quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Ricos deserdam velha classe média








Atacar o governo Dilma não tem sido tarefa fácil para os setores médios mais tradicionais da sociedade brasileira. Se por um lado sentem que não desfrutam mais de privilégios exclusivos de classe – como aeroportos vazios ou a posse distinguida de automóveis – e que os empregos melhor remunerados num futuro próximo já não lhe são antecipadamente assegurados, por outro percebem que a critica mais acerba ao governo que lhes restringiu o prestigio social  pouco repercute. E isso lhes enche de ódio.


Foi assim em lugares e épocas bastante diferentes da que vivemos no Brasil de hoje. Anton Tchekov em seu “O Jardim das Cerejeiras” mostrava na Rússia de incipiente capitalismo a fúria lancinante de uma família da aristocracia rural, sitiada em sua casa da cidade pelos representantes da nova classe de comerciantes e industriais, prontos a pagar em moeda sonante o que restara do patrimônio penhorado por dividas.

Talvez seja isso mesmo o que a manifestação solitária de 20 pessoas na Manhattan brasileira, a Avenida Paulista, pareceu demonstrar numa ordinaria sexta feira de janeiro: a reação ao sentimento de insignificância daqueles que tendo antes cimentado a relação do estado com os mais ricos percebem-se agora politicamente descartados pelo status quo.

Por que acabaram deserdados transparece de maneira eloquente no relato que faz em primeira pagina o jornal Valor Econômico, transcrito abaixo, sobre a maneira pela qual os setores capitalizados da sociedade brasileira veem conseguindo valorizar ainda mais seus ativos por meio do mais baixo custo do dinheiro vigente no mercado financeiro, desde que em 1994 foi lançado o “plano real”.

Agora já é possível aos milionários comprarem barcos, aeronaves e fazer até investimentos usando dinheiro levantado às novas taxas praticadas no mercado, ao invés de lançar mão das aplicações com melhor remuneração feitas pelos fundos de investimentos para detentores de fortunas nos “private equity”.

Juro menor atrai a classe A
Do Valor Econômico, edição de 15/01/2013
A forte redução dos juros também mudou a vida financeira dos brasileiros endinheirados. Com a taxa Selic a 7,25% ao ano, os milionários começam a achar mais vantajoso tomar crédito do que pôr a mão no bolso para adquirir bens de valor elevado - imóveis de altíssimo luxo, aviões, helicópteros etc. - e até para realizar investimentos.

O volume de crédito no segmento de private banking - que abriga clientes que têm mais de R$ 1 milhão só para aplicações - cresceu 33,2% em 2012 (até setembro, último dado disponível), mais que o dobro do crédito para pessoa física em geral. "Nossa carteira de crédito no private cresceu 50% no ano passado. Na parte imobiliária, o volume dobrou", diz Luiz Severiano Ribeiro, diretor do Itaú.

A perspectiva dos executivos de bancos ouvidos pelo Valor é de que o ritmo dessa expansão siga em dois dígitos nos próximos anos. O estoque de crédito no segmento era de R$ 12,75 bilhões em setembro, o que representa apenas 2,6% dos ativos totais sob gestão (R$ 496,2 bilhões). Nos grandes bancos globais, a relação entre ativos e crédito no segmento supera 10%. "Em outros países nos quais atuamos os empréstimos representam 15% dos ativos", afirma Maria Eugênia López, diretora do "private banking" do Santander, que viu as concessões de crédito a milionários avançarem 40%.

"Os clientes podem pagar o que quiserem à vista, mas percebem que não há motivo para desmontar uma carteira de investimentos que rende mais que o custo da dívida", afirma Gabriel Porzecanski, diretor de "private bank" do HSBC, cujo carro-chefe tem sido empréstimos para aquisição de imóveis, sobretudo nos EUA. Por essa lógica, não há motivos para se desfazer de parte de uma carteira de ações que pode render 12%, 15%, 18% ao ano para comprar um helicóptero com uma linha de crédito de 9% ao ano, por exemplo.

Das cinco linhas do private, a que mais cresceu em 2012 foi a de "empréstimos diversos", operações de curto prazo cujo volume aumentou 153% e atingiu R$ 3,79 bilhões. "O financiamento de aeronaves tem sido, junto com os imóveis, um grande atrativo no segmento", afirma Ribeiro, do Itaú.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Intelectuais impacientam-se com Dilma








Acabo de ler artigo do intelectual e professor da Universidade de São Paulo Vladimir Safatle sobre os dois anos transcorridos do governo Dilma, na primorosa edição que a revista Carta Capital dedicou à avaliação da primeira metade desse governo e à análise de tendências para o biênio que o completará.

