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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A avenida Paulista e o espírito dos tempos


Não é bonito um País em que as pessoas ascendem e tem mais oportunidades? Vejam o que acontece com a Avenida Paulista. Antes antro de marginais com imóveis de seu entorno em ritmo acelerado de depreciação, hoje a Paulista recebe dezenas de milhares de pessoas todas as semana para passeios noturnos.
A mídia tem noticiado esse afluxo de público, que extravasa as calçadas e alcança as pistas prejudicando o trânsito de veículos, como efeito das festas natalinas. Não é. Trata-se de certa disposição de espírito que leva as pessoas a se confraternizarem e darem a si mesmas e àqueles com que convivem um pouco mais de prazer.
É certo que na origem dessa atitude está a sensação de bem estar econômico. Mas é um sentimento que a excede. Envolve confiança no futuro, segurança pessoal, resgate do orgulho próprio e uma reelaboração das alteridades com quem se compartilha experiências: os vizinhos, o governo, os amigos e os parentes.
Como se chega a isso é questão reservada a diferentes especialidades e não apenas a sociólogos e economistas. Até a religião parece ter algo a dizer sobre esse novo momento, o que explica o sucesso de marchas com Jesus e outros encontros místicos que envolvem confraternização.
Quando o espaço público volta a ser referência de socialidade e as classes pobres deixam de imitar as mais ricas acorrendo aos “shoppings” é porque o País está mudando para melhor.
Retorna-se a um tempo que parecia superado do pipoqueiro e do algodão doce. Em que o prestígio de alguém se media menos pelas sacolas de compras carregadas nos braços e mais pelas vezes que se dizia boa noite.
Essa mudança de comportamento não deixa de ser também uma recusa ao confinamento produzido pela TV e que se soma a outras tantas que, como a adesão às redes sociais, tem como efeito a queda dos índices de audiência de que dependem as emissoras para a venda de espaços publicitários a anunciantes.
Por isso não noticiam esses novos tempos, preferindo uma interpretação economicista das suas causas enquanto vaticinam o improvável dilúvio que devolverá todos ao sofá.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Alguem viu FHC no conflito da maconha dentro da USP?

Parece que progredíamos em termos da compreensão da mecânica do crime organizado e que, finalmente, gente conhecida, com poder de influenciar a opinião pública e os políticos, assumia posições novas mostrando as conexões existentes entre os rigores punitivos das leis antidrogas, no que respeita ao consumo da maconha, e os crimes de extorsão e de colaboração com o tráfico perpretados pelo aparelho policial.
Fernando Henrique foi uma dessas figuras com notoriedade que levantaram a bola sobre o assunto. Deu entrevistas, escreveu artigos e até protagonizou um documentário em que condenava o arcaísmo das leis e a contribuição que davam aos sempre crescentes índices de criminalidade nas grandes metrópoles brasileiras.
O arejamento da discussão sobre o tratamento que deveria ser dado ao usuário da maconha criou condições para que os jovens saíssem às ruas para levantar as mesmas bandeiras, a ponto de forçar o Superior Tribunal Federal a considerar legais as manifestações de rua com esse propósito.
Esperava-se que, por tudo isso, Fernando Henrique Cardoso e os que lhe secundaram na defesa da flexibilização da lei tivessem outra postura ao primeiro caso concreto de insurgência com que se deparassem, como resultado do respaldo à causa da liberdade que pareceram representar aos jovens mais mobilizados em torno da questão, dentre os quais, é claro, os estudantes da USP.
Mas surpresa. Não apenas os arautos de uma nova postura diante da lei deixaram de intervir quando eclodiu uma crise em torno do tema no momento em que policiais detiveram jovens no campus, lócus da autonomia universitária, como permitiram uma escalada de violência que culminou com a ocupação da reitoria da universidade.
Daí em diante silêncio tumular da principal referência na temática das drogas, já que ninguém mais que FHC tinha o dever moral de pronunciar-se sobre a marcha da insensatez que teve lugar quando a PM optou por levar, por conta e risco, dois jovens à delegacia.
O desdobramento dos acontecimentos expressa a falta de seriedade dos nossos políticos ao levantar temas de interesse da sociedade. A qualquer momento poderá surgir uma vítima fatal. E a leviandade com fins eleitorais cobrará seu preço em decilitros de sangue de alguém cheio de esperança que cometeu o erro de acreditar nas raposas desdentadas da política brasileira. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O caso da propaganda de lingerie



