terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A lição do estupro ao vivo no BBB



Comezinho se tratado em seu próprio âmbito, mas de grande significado se abordado em todo o seu contexto. Assim é o caso de relação sexual não consentida ocorrida nos quadros do Big Brother Brasil, programa que a rede globo de televisão mantém há alguns anos como uma espécie de versão nacional de um tipo de espetáculo de curiosidades sociais veiculado com algumas adaptações em diferentes partes do mundo.
O extravasamento do incidente para as mídias sociais e logo para os programas de TV diz muito sobre as práticas e valores de dois universos que não necessariamente espelham um ao outro: o da hiper realidade televisiva e o dos costumes.
Naquele, quanto mais a fantasia substitui a realidade maior o efeito entretenimento pelo qual pagam anunciantes e assinantes. Mas as fantasias, que são sempre individualizadas e atendem a padrões comportamentais de classe, não constituem o tipo de coisa que produza consenso entre grupos de pessoas com influências culturais diversas, composições familiares diferentes e também distintas possibilidades de acesso àquilo que possam abraçar como valor por um instante.
Os jovens, por exemplo, que queimaram Londres por três noites, rebelaram-se contra um mundo de fascínios a que não tinham acesso porque eram consumidores imperfeitos, como são fantasistas imperfeitos aqueles que suspendem a própria existência para freqüentar imaginariamente a casa dos “big brothers”.
O choque entre os dois mundos, o da realidade virtual e o da realidade real ocorre por choque moral. Quando, de repente, os valores do grupo a que pertence o indivíduo que assiste ao big brother entram em conflito com os compartilhados e expostos pelas pessoas que participam do show televisivo. Aí se dão conta os telespectadores das crianças que estão na sala, e que no dia seguinte irão a escola considerando natural estuprar um colega sob o edredon.
Haverá vítimas, portanto, do lado de cá do sofá: da discriminação, do utilitarismo e do abuso apreendido por homens e mulheres comuns à partir de uma pequena amostra do universo social representado pelos que são convocados a participar do programa de TV.
Cabe ao estado mediar esse conflito de interesses de empresários que querem atrair anunciantes e destes que querem vender seus produtos com aqueles em que o conjunto de vivências possíveis não se circunscreve ao ciclo da temporada do programa de televisão.
Nunca o controle social da mídia pareceu tão urgente quanto neste momento, em que o descontrole do mercado produz estupros em rede nacional durante o horário do jantar.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O estranho ruído que vem do céu


A partir de 2011 um estranho fenômeno vem ocorrendo em diferentes partes do mundo, aterrorizando populações locais.
                     
Sons de origem difusa que se parecem com rangidos reverberados de engrenagens metálicas, subitamente ecoam por minutos ou até mesmo por horas à fio, como na Indonésia em agosto de 2011 (veja o vídeo abaixo).

No Brasil a ocorrência se verificou em Curitiba em novembro passado, não sendo objeto de notícia nos grandes meios de comunicação. A discussão sobre o tema já é intensa na internet e só agora começa merecer a atenção de especialistas em radioastronomia, geofísica e cosmologia dos principais centros de pesquisa do mundo.

A incidência de casos tem se intensificado desde o fim do ano e as causas aventadas por astrofísicos do Instituto Max Planck em Garching, Munique, apontam para fricções magnéticas de grande envergadura relacionadas com oscilações no continuum espaço-tempo em razão de deslocamentos de massa escura que compõe a maior parte do universo não visível.

Há preocupações de que as alterações gravitacionais remotamente associadas a turbulências interestelares possam evoluir para qualquer perturbação orbital capaz de interferir, em medidas mínimas, com o eixo de inclinação da terra.

Nesse caso, haveria uma aceleração de processos naturais já andamento como o degelo de geleiras e erupções vulcânicas disseminadas pelo globo, em particular no chamado cinturão de fogo que percorre as linhas de configuração das placas tectônicas sobre as quais se assentam mares e continentes.

Embora o caso não deva causar pânico, episódios cataclísmicos com força de alterar as condições de sobrevivência do homem na terra foram recorrentes ao longo as eras geológicas, em ciclos de longa ou mais curta duração. Como o de que agora nos aproximamos ao completar 10.000 anos do último período glacial.

