração da nossa sociedade, que não vê nada de anormal na peça, endureceu diante dos que instituem a monetização do amparo e a cotização do afeto.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Revista Veja: Um Negócio em Crise


Quem tiver idade o suficiente e deixar a memória recuar no tempo irá se lembrar das grandes revistas do Grupo Abril. Títulos que marcaram a cultura do país e que muito colaboraram com o estímulo à ciência e a pesquisa como as revistas Realidade e Conhecer, esta de perfil enciclopédico.
Hoje os negócios da Editora Abril vão de mal a pior e seu setor de revistas vêm se revelando a parte mais problemática deles. O título mais relevante da empresa, a revista Veja, transformou-se em periódico sectário cujas matérias não se sustentam comercialmente em meio físico (versão impressa).
São tantos os inimigos feitos que a revista mais parece um bunker político, controlado por 2 ou 3 jornalistas, do que um semanário de opinião como foi um dia. As dificuldades financeiras do grupo devem ter implicações na linha editorial da revista e a anunciada contratação do banqueiro Fabio Barbosa para salvar o patrimônio da família Civita é indicativo disso.
Quando um homem do mercado financeiro, acostumado com o trato com governos, é convocado para pôr ordem na casa os radicais devem pôr as barbas de molho. É o que explica matéria do Observatório da Imprensa postada abaixo. 
Por Onde vai a editora Abril? (pelo Observatório da Imprensa) 
Movimentações recentes no comando da Editora Abril, como a contratação do banqueiro Fabio Barbosa para a presidência do grupo, e a compra, pela família Civita, do complexo de cursos e publicações Anglo Latino, têm estimulado suspeitas de que o grupo estaria se preparando para desidratar o setor de revistas.
Consolidada a aquisição do Anglo, por R$ 600 milhões, acertada em meados de 2010, o negócio ainda causa curiosidade entre especialistas, como deixou escapar na terça-feira (13/9) um experiente professor da Fundação Getulio Vargas.
Afinal, para que a Editora Abril iria querer um sistema educacional que é na verdade uma franquia que oferece cursos e vende apostilas?
Em primeiro lugar, não se trata de um negócio da Abril, mas da família Civita. Perspectivas pouco animadoras quanto aos sucessores de Roberto Civita teriam convencido o controlador do grupo editorial a investir em educação, um negócio muito mais promissor do que o de revistas.
Segundo mostrou o recente encontro da associação do setor, a ANER (Associação Nacional de Editores de Revistas), o cenário vai levar a mudanças radicais na organização das editoras, com uma provável fragmentação dos grupos de interesse, o chamado público das revistas.
A pulverização dos títulos, induzida pela necessidade de buscar recursos em nichos cada vez mais específicos, tem aumentado perigosamente a complexidade da gestão do grupo Abril.
Os esforços para a qualificação de editores em técnicas de administração não têm dado resultados, simplesmente porque jornalistas, em geral, não são preparados para outra coisa que não jornalismo.
Jornalistas que atuaram em outros setores da economia, em cargos de diretoria, sabem o abismo que separa seus colegas editores dos executivos oriundos das áreas financeira, industrial ou de serviços.
Sem um herdeiro que possa ser qualificado como gênio, e sem ter tido a sorte de ser, ele mesmo, um clone do pai, o patriarca Victor, Roberto Civita tem poucas garantias de ver prosperar ou mesmo permanecer sua complicada rede de publicações.
Mas as revistas estão acabando?
Não exatamente. Mas as mudanças que estão ocorrendo no setor vão se acelerar de uma forma jamais vista antes no mercado. Títulos tradicionais vão desaparecer subitamente, e certos temas serão quase exclusivamente lidos em plataformas digitais.
Na rota do Titanic
Volta, então, a pergunta que foi feita aqui na última terça-feira: o que o banqueiro Fábio Barbosa foi fazer na Editora Abril?
Ele já declarou aos editores que nada sabe do negócio de revistas. Mas Barbosa e Civita sabem que isso não tem a menor importância, porque ele não está na Abril para salvar as publicações – ele virou presidente do grupo para salvar o capital da família Civita.
No encontro em que foi apresentado aos editores do grupo Abril, Barbosa disse que, como não conhece o setor, talvez seja capaz de fazer perguntas que os jornalistas já esqueceram.
Bobagem: para fazer seu serviço, ele não precisa saber o que é uma boa pauta. Ele vai fazer o que é sua especialidade: obter o máximo de resultado financeiro no que resta de vida a alguns produtos, preparar a abertura de capital do outro negócio – o de educação – e observar a lona do circo de revistas murchar.
Roberto Civita já colecionou grandes feitos em sua carreira de executivo-empresário: perdeu a TVA, vendida para a Telefonica, viu o Brasil Online ser absorvido pelo UOL e estimulou a transformação da revista Veja, que já foi um dos principais patrimônios da imprensa brasileira, em um título Murdoch.
A Abril vive de um punhado de revistas sem qualquer relevância, a maioria voltada para assuntos de menor importância para as necessidades estratégicas de uma empresa do seu porte. As revistas de negócios, que já tiveram grande influência, foram transformadas em manuais de auto-ajuda para gerentes e são consideradas um dos elos mais frágeis do sistema de publicações de papel – porque os jovens executivos preferem se informar em seus aparelhos digitais e têm acesso a dezenas de alternativas setoriais no formato tradicional, como as revistas customizadas e as publicações de nicho.
Do conjunto de bravos e esforçados editores não saem ideias inovadoras capazes de criar novos títulos, simplesmente porque a empresa matou, ao longo dos últimos anos, a cultura de inovação.
A homogeneidade das redações desestimula a competição criativa, acomoda os profissionais, gera vícios na produção dos textos e no desenho das páginas, como pode observar qualquer leitor atento de revistas.
Não há gênio humano capaz de conduzir a bom porto um transatlântico como o grupo Abril.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O Acordo para a Abertura do Mercado de TV a Cabo