Gostamos de enxergar narrativas por detrás de qualquer coisa. O filmete de propaganda sobre roupas íntimas estrelado por Gisele Bundechen, por exemplo, dá a impressão que uma mulher bonita e inteligente fala às demais mulheres de maneira divertida sobre coisas do dia a dia das próprias mulheres: uma artimanha para lidar com o marido, um charme lançado ao caso para resolver pequenas questões da vida conjugal ou coisas assim.
Por essa razão ter sido considerada por muitos sem sentido a restrição que fez a Secretaria dos Direitos da Mulher à abordagem da propaganda. Afinal, o que tem brincar com coisas que tudo mundo sabe que existe, já que uma calcinha é algo tão importante na vida a dois?
Isso é o que nos querem fazer crer os fabricantes da lingerie e a agência de propaganda que gastaram tubos para contratar Gisele e outro tanto para veicular a peça publicitária, o que leva a um coro de concordância das empresas de comunicação que se beneficiaram com sua veiculação.
Mas sem querer dar margem a que fiquemos no plano de ser ou não ser politicamente correto os comentários acerca do filme, caberia indagar se convém, para além da questão de gênero, fazer passar como normal uma barganha de sexo por dinheiro assim de maneira tão natural, fossem os protagonistas da cena homens ou mulheres.
Quem passe pela Praça do Trianon na avenida paulista verá meninos (isso, com genitália masculina) prostituindo-se por causa de tênis e outros objetos de consumo adquiridos em compras de shopping centers de luxo no fim de semana. Quanto à prostituição feminina essa já é conhecida, tendo muitas vezes a justificá-la filhos pequenos ou familiares pobres.
Argumenta-se que a restrição pretendida à propaganda visa interferir nas relações pessoais das pessoas e criar constrangimentos a uma parcela de mulheres que efetivamente pensam como o personagem representado pela modelo.
Mas é muito mais que isso que está em questão. O que diz o filme é que é natural seduzir para conseguir dinheiro, que não há nada de errado em oferecer sexo em troca do pagamento de uma dívida.
Quem não se lembra das consequências daquela outra propaganda que pregava a desejabilidade de levar-se vantagem em tudo e que fez a cabeça de uma ou duas gerações movidas por profundo egoísmo e oportunismo no ambiente social?
A validar-se esse tipo de mensagem como referente apenas ao plano das alegorias da vida privada, sem quaisquer preocupações com seus efeitos sobre o comportamento de jovens e a atitude de grupos, não nos deveria causar surpresa então se uma criança oferecesse sexo ao primeiro adulto que encontrasse para obter um celular da moda ou coisas do tipo.
Pensaria a criança: se mamãe faz sexo por dinheiro em casa para gastar mais no cartão de crédito pago por papai, por que não poderia eu com estes meus seios recém nascidos e esta cartela de pílulas nas mãos, fazer o mesmo com o tiozinho na esquina?
Mas deixemos essas considerações para lá. Não incomodemos ao fabricante de lingeries, à agência de propaganda e as  emissoras de televisão com coisas assim... assim tão politicamente corretas.

sábado, 8 de outubro de 2011

Estatizar a distribuição das drogas


Quem diria. A mocinha que morreu há 2 ou 3 meses atrás vitima da colisão do carro de um playbloy que trafegava de madrugada a 160 km por hora pela rua Tabapuã estava ela mesma embriagada. Dados toxicológicos recentemente divulgados confirmam níveis elevados de álcool no sangue da jovem.
Mas todos sabemos que não é só álcool que rola na madrugada paulistana e contribui para que ocoram essas tragédias. Por não terem sabor, as outras drogas químicas prestam-se a  potencializar o efeito dos drinks que a rapaziada vara a noite tomando nos bares de São Paulo.