A deduzir-se pelo padrão de comportamento pelos quais se pautam as autoridades internacionais e nacionais quanto a eventos que possam causar comoção pública, a tendência é de que haja ocultamento de informações e pouca ou nenhuma divulgação dos fatos até que se reuna algum consenso entre os grandes centros científicos do mundo.

No entanto, não parece correto que parte da população mundial careça de informações sobre os fenômenos enquanto outra parte, a partir da ciência dos fatos, possa acompanhar a discussão dos acontecimentos e de algum modo preparar-se para seus desdobramentos, quaisquer que sejam as consequências para o futuro e segurança da humanidade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Teste de maturidade para o PT


Engana-se quem considera que, dado a desorganização das oposições, as eleições de 2012 já estariam ganhas para o PT na maior capital do país.
Um cenário favorável é bem diferente de uma vitória assegurada, e os desentendimentos na base do governo no primeiro ano do governo Dilma tem tudo para transformar-se em um golpe branco no momento decisivo das composições eleitorais.
De uma hora para outra o improvável pode tornar-se possível e daí virar fato político. Como reagiriam aqueles que consideram que é possível voar sozinho em céu de brigadeiro se de uma hora para outra o PSDB retirar sua candidatura em favor de uma aliança, digamos, com o partido socialista de Eduardo Campos na capital paulista, que em plano estadual já integra o governo Alkimin?
Ou se todas as forças convergirem silenciosamente para Chalita, o candidato peemedebista, e a força combinada das máquinas administrativas do estado e do município produzir uma espécie de isolamento de Haddad? Tudo é possível numa eleição por natureza polarizada, mas que o enfraquecimento de um dos pólos, o tucano, associado ao interesse de aliados em debilitar o pólo mais forte é capaz de produzir “alkimias” inesperadas.
Na base de um fenômeno desfavorável desse tipo para o PT estaria o isolamento do petismo dos grupos mais conservadores da nossa sociedade. A mesma situação que levou Marta Suplicy à derrota quando considerou desnecessária a aliança com o PMDB ao enfrentar Serra em 2004.
As análises que fazem os analistas políticos conservadores, quando dizem que o teto do PT em qualquer disputa eleitoral na cidade de São Paulo é de mais ou menos 33%, deve-se ao fato de que é essa a cifra que corresponde à aliança capaz de ser estabelecida naturalmente entre os segmentos mais polarizados em torno do partido e os setores de classe média baixa, frente os de classe média tradicional que têm se mantido resistente a aproximações nos pleitos da capital.
Superar essa margem passa pela composição com os setores de classe média tradicional, que comumente vota com os partidos conservadores. Está certo Lula da Silva quando, com seu faro político, diz que é preciso reeditar no berço do PT a mesma aliança que o levou ao Planalto com  José Alencar bem como a Dilma com Michel Temer.
A oportunidade para escapar ao risco de isolamento está à mão com a eventual composição com Kassab, que ofereceria Henrique Meirelles de vice numa composição com Fernando Haddad.
Seria prudente neutralizar pelo menos uma das máquinas que se colocarão contra a candidatura petista na hipótese de uma não aliança, a municipal, e cooptar amplos setores das camadas sociais que torcem e torcerão sempre o nariz para o que consideram ser o radicalismo inato do partido vermelho.
A chance de vencer esta aí. Cabe saber se haverá maturidade para tanto.

Outra obra arruinada pela corrupção



Irônico que o projeto de edifício em construção pela Secretaria da Cultura, cujo pavimento superior veio abaixo na tarde do dia 12 de janeiro, seja assinado por Ciro Pirondi.

