Share it

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Kassab contra a solidariedade


Não vai longe certa visão sanitarista abraçada pelas autoridades municipais da cidade de São Paulo, que se fez manifesta em vistosas placas verdes que determinavam a proibição de atrair pombos nas praças públicas.

Os termos do alerta não fazia referência ao ato de alimentar aves, porque proibi-lo traria implícita consigo a admissão da naturalidade da presença delas nos espaços públicos, como fora durante o longo tempo em que não se imaginava uma área verde sem os agitados tico-ticos e pombos brancos trazidos pela corte de D. João VI.

Afastados os pombos, ainda que o retardasse a teimosia recalcitrante de idosos e crianças cuja sensibilidade não entendia quais as ameaças oferecidas pelos pequenos animais que tanta vida traziam à praça, o imperativo da higiene alcançou os próprios seres humanos.

Não da forma enviesada como pretenderam os alertas destinados aos amantes de aves 30 anos antes, mas de maneira direta, explícita, chocante como jamais o imaginaria aquele que sendo humano conviva entre homens, e não entre feras, na ambiência da cidade.

É proibido alimentar pessoas, decretou há poucos dias o prefeito Kassab. Da mesma forma como décadas antes confiscavam os fiscais da prefeitura as migalhas de pão em mãos de aposentados nas manhãs de domingo, homens armados da prefeitura tem ordens agora de confiscar pratos de sopa das mãos de quem os receba de caridosos concidadãos.

Apressam-se as autoridades em atribuir a insólita ordem à busca de eficiência dos serviços municipais voltados à população em situação de rua. Julgam-na uma decisão administrativa como qualquer outra, que regra as atividades desenvolvidas na cidade e as coisas que lhe são próprias.

Ao dar primazia aos inexistentes serviços prestados pelo governo municipal, pelo menos na escala e amplitude necessária, o que se assiste é ao Estado interferir na relação solidária entre pessoas, obstar o exercício de práticas humanitárias que nunca se pensou pudesse qualquer governo  visar.

Dá-se com a iniciativa passo ousado para criminalizar a solidariedade humana dirigida à mitigação da pobreza, à ação individual que permite ao ser humano enxergar-se como tal. Manifestar humanidade e fazer aquilo que o Estado tarda a fazer está prestes a tornar-se crime. A crueldade está aponto de virar política de governo, para espanto daqueles que pensavam não chegar a tanto a insensibilidade de tecnocratas de governo.

Rebelar-se contra essa ignomia é mais que um direito, é uma imposição do sentimento humano. Que sejam estilhaçados, pois, os vidros do gabinete do Sr Prefeito, para lembrar a todos os governantes que ninguém está obrigado a perder sua humanidade em razão de regras municipais.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Uma questão de coerência

Com as pesquisas eleitorais mais recentes indicando queda de intenções de voto no candidato Netinho, do patamar de 10% do eleitorado para a faixa dos 5% dele, o PCdoB não dispõe de muita margem de manobra nas eleições municipais de São Paulo para sustentar o pragmatismo que tem marcado o partido na última década.

Integrante da base do governo federal desde o primeiro governo Lula, o partido tenta demonstrar autonomia com relação ao PT em São Paulo a fim de otimizar os resultados das disputas políticas em escala nacional.

Mas vendo estreitarem-se as janelas para uma composição que lhe renda os melhores resultados em termos de espaço de poder, o partido dispõe de pouco tempo para anuir com a proposta de composição de uma chapa que tem despertado também bastante interesse por partidos situados à direita do espectro político.

Um bom indicador das predisposições do PCdoB de chegar logo a uma composição com o PT,são as expectativas de aliança externadas pelos dirigentes de outro partido da base aliada com quem a agremiação comunista vem estabelecendo negociações com o mesmo fim, o PMDB.

Pois é exatamente do ponto de vista desse prognóstico de aliança com o PMDB é que se revela de interesse matéria publicada pelo jornal Valor Econômico, na qual o dirigente paulista do partido centrista manifesta-se descrente com relação a uma parceria eleitoral com o PCdoB e dá como certo ingresso da legenda na chapa encabeçada por Fernando Haddad. Leia matéria abaixo.

                            

Presidente do PMDB-SP vê PCdoB mais perto de fechar aliança com o PT

Por Raphael Di Cunto | Valor

SÃO PAULO - A despeito das declarações de dirigentes do PCdoB sobre a chance de coligação com o deputado federal Gabriel Chalita (PMDB-SP) para a Prefeitura de São Paulo, o presidente estadual do PMDB paulista, Baleia Rossi, vê o PCdoB mais perto de fechar com o PT. “O PCdoB ainda não fez a declaração oficial, mas a gente acha que eles apoiarão o PT mesmo”, disse.