A reflexão chamou atenção não apenas pelo tom crítico que adota com relação ao tratamento dado a questões emergidas durante o transcurso dos 2 anos iniciais do governo como também ao prenúncio da existência de forças centrípetas na sociedade que apontam para a radicalização de posições políticas.

As ideias do articulista seguem na trilha aberta pela interpretação do ex-porta-voz da presidência no Governo Lula, André Singer – que parece ter se tornado canônica entre os que pensam o atual período histórico do País – de que o fenômeno do “lulismo” seria caracterizado pela política deliberada de mediação de conflitos sociais pelo aparelho de Estado, devido à baixa capacidade das instituições políticas para fazê-lo e `as habilidades inatas de negociador possuídas pelo ex-presidente, num contexto de crescimento conjuntural da renda média de assalariados, dos lucros auferidos por empresários e dos ganhos daqueles que vivem de aplicações financeiras, banqueiros inclusive.

Não surpreende o enfoque dado por Singer ao papel assumido pelo Estado numa sociedade marcada pela desigualdade como a brasileira e que sirva de ponto de partida na análise tanto daqueles que acentuam a natureza transitória do arranjo de poder estabelecido sob o governo Lula, dependente dos ofícios do mandatário, quanto dos que pregam a radicalização dos processos políticos de sentido transformador que eclodiram sob aquele governo e que têm agora, no governo Dilma, um momento de inflexão.

As críticas insinuadas por Safatle situam-se no campo dos que se impacientam com a nota técnica que Dilma dá a seu governo e alertam para a modificação do panorama econômico que forneceu as bases para a solução não conflituosa de impasses distributivos no âmbito do Estado e com a falta de maestria política pela presidente na arbitragem de disputas políticas.

Algo mais elaborada, a análise do sociólogo ecoa uma discussão que já vem sendo travada nas redes socais sobre a conveniência de Dilma continuar a equilibrar-se nos próximos dois anos sobre a estreita passarela que separa um Estado liberal, indiferente às conquistas recentes da cidadania, e um Estado indutor do desenvolvimento que teria por finalidade a eliminação da desigualdade.
   
O crescimento dos partidos de centro apenas refletiria, de acordo com a visão esposada pelo intelectual, a ausência de rumos a seguir que tomou conta do ambiente político e a adversa formação de massa política crítica para uma virada que poderia fazer transbordar o tecnicismo percebido no governo Dilma numa virada conservadora comandada pelos setores financeiro e industrial mais oligopolizado da economia, os quais possuem seus próprios candidatos.

Estaríamos ainda segundo essa visão a uma quadra da inevitável radicalização de posições políticas e só a intervenção dos movimentos sociais poderia fazer a balança pender novamente a favor das forças comprometidas como as grandes transformações almejadas para o País.

Mas a simples existência da polêmica é prova de que Dilma está acertando nos passos da dança que lhe darão um segundo mandato, ainda que dele tenha que abrir mão, em nome da preservação da figura de Lula, caso tenha prosseguimento a estratégia abraçada pelos seus contendores no controle da mídia de tentar fazer ruir o edifício moral que abriga o “lulismo” e o arsenal de vontades políticas que lhe dá vida.

Numa sociedade diversificada e plural como é hoje a brasileira apontar desde já um caminho inequívoco como fez antes o derrubado presidente João Goulart, o das reformas de base do começo dos anos 1960, será sempre laborar no fomento do conflito, que polariza posições, divide ideologicamente aliados e impede que mudanças estruturais possam desenvolver-se à partir do casulo de uma sociedade civil cada vez atenta, educada e informada sobre aquilo que consulta seus mais legítimos interesses.

Não se menospreze o caminho do meio que levou a China a se erguer dos destroços da guerra fria. O que importa é como diziam Lula e antes dele setores da igreja católica a opção que se faça pelos mais pobres, por mais piegas que isso possa soar ao discurso de esquerda. Talvez a luta de classe não tenha acabado, mas para brandi-la como instrumento de política é preciso estar preparado para optar pela guerra, ainda que a guerra feita por outros meios como é a política.

Os que estão insatisfeitos com o que consideram amaciamento de Dilma parecem olvidar o reconhecimento que lhe empresta o povo mercê dos embates que travou e venceu no campo da política e da economia.  Promoveu um “plano real II” com a redução histórica dos juros e exerceu com rigor o poder de Estado para fazer valor o interesse popular no caso da arbitragem das tarifas de energia.