Ele é defensor de uma arquitetura inspirada em “gentilezas urbanas”, como calçadas largas e planas, praças repletas de bancos e destituídas de grades que impeçam o espaço urbano de abrir-se ao desfrute democrático da população nas atividades cotidianas.
A ironia decorre do fato de que o contratante do projeto que abrigaria instalações onde se verificou o desmoronamento, Andrea Matarazzo, ser o mesmo expoente tucano que na condição de secretário das subprefeituras de São Paulo disseminou pela cidade grades, ponteiras de aço e obstáculos que visaram impedir o acesso de cidadãos pobres a equipamentos sociais de logradouros públicos.
Não se deve incriminar, contudo, o arquiteto pelo desabamento que matou um operário e feriu outros onze. O problema não estava no projeto, mas no método adotado pela Secretaria de Estado da Cultura com o propósito de dar maior margem de manobra aos seus agentes nos arranjos destinados à contratação e depois construção dos edifícios que comporiam o conjunto de nove complexos denominados “fábricas de cultura”.
Em busca de uma marca que pudesse respaldar junto à população carente sua pretensão de candidatar-se a prefeito de São Paulo pelo PSDB nas eleições deste ano – e que ao mesmo tempo funcionasse como contraponto aos CEUs (centros educacionais unificados) implantados na gestão da ex-prefeita Marta Suplicy – o secretário Matarazzo tinha pressa.  
Por essa razão determinou ao engenheiro- chefe de sua assessoria técnica de obras e projetos Ângelo Mellios, que o acompanha desde que era presidente da privatizada estatal de energia CESP, contratar um projeto de obras versátil o bastante para que pudesse ser adaptado aos diferentes terrenos escolhidos para sediar aquelas instalações na capital.
Assim, o projeto arquitetônico de Pirondi - concebido  em duas versões, linear de dois blocos e vertical de nove andares - acabou  se transformando numa espécie de solução “prêt-a-porter” para atender toda qualquer conveniência de modificação de métodos construtivos arguida pelas construtoras em decorrência de dificuldades das obra frente fatores de ordem locacional.
As adaptações nada ingênuas sofridas pelo projeto possibilitaram, por sua vez, o barateamento da construção em relação aos custos efetivamente lançados em planilha, cujas folgas podessem depois reverter em contribuições aos caixas de campanha do candidato e em comissões aos responsáveis pela fiscalização de obras.
A fim de conferir ainda maior poder discricionário aos representantes da Secretaria da Cultura no endosso às alterações de métodos e soluções de engenharia, o termo de referência que orientou a contratação das obras foi elaborado de modo a não fazer qualquerr alusão a desvios em relação ao projeto original nem às competências de fiscalização que incumbiriam ao Órgão contratante, deixando às construtoras poder soberano nas decisões, desde que se responsabilizassem por eventuais prejuízos causados ao estado.
Tudo corria solto no plano formal para que no no informal fosse possível transformar em dinheiro vivo as vigas, o cimento e o aço das lages de concreto que deveriam hoje dar segurança aos operários que trabalham nas obras e amanhã às crianças que freqüentarão esses edifícios públicos, arruinados desde o início pela ambição de gente de nome pomposo que nasceu sem nobreza alguma.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Para Miriam Leitão ver: contas do Brasil são as melhores em 5 anos



Saíram os números da conta corrente brasileira para 2012. E os resultados apurados foram os maiores registrados nos últimos 5 anos: 65 bilhões de reais.
O desempenho é importante porque demonstra uma vitalidade sem precedentes da economia brasileira, que surfa as ondas da crise que varre a Europa. Não é mais marolinha, mas tsunami de verdade que a gestão competente da política de comércio vem sabendo aproveitar.
As consequência disso, além de um fechamento tranqüilo das contas externas, costuma ser um influxo de dólares que não apenas irriga o crédito de que tanto precisamos para manter o consumo em alta, como também um saudável reforço do escudo contra o agravamento da crise pelo efeito demonstração que os resultados colocam em evidência.
Há efeitos menos desejados. A apreciação do real, que tem o efeito de desestimular as exportações das indústrias. Porém, nas circunstâncias de crise que atravessamos a linha de resistência à maré recessiva está no mercado interno, cujo dinamismo estimulado por importações mais baratas pode sustentar um crescimento não inflacionário da economia.
Desatarão, por certo, os catastrofistas a cantilena da desindustrialização. Tipo de fantasma que ninguém até agora viu, já que as indústrias mais expostas à concorrência, como têxteis e alimentos, tem buscado competitividade deslocando-se para regiões onde a mão de obra é mais barata no país, como o nordeste, e investido pesadamente em tecnologia. Enquanto, de modo geral, a indústria como um todo ganha por meio da oferta mais abundante de meios de produção.
Não há que se esquecer que a apreciação de 12% do real frente o dólar foi uma das maiores do mundo durante a borrasca da crise. A eventual redução do valor da moeda nacional agora, motivada por um ingresso maior de dólares, deverá trazê-la para os níveis médios das moedas de países em desenvolvimento com que o Brasil compete, coisa de 5%.
Tudo posto, Miriam Leitão continuará desorientada perguntando a seu gurú Armínio Fraga o que dizer aos telespectadores cada vez menos interessados de suas análises furadas.