Segundo Rossi, há 90% de chance de deixar a escolha do vice de Chalita para depois da convenção do partido, marcada para domingo na Praça da Sé, centro da cidade. A indefinição permitirá oferecer a vaga na chapa para atrair outras legendas, embora o pemedebista veja poucas chances de sucesso.

“Continuamos conversando, mas não temos grandes esperanças”, afirmou. Os alvos são o PCdoB e o PTB, que tem como pré-candidato o ex-presidente da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), Luiz Flávio Borges D´Urso. Ambos são cortejados também pelo PT, que já ofereceu a vice de Fernando Haddad, e pelo PSDB do ex-governador José Serra, que ofertou a Secretaria Estadual de Justiça. Pelo menos, por enquanto, o presidente do PTB de São Paulo, Campos Machado, mantém a candidatura própria.
Chalita homologará na convenção o apoio de três partidos: PSC, PSL e PTC. O deputado pretende concorrer com duas chapas de vereadores, cada uma com 110 candidatos. Uma composta por PMDB e PSC, e outra por PSL e PTC. O pemedebista será o terceiro com mais tempo de propaganda eleitoral de televisão e rádio, com aproximadamente cinco minutos.

Erundina e a Comuna de Paris



Erundina pensa que São Paulo vive seu momento de comuna de Paris, que em 1871 pôs em prática o primeiro governo de revoltosos à frente de uma grande cidade da era moderna.
Com o pensamento cristalizado pela idade provecta, a anciã age como um Lênin de saias e recusa-se a entender que a cidade não é mais o espaço dos experimentos sociais que pretendeu com seu polêmico governo em São Paulo há 30 anos.

Lugar de cruzamento de ideias e palco da aplicação dos sempre constantes avanços da tecnologia, a cidade luta para acomodar seus diferentes segmentos sociais aos espaços que a geografia lhes reservou. Precisa ter assegurada sua mobilidade interna, prover os serviços que lhe demandam os cidadãos, contornar contingências ambientais determinadas pela circulação das águas, concentração de gases e acúmulo de calor.

A cidade não se define mais pelo embate centro-periferia como pensou Erundina, numa espécie de visão urbana da luta de classes. Seu tecido de estruturação dinâmica pede convergência de esforços, abertura para o outro e soma permanente de esforços.

Os moradores dos bairros centrais sabem que não podem viver como ilhas de bem-estar em meio ao concreto que se espraia incontido pelas bordas da cidade e de córregos que a drenam cada vez mais para o interior. Não, os grandes problemas das cidades contemporâneas ameaçam a todos, em todos os lugares e ao mesmo tempo.

Daí o sentido do diálogo entre diferentes correntes de pensamento presentes na sociedade, expressas no âmbito das coligações partidárias destinadas a compor governos, com eixo no funcionamento aprimorado da metrópole.

Há sim divergências que separam grupos e que acabam fundando razões para agrupamentos em torno de entendimentos e princípios de ação. Um deles é o teste da verificação. Fundamental para o avanço de soluções para os problemas com que se defronta a cidade é que haja renovação entre os grupos que tenham sido testados quanto à aptidão de pôr em prática propostas aos desafios colocados.

Ainda no caso da cidade de São Paulo, depois de 8 anos no comando da gestão do município – durante os quais se acumularam problemas nos setores dos transportes, saúde e uso e ocupação do solo – o agrupamento representado pelos gestores Serra e Kassab volta  a pedir a renovação do mandato popular para o enfrentamento dos problemas para os quais já haviam sido antes designados.

Como serão providas as soluções é outra questão que serve como divisor de águas entre os agrupamentos que polarizam a formação de chapas que disputam a disputa à prefeitura. Provê-las entregando ao mercado a oferta de serviços essências que competiriam apenas ao poder público ofertar, dado  as insidiosas exigências econômicas que assolam o cidadão por todos os lados, ou então reforçar a presença do governo municipal ali onde autoridade e disciplina estatal parece fundamental, é outro quesito que determina a composição de chapas e orienta o voto.

Excluir qualquer força presente na sociedade, por causa de seu suposto compromisso com valores mais ou menos conservadores, não constitui motivo real e distintivo para a articulação de forças visando a reorganizar a vida da cidade. Para São Paulo, O Sr. Maluf representa 10% do eleitorado que ainda acreditam que por meio de grandes intervenções urbanísticas, como foram no passado as vias marginais e os grandes elevados ou viadutos, possam ser resolvidos os problemas crônicos da metrópole. Que continuem pensando.