 Nos dois casos ousou fazer o que não foi possível a Lula, enfrentar os banqueiros. Isso porque os juros sempre foram o lucro tabelado dos rentistas e a energia, desde as privatizações do setor elétrico, negócio de grandes bancos. Poucos sabem que o maior acionista da paulista CESP, que não fechou acordo com o governo Federal para reduzir o preço da energia fornecida à indústria, não é o governo de São Paulo, mas sim o banco inglês HSBC. O que permite entender as recentes críticas ao governo Dilma na também inglesa revista “The Economist”.

Que o jogo político vai esquentar na segunda metade do governo Dilma, ninguém tem dúvida. Agora, os setores sociais que apelarem à insensatez nesse embate terão que se confrontar com aqueles que enxergam no governo Dilma um governo de continuidade das mudanças estruturais na economia e na nossa sociedade. Não é crível que uma ex-guerrilheira não saiba a hora de apertar o gatilho, acreditem-no os intelectuais.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Angústia na mídia


 
 
Parafraseando Lula, nunca antes na história política deste País o antipetismo entrou com tamanha desvantagem numa disputa política. Retrocedendo no tempo, há dois anos do final do primeiro mandato de Lula, a oposição depositava todas suas esperanças nos efeitos do que chamava de mensalão. Em igual momento do segundo mandato tinha a expectativa de que a ausência de rivais com o carisma de Lula tornasse um passeio seu retorno ao Planalto.

Por duas vezes a oposição pôde contar com um clima favorável de partida, que lhe garantiu na mídia certa discursividade plena de apelos de adesão e de adensamento das candidaturas colocadas em confrontação com o governo petista. Apenas algumas vozes antecipavam os possíveis percalços da empreitada em meio ao alarido da comemoração antecipada do “olha nós aí outra vez”.

Agora é diferente.  Depois de haver jogado sem sucesso todas suas fichas no julgamento da ação penal 470 só restou apreensão nas análises das vozes dominantes no rádio e televisão. Um exemplo significativo dessa agora inédita racionalidade negativa que tomou conta do discurso político hegemônico é bem expresso no texto que o Grupo Folha e as Organizações Globo fazem publicar, pela pena do jornalista de política Cristian Klein, no jornal Valor Econômico de 3 de janeiro de 2013.  Ei-lo na íntegra.

                                                                                                                                

Ventos a favor de Dilma, com ou sem pibão

Por Cristian Klein do Valor Econômico

Se o Brasil terá um pibinho ou um pibão em 2013, é difícil prever. Analistas costumam cravar nas casas decimais um crescimento da economia que pode se revelar, ao fim e ao cabo, totalmente fora do esperado. Consultorias chegavam a apontar um aumento de 4,5% em 2012 e o PIB deverá ficar abaixo de 1%. Menos instáveis têm sido as previsões políticas. O ano-novo marca a metade do mandato da presidente Dilma Rousseff e uma coisa que se pode dizer é que a petista já tem motivos para comemorar até um feliz 2014, quando, ao que tudo indica, concorrerá à reeleição.

Dilma abre o terceiro ano de governo com uma combinação de fatores econômicos e, principalmente, políticos que lhe deixam numa situação bastante favorável.

Há a ameaça constante de contaminação da crise dos Estados Unidos e da Europa, o crescimento da economia nacional é baixo, mas a situação de pleno emprego e a manutenção do poder de consumo têm pesado mais na balança. A aprovação ao governo Dilma, de 62%, supera com folga à obtida por Lula, 41%, e Fernando Henrique Cardoso, 47%, no segundo ano do primeiro mandato dos dois ex-presidentes.

PSD e PSB grudam no governo ao se armar tabuleiro para 2014

Muito pode acontecer até 2014, a eleição parece longe, mas o tempo político exige a antecipação dos movimentos em pelo menos um ano, devido ao prazo de filiação partidária. A entrada ou não de Marina Silva no páreo, por exemplo, deve ser definida neste mês. Caso queira fundar um novo partido, a ex-senadora que surpreendeu em 2010, com 20% dos votos, precisa agir rápido para mobilizar seu grupo/movimento, reunir quase meio milhão de assinaturas e obter o registro até outubro.

A participação de Marina é uma incógnita que pode ter algum efeito sobre o resultado da disputa, mas não deve ser nem sub nem superestimada. Tende forçar, no máximo, como em 2010, à realização de um segundo turno no qual Dilma permanece favorita.