Alguém já deu uma olhada num deles? Por exemplo naquele de nome São Bento, nas proximidades do local onde houve a colisão fatal? É um sofisticado e enorme barracão, com capacidade para mais de 1000 pessoas em que, a certa altura da noite, até o ar que se respira é alcoolizante.
Se fala muito nos pobres da cracolândia que se acabam no consumindo drogas baratas. Mas nada se fala dos jovens de classe média alta que se acabam nesses pavilhões da beberrança e da ingestão de comprimidos. Menos evidentes que os esquálidos que se juntam no centro da cidade como populares em parques de diversões, as vítimas dos speeds noturnos que se iniciam nas mesas de bares somam dezenas de mortos todos os meses, com corpos dilacerados em seus carros esportivos. Levam consigo nessas mortes estúpida inocentes que caminham nas calçadas ou outros motoristas em deslocamento.Casos que só ganham destaque na mídia quando envolvem carros bacanas.
E saber que tem gente por aí, que posa de “honoris causa” e de personalidade internacional (claro que falo de Fernando Henrique Cardoso) que julga que liberando a comercialização de drogas viveríamos num mundo melhor. Eis o absurdo a que se chega com idéias privatistas. Como se o mercado legalizado fosse mais controlável que o mercado negro.
Fosse assim o cigarro e a bebida não fariam tantas vítimas fatais. Alegam em defesa da solução a hipótese dos políticos controlarem as corporações que faturariam bilhões de dólares com a venda desses produtos alteradores da percepção. Ingenuidade de nenê de berço.
Outro dia falando com um sociólogo que estuda a questão das drogas, um professor jovem e competente que não pode ser acusado de conservadorismo, tive de curvar-me a seu lúcido e heterodoxo ponto de vista de que a única saída para as drogas, todas elas sem exceção, seria estatizar sua distribuição. Porque só o Estado não teria interesse em faturar com seu consumo. Só o Estado estaria apto a combinar o fornecimento aos dependentes, e até àqueles dispostos ao uso por lazer, com uma política ativa de tratamento e de prevenção visando a redução progressiva do seu consumo.
Também na questão das drogas, os privatistas estão redondamente enganados.
     

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A herança a causa de toda a desgraça



Passava das 17 horas quando o aposentado Francisco, vergando o peso de mais de 150 anos do nome de família mas sem um tostão no bolso, adentrou a casa onde morava com a mãe e mais duas irmãs - solteironas como ele, mas unidas entre si pelo acordo do desfrute comum da partillha de alguns bens - e questionou-as sobre a recusa a uma reunião programada em que se discutiria o testamento da mãe já com seus 90 anos de idade.

Esse ramo definhado da família há muito deixara de ostentar a pompa que outros dela ainda ostentavam já que a matriarca Ana Pacheco de Almeida Prado não casara-se, como os demais membros da família, com primos cosanguíneos; sendo ela mesma  a terceira entre nove netas do patriarca Vicente de Almeida Prado de cuja prole de 11 filhos contavam 9 mulheres.

Entre brasões e brindes no Clube Jahú para cultivar a memória dos antepassados, quase uma centana de membros do que restou da clã dos Almeida Prada até hoje reune-se a cada 2 anos para manter viva a lembrança das condecorações imperiais e das insígneas dos fundadores da República, cuja prova de maior nobreza é sobrado onde hoje está instalado o museu da República em Itú. Casa de outro de seus mais ilustres membros, o fazendeiro e cafeicultor Francisco de Almeida Prado, que ali viveu à partir da segunda metade da década de 1860.

Mas é sabido que falta de dinheiro e tradição raramente combinam. E assim foi que a cobiça e a ambição em torno de algumas poucas casas velhas e de um sítio do que restara da partilha de fazendas que chegaram a cobrir a maior parte das terras férteis entre Jahu e Itú onde os irmãos Lourenço e Vicente Almeida Prado instalaram em 1858 a fazenda Pouso Alegre, trouxeram a tragédia à pacata casa em que moravam os sexagenários Francisco, Ana Carolina e Ana Cecília. Ele ex-bancário, elas professoras aposentadas.