Muitos perguntam-se o porque da oposição ao governo federal encontrar-se tão boazinha a ponto de advogar, sem ter sido solicitada, uma aliança tácita com Dilma Russef.


Depois de 8 anos fora do Governo Federal, as forcas politicas perfiladas entorno do PSDB, o principal partido oposicionista, desmoronam. O que lhes restou foi a força do controle da mídia mantido por 15 famílias proprietárias de concessões de canais de televisão e uma ou outra revista impressa (dado a agonia de que padece a maioria delas), dentre elas a revista Veja.


Pois é exatamente essa oposicão “step” midiática, que vinha desde a era Lula primeiro ecoando e depois substituindo a oposição parlamentar, quem agora encontra-se em momento decisivo da trajetória que a levou ao dominio dos meios de comuicação no País.


Esta para ser votado no Congresso projeto de Lei que acaba com a reserva de mercado de que desfrutam essas 15 familias no mercado de TV a cabo, abrindo oportunidades de negócios que beiram os 50 bilhoes de reais anuais às sedentas empresas de telefonia, muitas delas conglomerados internacionais americanos e europeus que, em momento de crise em seus países de origem, estariam dispostas a colocar o que for preciso em moeda forte para ganhar escala no promissor mercado de TV a cabo voltado a classe média emergente brasileira.


Nunca os Marinhos e quejandos expuseram-se a riscos maiores em seus negócios quanto nos dias que correm. Impossibilitados de confrontar o governo como faziam anteriormente devido aos parcos meios políticos de que dispõem, esses capitães da midia silenciaram seus representantes no mundo da politica. Cobraram deles agora um apoio velado a Dilma em troca de um mais efetivo poder de barganha para alterar em seu favor o Projeto de Lei das TVs a cabo, a lei que deverá entrar em votação na Câmara dos deputados para permitir às empresas de telefonia móvel operarem também na transmissão de material audiovisual nas emissoras de TV fechadas.


O que pedem os capitães é que as operadoras de telefonia sem fio nao entrem na producao de conteúdo nem que lhes seja dado acesso ao sistema de cabeamento por fibra otica. Prometem, em contrapartida, condescendência com o Governo no projeto re-eleitoral de Dilma Russef.


Enquanto isso o deputado Vacarezza, relator do projeto, busca facultar aos representantes dos conglmerados televisivos espaços na discussão do projeto. Mas não há jeito. Haverão de ir alguns dos anéis dos dedos ricamente adornados das famílias controladoras das grandes redes devido ao fato de que não há como impedir que as Teles, como sao chamadas as empresas de telefonia, deixem de fazer uso dos mais recentes avanços da teconologia para porem no ar, via transmissao “wireless” e pela terça parte do preço, acesso massivo à TV a cabo.


Enquanto isso, e por causa disso, os parlamentares de oposição ao governo perdem não somente os anéis mas efetivamente alguns dos dedos, já que se bem sucedido o processo de negociação em curso entre os barões da mídia e as autoridades federais, deixarão de contar com o aporte de propaganda gratuita - na forma de cobertura jornalística farta - quando de suas campanhas eleitorais, em particular as previstas para coincidirem com as próximas eleições presidenciais.


Mas julgam todos que talvez seja melhor assim: FHC, afinal, aproxima-se do descanso eterno como referência maior das oposições, o menino Aécio não consegue livrar-se do estigma de baladeiro carioca enquanto Lula permanece a rondar o Planalto como amedrontador espectro político. Julgam que Dilma, vista como uma burocrata saída das entranhas do aparelho doe Estado, seria um mal menor.


Os telespectadores acompanham essa novela sem muito interesse, torcendo para que o acesso à internet e à TV lhes seja liberado sem as taxas aviltantes impostas pelos magnatas da mídia.