Pelo menos duas razões alimentam o favoritismo. Em primeiro lugar, a presidente encontrará uma oposição mais enfraquecida. O PSDB, principal legenda adversária, tem o desafio de reunir suas hostes em torno do senador Aécio Neves. O ex-governador de Minas encontra dificuldade de empolgar o QG do partido, desde sempre concentrado em São Paulo. Os tucanos têm ainda problemas crônicos no terceiro maior colégio eleitoral do país, o Rio de Janeiro, a ponto de cogitar saídas heterodoxas para criar um palanque no Estado. Transferir o título do ex-governador de São Paulo José Serra para o Rio, lançar o apresentador de TV Luciano Huck ou economistas da era FHC sem carreira política dão a medida da escassez de alternativas do PSDB.

O racha no DEM, segunda maior sigla de oposição, não só dividiu os adversários, como trouxe um naco relevante deles para o campo governista. Liderada pelo agora ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, sob a bandeira do recém-criado PSD, uma nova tropa aderiu à já ampla coalizão que sustenta a presidente.

De tão grande, esta coalizão passou todo o ano de 2012 sob o risco de esgarçamento. Nos dois último meses, porém, Dilma recebeu indicações de que seu exército marchará unido. É a segunda razão para o favoritismo.

O emergente governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), deixou de lado seu discurso ambíguo, afirmou que não será candidato em 2014 e apoiará a reeleição da presidente. É uma declaração que deixa o cenário ainda mais claro e favorável à Dilma, uma vez que também se especulava sobre a possibilidade de Campos romper com o governo federal e unir-se a Aécio Neves. Não o fará. Seja pela expectativa de ser apoiado ou se ver livre de compromissos com o PT, em 2018, seja porque atualmente enfrenta resistências dentro do próprio partido, a começar pelos irmãos Ciro e Cid Gomes - ex e atual governador do Ceará - que hipotecam apoio a Dilma.

Ao mesmo tempo, a presidente amarra o PSD. Apesar de criado para fazer a transposição de oposicionistas em direção à base do governo, nada garantia que Kassab e sua turma dessem meia volta volver. Mas as tratativas para a entrada do partido no ministério grudam os pessedistas à administração do PT justamente no momento em que se arma o tabuleiro para 2014. Até a senadora ruralista Kátia Abreu (TO), única com condições de desafiar Kassab no PSD e crítica ferrenha durante o governo Lula, está na órbita de Dilma Rousseff.

A adesão do PSD tornou-se uma necessidade ainda maior para a sobrevivência da liderança partidária do ex-prefeito depois da derrota nas eleições municipais, quando sua administração foi reprovada e seu candidato, Serra, saiu derrotado.

As eleições locais, embora não sejam preditores para a disputa presidencial, deram a medida da correlação de forças. E as siglas de oposição, no geral, minguaram. O PSDB perdeu quase cem prefeituras e o DEM, mais de 200. Legendas aliadas ao governo federal, mas ideologicamente distantes do PT, como PR, PP e PTB, deixaram juntas o poder em mais de 300 municípios. Ao todo, as cinco siglas perderam 631 cidades, número semelhante às 684 ganhas a mais por PT e PSB somadas às conquistadas pelo novato PSD.

Isso mostra que o impacto do julgamento do mensalão nos resultados foi não apenas nulo, como não evitou a vitória mais cobiçada pelo PT, que elegeu Fernando Haddad, em São Paulo. Para piorar, a pressão da opinião pública - ou pelo menos a atenção - nos próximos meses foi empurrada para o lado da oposição, que se verá às voltas com o julgamento do mensalão mineiro, do PSDB, como prometeu o STF.

Por fim, o vento sopra a favor da reeleição quando entram na conta atores da sociedade civil como os sindicatos e o empresariado. Os primeiros não se sentem tão representados quanto na era Lula, mas suas preferências estão longe da agenda da oposição. Já os empresários, sobretudo os da indústria, tiveram suas demandas atendidas pelo Executivo, especialmente na cruzada pela redução da tarifa de energia elétrica. A luta de Dilma em prol da energia barata foi saudada em generosos anúncios publicitários pelas federações das indústrias de São Paulo (Fiesp) e do Rio (Firjan). É mais um sinal de que a presidente ruma para a sucessão tão ou mais forte que seus antecessores - mesmo que não venha o "pibão grandão" que Dilma pediu no Natal.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O gurú André Lara Resende e a profecia tucana


Acostumamo-nos há muito com a circulação de teses que prognosticam um futuro desastroso para a humanidade e as admitimos até no plano das ciências naturais e das ciências humanas. Parecem razoáveis pelo fato de soarem coerentes com a lógica dos sistemas com que aprendemos ordenar o funcionamento do mundo. Pois se estes são regidos pela funcionalidade autônoma e ao mesmo tempo integrada de seus componentes, nada impediria que disfunções internas levassem à perda de organicidade e mais adiante à sua desorganização completa.