Se essas mesmas forças, com barganha ou sem barganha, já que é fato sua presença como elemento da política, decidem compor com os que pensam a cidade do ponto de vista de soluções integradas bem como de uma ótica fortemente social, por que recusá-las se são elas mesmas parte viva da ação transformadora de que carece a cidade para enfrentar seus crônicos problemas?

...Por causa da luta de classe, da coerência ideológica responderia alguém movida pelos sentimentos da Sra. Erundina. Como disse Shakespeare, ainda bem que o tempo quebra as ideias mais arraigadas ao mesmo tempo em que é o ladrão dos dias. Pois apenas assim é possível livrar-se das ideias velhas que sobrevivem somente para fazerem-se admiradas pelos tolos.         


segunda-feira, 18 de junho de 2012

A grande disputa






Virou uma praça conflagrada o acerto da coligação que pretende conduzir Serra até a prefeitura nas eleições deste ano.

Como informa o jornal Valor Econômico (íntegra abaixo) são 110 candidatos para disputar um número limitado de duas dezenas de cadeiras na Câmara Municipal pelo bloco de legendas, de saída com 23 vereadores concorrendo à reeleição.

Para fechar as contas alguém precisa abandonar o pleito de partilhamento de vagas. Pela proximidade que mantêm com Serra,  esse alguém seria Kassab, que nesse caso obteria em compensação o lugar de vice na chapa para um de seus correligionários.

Contudo, para abrir mão da coligação e ter chances de eleger uma banca mínima de vereadores, Kassab depende que o TSE reconheça o direito de seu partido ao desfrute de tempo de propaganda na TV, mesmo não tendo participado do último pleito como o exige a legislação eleitoral. Do reconhecimento desse direito pelo TSE dependeria também a legitimação da escolha de um vice do partido.

Acontece que o TSE vem adiando a decisão devido ao grau de polêmica que a envolve e o potencial que tem de influir em resultados eleitorais. O resultado do impasse é o aumento do conflito no interior do próprio partido a que pertence o candidato e a recusa dele de carregar o candidato ao preço do próprio sacrifício no legislativo municipal.
                                

Indefinição do TSE sobre PSD tumultua chapa de Serra

Por Raphael Di Cunto, do Valor Econômico

A sete dias da convenção partidária para homologar o nome do ex-governador José Serra como candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, os tucanos começam a semana dependendo do julgamento do tempo de televisão do PSD para definir a composição da chapa de vereadores e até a escolha do vice-prefeito.

O plano do PSDB foi atrapalhado pelos consecutivos adiamentos, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do julgamento sobre a redivisão do fundo partidário a pedido do PSD. O entendimento dos tucanos é que o prefeito Gilberto Kassab (PSD) teria preferência na indicação do vice e faria menos pressão pela coligação proporcional se seu partido tivesse tempo de TV.

Isso depende, porém, de uma decisão favorável do TSE e a demora no julgamento tem atravancado as negociações com as outras legendas. Além do PSD, dois partidos exigem coligação proporcional com o partido de Serra: PR e DEM.

O PP, que impunha a mesma condição, anuncia hoje seu rumo nas eleições de outubro. A aliança com o PSDB entrou em compasso de espera na sexta-feira, depois que o ministro das Cidades, Aguinaldo Ribeiro, do próprio PP, atuou para entregar um cargo-chave da pasta para o seu partido, como forma de levar o apoio da sigla para o petista Fernando Haddad.

Se o "chapão" for confirmado, sem o PP, serão 23 vereadores concorrendo à reeleição, além de uma dezena de pré-candidatos com potencial eleitoral - o PV, com seis parlamentares, é o único da aliança que não quer coligar para vereador. Avalia ter voto de legenda suficiente para fazer bancada.

O PSD, principal alvo dos demais aliados, tem buscado diminuir os atritos. Na sexta-feira foi oficializada a indicação do vereador Domingos Dissei (PSD) como conselheiro do Tribunal de Contas do Município. Outro vereador da legenda, Marcos Cintra, preferiu ficar na Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho.

Apesar disso, uma chapa com tantos candidatos à reeleição, analisam os contrários ao "chapão", deve elevar muito o número de votos mínimos para se reeleger. Outro problema é que cerca de 60 pré-candidatos tucanos serão impedidos de concorrer para dar lugar a outras siglas. A chapa terá, no máximo, 110 candidatos, independentemente do número de partidos que a compõem.

A pressão, avaliam tucanos, seria amenizada com o julgamento do tempo de TV do PSD, já que o partido se tornaria menos dependente dos votos obtidos pelas outras legendas da chapa. Uma cadeira a vereador é garantida por 130 mil votos. Sem tempo de TV ou coligação, ficaria mais difícil para o PSD repetir a atual bancada de 10 vereadores.