CPI das Privatizações faz jornal expôr Serra


O jornal Valor Econômico promove no dia de hoje o que pode ser considerado verdadeira soltura da boiada da informação sobre o tema tabú da grande mídia brasileira até agora, os documentos revelados pelo livro Privataria Tucana do jornalista Amaury Ribeiro da rede Record.
O artigo vai a esses documentos e associa-os aos grandes escândalos que marcaram o noticiário policial do país, como o do INSS que teve como protagonista a criminosa Jorgina de Freitas e o do Fórum da Justiça do Trabalho que levou à prisão o juiz Nicolau dos Santos Neto.
Fica claro na extensa matéria, que reproduzimos abaixo, o quanto de explicações devem autoridades do governo Fernando Henrique Cardoso sobre o processo de privatizações que tem se constituído em menina dos olhos dos propagandistas e no cerne do que se convencionou chamar de "legado da era FHC".
Tal qual o livro, no centro do enredo desvelado pela jornalista Cristiana Prestes está o círculo próximo ao ex-governador de São Paulo José Serra, integrado por indicados e familiares. 

Evidente também no quadro traçado pela matéria, que foi Serra quem plantou o gangster Ricardo Sérgio na diretoria internacional do Banco do Brasil, mantendo-o depois como tesoureiro em sua malograda campanha presidencial.
As ilações são óbvias: Serra colocou homem seu em posição chave na facilitação de operações internacionais no governo de seu amigo Fernando para que pudesse depois amealhar recursos que financiassem sua própria campanha à presidência da república.