Desde quando o mito restou superado como meio de pôr ordem no caos do mundo é que o terror de que algo dê sistemicamente errado surge no horizonte das possibilidades para tolher certa disposição de ânimo inata ao ser humano de prosseguir, seja reordenando o nexo de coerências com que guia sua compreensão do real seja pura e simplesmente agindo sob o impulso do pragmatismo para pôr em prática novas realidades.

Esse terror quase místico de que algo dê errado assombra o homem desde os tempos das cavernas e alojou-se definitivamente no plano da razão como último refúgio da incerteza. Desse sentimento perverso e difuso nutrem-se não apenas, de boa ou má fé, as religiões como também os que têm o status derivado do fato de pensarem para os empoderados uma ordem social que continue a ser-lhes favorável.

A reflexão vem à mente em função do mais recente artigo do economista André Lara Rezende no jornal Valor Econômico, em que elabora uma espécie de teoria do fim do mundo para a economia mundial em que as disparidades seriam congeladas porque os países mais ricos, tendo ingressado numa fase de amadurecimento tecnológico pleno,  tornaram quimérico o chamado “steady growth” (crescimento sustentável) e absolutamente inócuos os melhores esforços dos governos para promover o crescimento econômico e a eliminação das disparidades sociais.

O olhar messiânico do artigo de Lara Resende estabelece-se desde o título (Além da Conjuntura) e é pacientemente tecido em mais de uma dezena de laudas nas quais abundam citações ao falecido economista John Maynard Keynes, que inspirou nos últimos anos o ativismo de governos de países em desenvolvimento nos esforços para debelarem a perda de dinamismo deste que mais parece um novo ciclo de estagnação das grandes economias ocidentais nos moldes da que se verificou no início do século passado.

Lara Resende parece vivamente impressionado – e é dele que extrai o grosso do seu arrazoado – com o livro do economista americano Robert Gordon cujo título (O Crescimento Já Era?, em tradução livre) vai na mesma direção do seu. Basicamente o americano repete o dito caipira nativo que diz que aonde a vaca vai o boi vai atrás, remodelando a conhecida teoria da dependência capitalista (da periferia em relação ao centro) que fez antes o sucesso de outro gurú de época, Fernado Henrique Cardoso. Apenas que agora em sentido terminativo e fatalista.

Isso porque Gordon espreme os escritos de Keynes para fundamentar sua tese capital de que o grande motor do sistema capitalista, o investimento, teria fundido em consequência da chegada dos países ricos ao que ele chama de fronteira tecnológica do crescimento, um estágio à partir da qual os investimentos minguam e o crescimento perde sustentabilidade. Por tal entendimento, as economias periféricas ainda se moveriam para diminuir a distância que as separa das desenvolvidas mas só até o ponto em que ainda perdurassem os benefícios das transformações sistêmicas motivadas pela implantação de infraestruturas e dos motores a explosão, já que as mudanças dependentes da informática mostraram-se, segundo o autor, de baixa produtividade e de difusão restrita.

Não se sabe se é do resenhado ou do próprio Lara Resende a tentativa de inocentar Keynes do “desvio” de haver postulado a primazia dos estímulos ao crescimento na economia, com o argumento de que o pensador inglês nunca havia considerado o crescimento um fenômeno de natureza continuada mas sim um processo com limites claros, no limiar dos quais o homem viveria uma era de riqueza traduzida não pelo acúmulo indefinido bens porém pela diminuição do tempo dedicado ao trabalho em favor do lazer e da cultura.

No mesmo diapasão alegam, resenhista e resenhado, que parte da teoria de Keynes (sobre a melhor forma de lidar com a crise econômica mundial da década de 1920) teria sido tomada pelo todo, passando a ser vista erroneamente como o cerne da sua teoria, quando, na verdade pretendia o célebre economista propor aos jovens fascinados com as promessas do socialismo, cenários alternativos de um capitalismo pós-crescimento em que o trabalho daria lugar nas economias avançadas ao bem estar geral e ao cultivo do espírito.