Tendo reservado para si a casa na rua Paissandu, modesta para o prestígio de que desfrutava a família na conservadora Jahu, e para Francisco uma faixa de terra seca nas cercanias da cidade, as duas irmãs naquele fim de tarde em que jogava Vasco e Corinthias tiveram de enfrentar a fúria de Franscisco que voltava de assistir a partida duplamente decepcionado, com o resultado do jogo e com o conluio das irmãs.

Bastaram poucos minutos de uma discussão em tom baixo e sem testemunhas para que Francisco fosse à gaveta da escrivaninha, retiresse o coldre com o revolver cabeado com madre-pérola e municiado com cinco balas, tornando, para sem mais palavra, alvejar primeiro Carolina ainda na sala de jantar e depois Cecília, que se refugiara no alpendre. Disparou em seguida contra a própria cabeça, pondo fim assim inusitadamente às frustações de vida inteira de herdeiro de uma dinastia a quem restara nada além dos proventos do INSS e um terreno de periferia.

A mãe Ana Pacheco, ao ouvir os tiros, acorreu à parte principal da sala já quando os corpos estavam inertes. No quintal mobilizou a força que os 90 anos lhe permitia e clamou pela ajuda dos vizinhos. Anoitecia, e ao primeiro policial militar que chegou ao local murmurou em voz quase inaudível: “ foi a herança, foi a maldita herança a causa de toda a desgraça...”


terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Comédia Stand-up Nazi


A cultura da instantaneidade estabeleceu como valor não ter papas na língua. É bacana, ousado e demonstração de inteligência. Entregam-se a ela um grupo significativo de quase garotos, gente que saiu a pouco da casa dos pais e que granjeia fortuna e notoriedade no que se chama agora “stand-up comedy” ou a comédia que se faz de pé, de improviso, às pressas, nas coxas por assim dizer.
Então nada melhor do que considerar algo do repertório de que se utiliza esse tipo de espetáculo para entender um pouco do que vai pelo psiquismo das classes médias brasileiras, em particular de seu segmento mais jovem, em geral constituído por gente criada e educada nos bairros mais nobres das grandes cidades do centro-sul do País.
E o que de imediato se destaca é o desapreço que compartilham pelo que não se encaixa nos estereótipos e convenções sobre padrões e costumes veiculados por uma espécie de ditadura do deboche em que a vítima é naturalmente  quem vem de fora ou quem, pertencente a grupo social distinto, não seja identificado com a moda presente.
Vai longe o tempo em que se satirizavam personagens públicos ou indivíduos de perfis cômicos que circulavam pelas ruas e que poderíamos reconhecer na diversidade divertida da urbis, com fizeram um dia os grandes comediantes brasileiros. De outro modo, ridicularizam-se agora grupos sociais inteiros, seus costumes e os hábitos de conduta de minorias que buscam afirmação nos ambientes dominados pelo pensamento de elite.
É como se o preconceito com que cresceram esses rapazes e moças fosse transposto, por força de um sentimento de plenipotência juvenil, para além dos domínios do condomínio em que a vítima era a empregada e o faxineiro e ganhasse agora o bairro inteiro, tendo por alvo todos que andam pelas ruas onde reinam impunes os filhinhos de papai.
Atitude que conta com a complacência de muitos, até não tão jovens, por tornar possível que não seja mais necessário apontar o dedo ao outro e chamá-lo de preto ou de bicha para dar vazão ao preconceito trazido consigo, bastando agora apenas imputar-lhe o riso e o escárnio  para obrigá-lo ao recolhimento e à vergonha de existir.
Evidente o sentido político de tudo isso. São atos que sancionam ou reprimem a circulação de valores e modos de conduta particulares, em favor do reforço daquilo que já está estabelecido e que atende às conveniências da hegemonia de grupos e classes sociais.
E quem movido por sentimento democrático se lhes opõe qualquer restrição é taxado de politicamente correto ou babaca. Tudo para que a vida siga o curso como sempre tem sido, com alguém exposto ao pelourinho da execração pública.
O resultado é que vez ou outra esses novos senhores do mundo, que se riem às bagas do “ridículo” alheio, cruzam na impaciência da sua intolerância os faróis a 150 km por hora ou espancam aqueles outros que vão pelo seu caminho lentos e refratários demais à uniformização que pretendem impor a condutas e valores alheios.
       