Como? Reintroduzindo no país por meio de empresas localizadas em paraísos fiscais recursos obtidos com comissões ao longo das privatizações e usando, no caminho, parentes de primeiro e segundo graus.
Não é preciso dispor de muito tirocínio para concluir da leitura que a inclusão de parentes visou o enriquecimento pessoal do ex-candidato. Muito embora a jornalista não faça menção ao financiamento de campanhas, o que deixa à ilação do leitor, é enfática em relação à atuação de pessoas do círculo de Serra na operação da ilicitude.
A única concessão que faz àquele que desponta em seu texto como verdadeiro malfeitor é dizer que a vinculação dos recursos movimentados às privatizações não resulta comprovada pelo livro. O que frente os elementos factuais a que remete soa como pormenor, desde que - como é sabido - o dinheiro movimentado pela "entourage" de Serra provém de ilícitos bem anteriores, como a manipulação de contratos de estatais paulistas operada por gente de sua confiança à frente de diretorias administrativo-financeiras durante o governo Franco Montoro (1983-1986).
De todo modo, por lateral que seja o destaque dado ao artigo no "site" do diário, o fato politicamente relevante é que pela primeira vez um veículo da grande imprensa lança a dúvida: Serra será mesmo um bandido?...o que definitivamente levanta a bola para uma CPI que retome as investigações suspensas sobre o assunto.
Segue artigo publicado na edição de 04/01/2012 no jornal Valor Econômico  
Por Cristiane Prestes
Livro ameaça reabrir CPI inconclusa
Não há, na história da República, um escândalo financeiro tão longevo e de tantas ramificações quando o caso Banestado. Alvo de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso Nacional em 2003 e de uma força-tarefa formada por 40 procuradores, delegados, agentes e peritos do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, a descoberta de um esquema ilegal de uso das contas CC5 - criadas pelo Banco Central para permitir transferências legais para o exterior - no banco do Estado do Paraná foi a precursora de uma série de outras investigações - muitas delas ainda em curso nos gabinetes de procuradores, delegados e juízes.
Um pedido de CPI protocolado junto à mesa diretora da Câmara dos Deputados levantou as expectativas de que uma parte do caso Banestado, até agora mantida em segredo nos arquivos do Congresso, volte à tona. O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) conseguiu em dezembro 206 assinaturas para pedir a abertura de uma nova CPI, desta vez para investigar as privatizações promovidas durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP).
Ao receber o pedido de abertura da CPI, o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), não foi conclusivo sobre as perspectivas de sua instalação.
O pedido foi motivado pelas revelações do livro "A Privataria Tucana", lançado pelo jornalista Amaury Ribeiro Júnior. Nele, o autor regressa à época das privatizações e relata os passos - e a movimentação das contas bancárias - de personagens importantes do contexto político e econômico nacional, muitos deles ligados ao ex-governador José Serra (PSDB-SP).
Apesar de muitos governistas terem assinado o pedido de CPI, ainda não se conhece o interesse do governo e do PT na instalação efetiva desta investigação. O desinteresse de ambos na abertura de uma investigação poderia ser explicado pela informação que consta da página 75 do livro: "Os arquivos ocultavam informações capazes de constranger tanto o governo Lula quanto o de FHC".
A devassa no Banestado partiu de uma denúncia feita contra um dos gerentes do banco, que havia enviado dinheiro ao exterior ilegalmente por meio das CC5 e, em depoimento, relatou o esquema montado na instituição. De uma forma inédita na história do país, foram abertas duas frentes de investigação.
De um lado, a CPI do Banestado foi instalada em 2003 para apurar a evasão de divisas por meio do banco estatal. De outro, uma força-tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal foi montada no Paraná no mesmo ano para abrir inquéritos e investigar os clientes do banco que haviam incorrido no crime.
A força-tarefa resultou em inúmeras operações da PF para investigar o uso do câmbio ilegal no Brasil e acabou varrendo diversos doleiros do mercado. Resultam dela as mais importantes operações da PF já realizadas - como Farol da Colina, Suíça, Kaspar I e II e Satiagraha. O conjunto de ações integradas entre a PF e a MP foi encerrado em setembro de 2007 após ter denunciado 684 pessoas, obtido 97 condenações, investigado mais de 1.170 contas bancárias no exterior e bloqueado R$ 380 milhões no Brasil e R$ 34,7 milhões fora do país. Após seu término, os inquéritos ainda em andamento foram remetidos para procuradores em diversos Estados e geraram novas investigações.
A CPI do Banestado foi encerrada em 27 de dezembro de 2004 sem a aprovação de seu relatório final. Na época, os partidos fizeram um acordo para encerrar as investigações, após a comissão ter recebido dos Estados Unidos um lote de documentos sobre a movimentação de brasileiros em contas bancárias abertas no MTB Bank, outro escritório de lavagem de dinheiro americano. Segundo Ribeiro Júnior, a revelação dos dados do MTB foi determinante para que fosse desencadeada a "operação abafa" na CPI.
O livro, no entanto, não se dedica às razões por que o PT resolveu colaborar para sepultar a CPI. Seu foco é na tese de que a era das privatizações - inaugurada durante o governo Collor e ampliada e intensificada no governo FHC - patrocinou a venda de estatais brasileiras a "preço de banana" e enriqueceu políticos e empresários por meio de um esquema de pagamento de propinas. Segundo o autor, a venda de empresas como Vale, CSN, Light, Embraer e Usiminas, entre outras, foi antecedida por demissões, aumento de tarifas, investimentos e absorção das dívidas das companhias pelo Estado e concluída por meio do uso de moedas podres e intensa participação do BNDES no financiamento aos consórcios que as adquiriram.
Entre a primeira e a segunda etapas, Ribeiro Júnior tenta provar que houve um esquema de corrupção por meio do qual os tucanos montavam os consórcios vencedores dos leilões em troca de propina - no que chama de "propinização", ao invés de privatização.
O principal argumento que sustenta a tese do autor foi mantido em sigilo pelo Congresso desde 2003, quando foi instalada a CPI do Banestado. Segundo Amaury Ribeiro Júnior, a caixa de número 6 que abriga o material levantado pela CPI contém um documento, reproduzido no livro à página 137, que demonstra que o ex-tesoureiro de campanha de Fernando Henrique Cardoso (em 1994 e 1998) e de José Serra (em 1990 e 1994), Ricardo Sérgio de Oliveira, recebeu somas consideráveis nas contas bancárias de empresas das quais é sócio.
Após a eleição de Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio, indicado por Serra, assumiu a área internacional do Banco do Brasil, posto por meio do qual teria articulado a participação dos fundos de pensão - como Previ e Petros - nas privatizações.
Além de Ricardo Sérgio, o documento, reproduzido por Ribeiro Júnior no livro, também cita Gregório Marin Preciado, casado com uma prima de primeiro grau de Serra. Preciado teria movimentado dinheiro por meio do Beacon Hill, escritório de lavagem de dinheiro que foi o principal receptor dos valores enviados ilegalmente para fora do país pelas contas CC5 do Banestado. O autor, no entanto, não consegue provar que o dinheiro que circulou nas contas dessas pessoas tem origem nas privatizações e tampouco que Serra teria se beneficiado desses valores. Procurada pelo Valor, a assessoria de imprensa de José Serra não se manifestou. O ex-governador de São Paulo classificou o livro como "lixo". A reportagem não encontrou Ricardo Sérgio em seu escritório. A assessoria do PSDB informou que o departamento jurídico do partido prepara uma ação judicial contra o livro.
"Não é um livro, é um documento", resumiu o deputado Protógenes Queiroz durante um debate sobre "A Privataria Tucana" promovido pelo Centro de Estudos Barão de Itararé, realizado no Sindicato dos Bancários de São Paulo.
A afirmação decorre do fato de o autor se dedicar a esmiuçar o modus operandi da lavagem de dinheiro a partir dos mais ruidosos escândalos brasileiros dos últimos tempos, como o desvio de verbas da construção do novo fórum trabalhista de São Paulo pelo juiz Nicolau dos Santos Neto; a Máfia dos Fiscais do Rio de Janeiro; o desvio de verbas do INSS promovido pela servidora Jorgina de Freitas, entre outros casos.
Em todos eles, as investigações culminaram em uma sequência de operações que incluiu o desvio de recursos públicos, seguido da evasão de divisas por meio de doleiros, da circulação do dinheiro em contas de bancos americanos e da abertura de offshores em paraísos fiscais. Sem a identificação dos seus beneficiários finais, protegidos pelo sigilo oferecido nesses países, as offshores promoviam investimentos no Brasil, reinserindo o dinheiro lavado na economia. (Colaborou Cristiane Agostine)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Os fariseus da baixa tributação