Desse mal  entendido afirma Lara Resende é que adviria toda a ladainha em favor do crescimento a qualquer custo das economias periféricas e a imersão de governos numa espécie de visão de curto prazo que não teria em conta o o quadro mais amplo da estagnação definitiva do capitalismo, na qual pouco restaria  a fazer senão administrar diferenças entre ricos e pobres, senão pelos motivos estruturais que aponta ao menos pela impossibilidade conceitual inerente à noção relativista de pobreza, dado que sempre haverá alguém que se julgue mais pobre que outro.

Como que querendo fugir à previsível pecha de “catastrofista” que o artigo poderia render-lhe, Lara Resende desvia-se da aplicação economicista que dá ao termo “crescimento sustentável”, de estagnação econômica de longo prazo, para fazer recair o epíteto de “catastrofista” sobre os ambientalistas, os quais, segundo o autor, possuem uma visão fundamentalista da inevitabilidade das hecatombes naturais, de per si nem um pouco evitáveis por meio de estratégias de crescimento baseadas na ideia de crescimento sustentável que que buscam compatibilizar crescimento e meio ambiente.

Ah sim, Lara Resende afasta-se dos neoclássicos fazendo-lhes o que a princípio parece ser uma crítica, a de não verem os limites estabelecidos pela fronteira tecnológica à contínua expansão dos mercados, uma espécie de marca invisível a que teria chegado a humanidade impedindo-a de prosseguir rumo à persistente elevação dos níveis de produção e à mais equitativa distribuição das riquezas até o ponto de apagamento  das mais severas desigualdades.

Afasta-se, no entanto, para reencontrá-los no giro seguinte porque nada vê de errado com os movimentos dos mercados para acomodarem-se a oscilações de curto prazo na economia. O mal está nas ingerências  praticadas pelos governos na tentativa de substituí-los na alocação de recursos e repartição de bens, desorganizando-os ainda mais e amplificando assimetrias de per si irreversíveis.

O que fica em definitivo de toda a elocubração de Lara Resende é que esse muito barulho por nada a que se dedicam países em desenvolvimento, como o brasileiro, faz sentido apenas na superfície e acena no mais longo prazo com algo que não podem em definitivo entregar, a ascensão dos mais pobres e o desenvolvimento nacional.

Vale dizer, as políticas públicas que buscam lidar com a crise internacional – que no entendimento do teorista é a última do capitalismo antes do congelamento definitivo das desigualdades entre nações e indivíduos – apenas desorganizam o Estado, ampliam os conflitos redistributivos e, por conseguinte, a balbúrdia na política.

A ninguém escapa que André Lara Resende tem sido o pensador par excellence do tucanato, que se posta todo engalanado para ouvir o que tem a dizer o ex-menino prodígio do plano real. Pois se desta vez abraçarem isso que mais parece um constructo teórico da impotência a que chegou certo grupo de intelectuais alinhados ao capital financeiro, o PSDB e seus satélites estarão abrindo mão de postular o poder. Porque nada mais terão a oferecer à sociedade além de um deiberado conformismo diante da desigualdade, que cinicamente propõem gerenciar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Contragolpe de Lula e Dilma






A cada veneno seu antídoto. Pois não quer a mídia que funcionários do Estado escrevam o último capítulo da biografia de Lula, como afirmou o próprio ex-presidente em seminário recente do partido socialista em Paris?

Que encarem então os arquitetos da desconstrução de sua imagem, no roteiro que simetricamente leva à construção da candidatura de oposição de Aécio Neves, a possibilidade de retorno do líder sindical novamente ao cargo máximo do País, desta vez com uma agenda reformadora cujo principal alvo será a democratização da mídia, nos termos do que foi feito no berço do liberalismo, o Reino Unido.

Não foi de outra coisa que trataram Lula e Dilma em demorado encontro no Hotel Bristol a poucos passos do Eliseu. O que os dois têm acertado entre si para 2014 é um revezamento de posições, de acordo com as circunstâncias de momento.

O jogo de desarrumação da base de apoio de Dilma, posto em movimento pela mídia com o estímulo às pretensões de Eduardo Campos e quiçá até a retirada de apoio do PMDB em surpreendente – porém não inusitada – candidatura própria, poderá sofrer um revés com a simples iniciativa de lançamento da candidatura do operário-presidente. 