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Fique atento: seu pestinha pode matar alguém


Para muita gente parece inconcebível que uma criança cometa um assassinato, mas embora este tipo de ocorrência criminal tenha sido rara no passado, de algumas décadas para cá passou a ser algo cada vez mais comum.
O mais famoso assassino mirim de que a história tem noticia foi Jesse Pomeroy. Um garoto de 14 anos que em 1874 ficou conhecido como o diabo de Boston, por ter torturado até a morte uma criança de 4 anos e um mês depois ter morto e mutilado uma menina de 10 anos que adentrou a loja de sua mãe. Três anos antes, com 11 anos de idade havia seviciado e decepado o pênis de 7 outras crianças entre 6 e 8 anos de idade. Após um julgamento rumoroso em que foi condenado à morte, teve a pena comutada para 40 anos em cela solitária.
Dos casos recentes, o mais chocante foi o de duas amiguinhas inglesas de 10 e 11, que em 1968 tornaram-se conhecidas como “Fanny e Faggot”, por deixarem junto aos corpos por elas estripados inscrições sob esse pseudônimo. Fizeram como vitimas 3 outras crianças menores a quem arrancavam as vísceras com navalha de barbeiro. Tinham por hábito comparecer à casas das vítimas, acompanhadas de seus pais, a fim de admirarem os cadáveres. Seus nomes verdadeiros eram Mary Flora e Nora, ambas coincidentemente com o mesmo sobrenome Bell.
Surpreendente, contudo, foi o caso ocorrido em 1998 na Flórida envolvendo o adolescente Joshua Phillips que depois de haver assassinado seu vizinho de 8 anos de idade, escondeu provisoriamente seu corpo sob a cama. Após descobrir o corpo devido a fluídos corporais que escapavam pelo carpete, sua mãe em pânico foi também brutalmente assassinada com 11 golpes de bastão de baseball.
Como todo caso de violência, crianças podem cometer assassinatos em diferentes contextos e devido a diferentes motivações. Mas excluindo disparos acidentais de armas de fogo, um número apreciável de crimes cometidos por crianças obedece, segundo especialistas, a seguinte categorização,
1-  Assassinos juvenis ou mirins: crianças que crescem em ambientes violentos e que por essa razão fazem da violência seu padrão típico de resposta, seja para defenderem-se seja para obterem aquilo que desejam;
2-  Assassinos em família: crianças que acabam assassinando membros da família de modo incidental por motivos financeiros, ódio ou para atender desejos de outros membros da família.
3-  Assassinos Cults: crianças que cometem assassinatos de colegas ou crianças menores por atos de satanismo ou como rito iniciático de gangs ou “tribos” de indivíduos que comungam de um mesmo ideário de violência;
4-  Assassinos psicopatas: crianças com transtornos mentais, que sofrem de depressão, paranóia ou esquizofrenia, exatamente como adultos;
5-  Assassinos escolares: crianças que agem em geral quando se dão conta de terem cometido algum erro, sentindo-se numa situação de confinamento em que a única saída lhes parece ser a morte. Seus atos decorrem de um processo de acumulo de raiva que culmina num surto de violência (burnout). Como os casos de crianças submetidas a bullying continuado e que acabam por disparar contra seus agressores;
6-  Assassinos situacionais: crianças cujos crimes são cometidos em situações de delinquência, como o roubo;
7-  Assassinos sexuais: crianças que assassinam outras crianças motivadas por impulsos sexuais, em geral envolvendo toques de perversidade  e mutilação;
8-  Assassinos por ódio racial ou de gênero: Crianças solitárias e deprimidas que desejam que seus sofrimentos pessoais sejam experimentados por terceiros. Em geral são também suicidas e são movidos pelo desejo de levar alguém consigo no momento do suicídio.
9-  Assassinos de filhos: Crianças pré-adolescentes que matam seus filhos a fim de evitar a desaprovação de seus próprios pais ou apenas para evitar a situação de serem obrigados, enquanto crianças, a responder pela mantença e cuidados de outras crianças. Em geral as meninas alegam depressão pós-parto.
No esforço de apontar um fundamento geral por o assassínio na infância, os psicólogos estão cada vez mais inclinados a considerar a tese de que desvios de conduta na infância tendem a descambar para sociopatias ainda nos primeiros 15 anos de vida. Esses desvios de conduta podem ser agrupados em 5 tipos básicos de comportamento, antes de evoluírem para um quadro agudo de violência fatal:
·        Transgressão de regras sociais;
·        Agressão de colegas e parentes;
·        Danos à propriedade;
·        Mentiras reiteradas;
·        Pequenos furtos.
Por sua vez, as categorias de condutas desviantes podem ser categorizadas em seis diferentes classes:
·   Transtorno de conduta: quando há um problema comportamental persistente por parte da criança no sentido e violar direito de outras crianças;
·    Transtorno de desafio e oposição: quando a criança assume continuadamente uma postura de desafio e desobediência a regras estabelecidas pelos grupos sociais em que está inserida, incluindo a resistência a autoridade de adultos. Esse traço pode ser detectado por meio da expressão de comportamento temperamental por parte da criança, contra-argumentação reiterada frente a repreensão de adultos e a visível manifestação de raiva e ressentimento a eles dirigida;
·   Transtorno de comportamento disruptivo: situação em que a criança demonstra persistente ansiedade e tendências agressivas que não se enquadram nas categorias acima, mas que causa preocupação aos responsáveis.
·    Transtrno de ajustamento combinada com desordem de conduta: quando a criança apresenta um quadro de dificuldades de ajustamento social combinado com comportamentos antisociais transcorridos ate 3 meses de um fator motivante de ordem emocional;
·    Comportamento antisocial: situação em que a criança definitivamente se isola, adotando comportamento misógino que não pode ser explicado por uma desordem mental.
Muitos desses enquadramentos têm sido associados com síndrome do déficit de atenção ou mesmo de hiperatividade, transtornos hoje considerados separadamente. Um dizendo respeito à incapacidade de focar a atenção e o outro relacionado a comportamento irrequieto e compulsivo. Enquanto a hiperatividade é considerada como não representando grandes problemas no disparo de epsódios de violência, o déficit de atenção vem sendo visto como um sinal do desenvolvimento de psicopatias ou indício da presença de um tipo de afetividade em que está ausente o sentimento de empatia ou de remorso.
Estudo conduzido pela Universidade do Oregon com 81 meninos recolhidos a internatos em razão de conduta agressiva, revelou que todos apresentaram quando mais novos desordem de conduta ou comportamento antisocial. Eram também mais propensos a psicopatias em idades mais avançadas.
Em outro estudo, este de longo prazo, ficou demonstrado que personalidades psicóticas apresentaram na infância comportamento caracerizados como sendo de agressores habituais, o que os levou na vida adulta ao cometimento de atos de maior gravidade.
Em suma, parece estar bem assentada em observações a hipótese que a detecção de psicopatias infantis é a melhor forma de prevenir comportamento antisociais na adolescência, especialmente quando se trata de meninos hiperativos, impulsivos ou que sofram de déficit de atenção.
Os aspectos mais comuns associados ao desenvolvimento de psicopatias infantis são, por ordem de importância: mães submetidas a privação física durante o desenvolvimento do feto, ausência de figura paterna, mães emocionalmente instáveis, baixo peso no nascimento e complicações de parto, reações desproporcionais a insultos ou à dor física, dificuldade de fazer contato por meio do olhar com adultos, baixa tolerância a frustrações, senso de autoestima exagerado, dificuldade de intercâmbio com outras crianças ou apego excessivo a outra criança com o mesmo perfil que o seu, crueldade dirigida aos outros, cometimento de violência contra animais, falta de remorso ou de sensibilidade com relação a terceiros e falta de empatia com amiguinhos.
Como tudo isso degenera num assassinato? É o ambiente, é sua contribuição meu amigo ou minha amiga.  
                                                                                 
Fontes: American Psichiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 1994;
Bad Boys, Bad men: confronting antisocial personality disorder, Black D. Oxford Press, 1999.

domingo, 18 de setembro de 2011

O Maconheirismo de Fernando Henrique Cardoso




Há quem defenda a legalização da maconha por convicções pessoais de cunho  liberal ou por uma particular visão do problema das drogas, para a qual o tráfico e os ilícitos que cercam as restrições ao seu consumo seriam os verdadeiros males a serem combatidos.