Espanta a notícia publicada no primeiro dia do ano novo sobre a elevação de impostos perpetrada pelo governo de São Paulo no apagar das luzes de 2011.
Afif Domingues, vice-governador e criador do chamado impostômetro, painel que marca a arrecadação de impostos do governo federal, deveria, num ato de contrição, pedir desculpas ao empresariado e ao contribuinte paulista.
Não o fará. Falta-lhe a hombridade que teve Claúdio Lembo quando, na mesma posição e pautado pelos fatos, manifestou seu desagrado aos eleitores paulistas com relação à situação da segurança pública na maior cidade do país no momento em que PCC decretava toque de recolher aos cidadãos paulistanos.
Fosse o que não é seria papel de Afif, representante do empresariado paulista no governo além de substituto oficial do governador de São Paulo Geraldo Alkimin em seus impedimentos, denunciar que não apenas a elevação dos impostos como também o regime de tributação na saída das mercadorias dos galpões da indústria determinado por Serra – chamado de substituição tributária – é inconstitucional, arbitrário e distorsivo.
Por essa sistemática a indústria antecipa para os cofres do estado aquilo que o governo deveria recolher do comércio em termos de imposto de circulação de mercadorias. Como o próprio nome diz, o fato gerador desse imposto é a agregação de valor experimentado pelo produto ao longo da cadeia de produção, na medida em que passa de um a outro agente do setor produtivo. Ou se paga tal imposto na passagem de cada fase da cadeia ou no final do circuito quando o consumidor o retira da prateleira.
Cobrá-lo em antecipação, de quem está no início do processo de produção, por meio de estimativas agora majoradas pela fazenda estadual, imputa custo extra à indústria e distorce, em benefício exclusivo do governo, a formação de preços em mercado.
Mercado que tanto exaltam nossos liberais de fachada, que são a favor de pouco governo quando fora do poder e a favor da mais chula intromissão nos negócios depois de nele instalados.
A federação do Comércio, órgão representante do setor que Afif diz representar no governo estadual, vem argüindo junto ao Supremo Federal a inconstitucionalidade do Decreto Estadual patrocinado por Serra a fim de levantar recursos que viabilizassem suas obras faraônicas de fim de governo.
O garrote tributário que Serra impôs ao empresariado paulista e que afasta a indústria nativa para ambientes mais amigáveis em território nacional, quando não favorece francamente os importados, deverá ser derrubado na justiça federal. Isso porque a justiça estadual está comprada com estipêndios vultosos patrocinados com recursos orçamentários oferecidos pelo executivo paulista à custa da mesma vítima, o contribuinte local.