Com popularidade e aprovação superior ao candidato à recondução ao Palácio dos Bandeirantes, Geraldo Alckmin, acossado pela crise da segurança pública no estado mais importante da Federação, Dilma pode ser uma excelente aposta para acabar com o domínio de um quarto de século do PSDB em São Paulo.

A estimativa de tempo de sobrevida no poder pelo PT colabora para a tomada da pragmática decisão. Com o apoio de Dilma operar-se-ia uma espécie de transferência de votos às avessas, desta vez da criatura para o criador no Sudeste e Sul do País, e ter-se ia uma opção viável para 2018 quando Lula já tivesse escrito ao modo que lhe é de direito o último capítulo de sua biografia.

Como bem alertou o jornalista Altamiro Borges, a ideia causa urticárias no braço midiático da oposição ao governo. Talvez não tenha sido por outra razão que a editora de política do principal noticioso da TV a cabo da Globo, Renata Lo Prete, teve sua fala cortada bem quando iniciava um veemente ataque a Lula na edição de 13 de dezembro do telejornal.

A ofensiva política do ex e da atual presidente em Paris também coincide com informações sobre o retorno do secretário Franklin Martins ao governo, responsável pela proposta de lei que aguarda tramitação no Congresso regulamentando a concentração na mídia. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O gigante, o anão e os festivos


Um fenômeno curioso mostrou-se com a posse de Joaquim Barbosa na presidência do STF: o ressurgimento de certa esquerda festiva, sempre disposta a trocar as grandes conquistas democráticas do País pela efervecência de uma emoção midiática, como a que cercou a posse do ministro.

Para ilustrar a crispação das emoções, é o bastante sublinhar as muitas referências que se fêz nas redes sociais sobre a presença da mãe do ministro, negra como ele (sim, porque poderia ser branca como a de Obama), na ala VIP do plenário e ao fato, tão óbvio quanto a cor do empossado, de ser ele o primeiro negro a presidir o Judiciário.

Muitos viram o simbolismo de uma conquista popular histórica onde mais não havia que a preparada encenação por grupos mais reacionários da nossa sociedade de ato político destinado a conferir legitimidade às condenações espúrias, porque sem base no direito constitucional da ampla defesa e da demostração probatória, com a finalidade de marcar o governo Lula com o estigma da corrupção.

Não resistiram à emoção programada pela emissora de emprestar um ar de “happening” ao que deveria ser uma simples cerimônia oficial com o propósito de obliterar o sem número de violências jurídicas cometidas pelo empossado contra personagens chaves da luta das esquerdas brasileiras para romper os mecanismos de reprodução das desigualdades sociais no País.

Para os que gostam de ostentar Che nas camisetas antes de experimentar-lhe no peito a  indignação, as imagens de TV tiveram o condão de equiparar o juiz arbitrário, arrogante e personalista  a Lula, ao primeiro operário a chegar à presidência de um país capitalista.

Esqueceram-se-se de considerar que Lula foi eleito pelo voto popular depois de haver enfrentado e, por fim, derrotado, a mesma emissora de TV que agora se mancomuna com o festejado juiz. Que sua chegada à Presidência foi o corolário do combate que deu ao regime autoritário, enquanto a do Ministro ao Supremo não passou de tentativa frustrada de acelerar avanços sociais em marcha no País, com a indicação de um alto magistrado pertencente a setores historicamente sem voz na sociedade brasileira.

Lula, Dirceu e Genoino são gigantes da história política recente do Brasil. Joaquim Barbosa não é senão um anão, que vem se prestando à execução de um sórdido plano de natureza personalista destinado a transferir para o interior das Instituições de Estado o enfrentamento político que uma oposição impotente tem se revelado incapaz de levar adiante por meio de eleições democráticas.

Vitoriosa nas urnas, a despeito da urdidura que entrelaçou nas últimas eleições ambições pessoais e os interesses inconfessáveis de um “establishment” golpista, é chegada a hora da esquerda consequente mobilizar as forças vivas da sociedade para refutar a tentativa de banimento da vida pública daqueles que ergueram essa que é a pilastra central em que se apóia a democracia no Brasil, o partidos dos trabalhadores.



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tião Gavião não deve vencer, sugere Valor Econômico






Nos  anos 1970 o mais popular vilão da TV era também o mais cômico. Seu nome, Tião Gavião. E o hilariante de suas desventuras era justamente o  recorrente fracasso dos ardis em que se empenhava para prejudicar sua contendora em corridas, a simpática Penélope Charmosa.