Mas em quais dos casos se encaixaria a defesa que faz da regulamentação do comércio da maconha Fernando Henrique Cardoso, ele que nos 8 anos em que esteve na presidência da República e dispondo de uma base de apoio avassaladora no Congresso não propôs uma medida legal sequer na direção daquilo que hoje propõe?

Sendo liberal em assuntos econômicos a política sustentada pelo seu partido, o PSDB, no sentido de pressupor que o governo deva manter-se afastado da relação entre produtores e consumidores a fim de facilitar-lhes a pactuação de preços, não seria de estranhar que o ex-presidente considerasse que toda a trama de dissenções associada à produção e à distribuição do produto na forma de violência, desapareceria com o simples estabelecimento do que os jurisconsultos da agremiação chamariam de “marco regulatório do baseado”, acompanhada talvez da instituição de uma agência reguladora que fiscalizaria a atuação dos “dealers” autorizados do produto, a ANAJE - Agência Nacional do Jererê.

Dada a dificuldade de controlar os efeitos nefastos do consumo legalizado da substância no mundo da produção, com gerentes sendo impedidos de coibir um modesto "tapinha" de subordinados na virada de turnos de produção, ou, ainda na esfera da educação, com professores sendo obrigados a se adaptarem a uma audiência em sala de aula mais propensa a temas filosóficos que a tópicos de ciências exatas, não seria crível que o PSDB tão pró-mercado como é daria seu endosso às teses que vem sustentando Fernando Henrique.

De outro modo, inverossímil também que a tese se explicasse por convicções pessoais do homem FHC, devido ao fato de ser ele mesmo indivíduo de posições conservadoras em matéria de costumes, de cujo rigor fez prova durante as últimas eleições presidenciais quando respaldou posições severas em favor da família e da religião sustentadas seu ex-ministro José Serra em campanha eleitoral.

Mas se não se trata de crenças íntimas nem da construção de uma alternativa sociológica de alguém que tendo vivido a experiência de comandar uma nação esteja agora preocupado com seus rumos e os destinos das próximas gerações, por que motivo então o ex-presidente teria se engajado numa campanha nacional de liberação da maconha que envolve até um documentário só restrito até o momento `as escolas?

Pistas da resposta são oferecidas por entrevistas recentes de FHC e por textos seus divulgados pela imprensa, nos quais manifesta o entendimento de que a juventude e as novas classes médias surgidas com a ascensão social de 35 milhões de brasileiros constituem o contingente eleitoral a ser cobiçado pelos partidos políticos nesta e na próxima décadas. Por certo inteirou-se de pesquisas que apontam para a circunstância de que o jovem, na faixa dos 16 aos 25 anos de idade, é o novo formador de opinião nas famílias com renda mensal de até 6 salários mínimos.

Esse jovem ligado a internet, majoritariamente de nível universitário, é cidadão do mundo e não admite mais a tutela ideológica a que era submetida a geração de seus país e avós. Quer seu quinhão na produção social de riquezas e está disposto a confrontar o status quo para alcança-lo se preciso for, com o mesmo ímpeto com que fizeram seus pares em outras partes do mundo.

É a esse jovem que visa a conversão liberal de Fernando Henrique e o discreto apoio que lhe dá seu PSDB ao discurso dúbio de "regulamentação sim liberação não". Uma retórica para cada público, uma verdadeira política à “la carte”, que já não visa o cidadão e a sua segurança em sociedade, mas seu voto e as conveniências de tucanos.

Puro oportunismo político. Apenas isso o que representa o súbito maconheirismo de Fernando Henrique Cardoso.