Se o paralelo entre a trama do desenho animado e a disputa que travam agora  Fernando Haddad e José Serra pela prefeitura de São Paulo soa algo falho no que toca ao candidato petista, nem tanto ajustado ao papel de jovem charmoso, cai a perfeição em Serra não apenas pela aparência velhaca do candidato mas também pela rede de intrigas a que até agora se dedicou a fim impedir um desfecho favorável ao seu adversário no pleito.

No entanto, como na série infantil, também nesse caso o embuste não deverá soprepor-se ao discernimento. Matéria do jornal Valor Econômico faz um retrospecto das eleições travadas na cidade desde que foi instituído o pleito em dois turnos, em 1992, para concluir que além de improvável a vitória do candidato tucano é também mais difícil, se considerado o curto tempo da campanha. Confira o texto na íntegra.

Em SP, quem começa na frente costuma ganhar

Por Cristiane Agostine, do Valor Econômico em 15/10/2012
Os candidatos à Prefeitura de São Paulo que começaram o segundo turno à frente nas pesquisas de intenção de voto venceram nas urnas. É o que mostra a comparação entre os levantamentos do instituto Datafolha com os resultados das eleições de 1992, 1996, 2000, 2004 e 2008. Nas cinco disputas, a propaganda obrigatória no rádio e na televisão não foi suficiente para mudar o cenário indicado pelas pesquisas. Neste ano, a dificuldade para reverter o quadro poderá ser maior, pois o horário político terá menos programas do que nas eleições passadas.
De acordo com pesquisa feita entre 9 e 10 de outubro, Fernando Haddad (PT) registrou 47% das intenções de voto e José Serra (PSDB), 37%. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Na contagem dos votos válidos, que exclui os votos em branco e os nulos, Haddad tem 56% e Serra, 44%.
O histórico das eleições indica o desafio a ser enfrentado por Serra na reta final da campanha. Em 1992, na primeira eleição com segundo turno na cidade, Paulo Maluf (PPB, atual PP) começou a segunda rodada com uma vantagem de doze pontos percentuais em relação a Eduardo Suplicy (PT). O horário eleitoral durou vinte dias, de 24 de outubro a 12 de novembro, e o cenário das pesquisas foi semelhante nas urnas, com a vitória de Maluf. Em 1996, a duração da propaganda política diminuiu para quinze dias, mas a história se repetiu na disputa entre Celso Pitta (PPB) e Luiza Erundina: líder da pesquisa do segundo turno, Pitta venceu Erundina.
Na eleição seguinte, em 2000, Marta Suplicy (PT) iniciou o segundo turno com 69% das intenções dos votos válidos contra 31% de Maluf. Nos quinze programas no rádio e na TV, Maluf reduziu a diferença, mas foi derrotado.

Marta tentou a reeleição em 2004 contra José Serra, mas perdeu. Nos quinze dias do horário político, Serra manteve-se à frente da petista. Em 2008, a propaganda política teve duração menor, de treze programas, mas essa redução pouco influenciou o que as pesquisas indicavam: o prefeito Gilberto Kassab (DEM) começou o segundo turno na liderança e ganhou com uma votação parecida com o que o Datafolha registrou (ver o gráfico). As pesquisas, no entanto, sempre podem reservar surpresas.
Neste ano, o Datafolha indicou o candidato do PRB, Celso Russomanno, na liderança do primeiro turno até quatro dias antes da eleição e mostrava Russomanno e Serra no segundo turno. Só na véspera da disputa o instituto mostrou um empate triplo: Serra com 28%, Russomanno com 27% e Haddad com 24% das intenções dos votos válidos, em pesquisa com margem de erro de dois pontos percentuais. Nas urnas, o tucano teve 30,75% dos votos válidos, seguido pelo petista, com 28,98%. O candidato do PRB, com 21,6%, ficou fora da disputa.
No segundo turno desta eleição, para tentar reverter a desvantagem nas pesquisas, Serra prepara uma série de ataques a Haddad. No horário eleitoral gratuito, que voltará a ser veiculado hoje e terá duração de doze dias, o tucano vai explorar o julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal e a condenação de petistas históricos, como José Dirceu e José Genoino. Além disso, mostrará as falhas na realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) quando o petista era ministro da Pasta. A campanha tucana ainda estuda como explorar o "kit gay" na televisão. Já Haddad deve mostrar os problemas da gestão de Gilberto Kassab, sucessor e aliado de Serra, além do mensalão mineiro.
A propaganda será exibida até dia 26. Serra e Haddad terão direito a 20 minutos todos os dias, divididos em dois períodos.