O TSE, porém, ainda não julgou sequer a redistribuição do fundo partidário, que seria usada pelos advogados do partido para acelerar a decisão sobre a propaganda partidária. Ambos são definidos com base na eleição anterior para a Câmara dos Deputados - da qual o PSD não participou, já que não existia. O partido quer receber pelos 52 deputados filiados à legenda em sua fundação, pleito cuja análise está pendente desde novembro.

Além da composição da chapa de vereadores, dessa decisão também depende a escolha do vice de Serra: se o PSD ganhar, é quase certo que a vaga fica com o ex-secretário municipal de Educação Alexandre Schneider (PSD).


domingo, 17 de junho de 2012

Ângela, que trocou o enterro pelo prêmio



A TV é mesmo o espelho da alma de seus telespectadores. O caso da vedete Ângela Bismarck que trocou o enterro da irmã pela disputa do prêmio de 2 milhões de reais, oferecido pelo "reality show" da Record, é bem prova disso.

A moça, que é especialista em casar com cirurgiões plásticos com o propósito de oferecer seu corpo como amostra grátis das aptidões cirúrgicas dos maridos, deu uma mostra pornográfica de até que ponto pode chegar a mercantilização de valores.

Impedida de abandonar as instalações onde era rodado o programa sob pena de perder direito ao prêmio, Ângela tomou alguns tranquilizantes e anuiu em seguida com as regras do programa. Chegaram a dizer que a irmã era também sua melhor amiga e que sua morte bem poderia comprometer a permanência da vedete no programa.

Nada disso. Assistida pelo atual marido que desejaria ver sua escultura cirúrgica premiada, preferiu permanecer no programa aproveitando as chances ampliadas de vitória derivadas de seu sofrimento televisivo.

O episódio mostra do que emissora e participante são capazes para fazer valer o show e que vencer é o que unicamente importa. Enquanto a audiência conforma-se em discutir em rodas sociais a razoabilidade da atitude tomada.

“A irmã já estava morta mesmo, e perder 2 milhões não a restituiria a vida” diriam uns; “Angela nada tinha a ver com as trágicas consequências das atitudes da irmã, a ponto de sacrificar a própria carreira por causa disso”, alegariam outros.

E todos verão com comiseração o desprendimento da vedete, que por haver aberto mão de algo tão particular por respeito às regras do jogo, bem mereceria por essa  mesma razão vencer o desafio do "reality show".  


Sun Tzu e a adesão de Maluf





Houve um dia em que a milenar sabedoria chinesa foi aplicada à arte da guerra e o resultado foi um conjunto de recomendações para a vitória sobre o inimigo no campo de batalhas inspirada na interação das energias opostas e complementares que permeiam todos os acontecimentos sobre a terra.

Quem compilou esses ensinamentos foi Sun Tzu, ainda no tempo dos “reinos combatentes” que dividiam em guerras fratricidas os reinos da China durante o século quinto antes de cristo e ainda antes que fosse conquistada a unificação no século segundo a.c. durante a dinastia Hu.

Transformada em obra de referência de doutrina militar no século segundo anterior ao primeiro milênio, os escritos de Sun Tzu inspiraram Maquiável na redação de texto homônimo que abordava as premissas assentadas no taoísmo do texto chinês do ponto de vista do pensamento renascentista de contestação à moral cristã do fim da idade média.

Vem daí talvez a associação dos meios propugnados por Maquiável com o que se convencionou chamar de “falta de moral” e de suas recomendações para a condução da guerra com algo não afeito ao requisito de pureza que deve guardar os fins ultimados pelas batalhas.

Pois com Sun Tzu não era assim. Sua visão da guerra não distinguia entre os meios e os fins porque sua visão da existência humana não se apoiava na visão dualística de Sócrates que distinguia entre o representacional e o real – o que quer que isso pudesse significar – na vida do homem.

Para Sun Tzu a condução da guerra era governada por 5 princípios e o primeiro deles era o caminho, ou o Tao. Exatamente o campo das representações morais e dos valores que guiavam a aceitação pelos povos dos atos de guerra. Nada que estivesse em desacordo com a sensibilidade do homem comum teria chances de vingar enquanto movimento bélico nos campos de batalha.

Guardavam relação com o Tao – a que estavam submetidos povos, guerreiros e generais – outros 4 princípios exteriores à sensibilidade humana a que deveria dar observância o chefe em armas. Eram eles o clima, o terreno, o comando e a disciplina. O clima dizia respeito ao quando guerrear, o terreno a que em condições guerrear e o comando e a disciplina às habilidades que deveria deter o general para manter seus homens preparados e dispostos para o combate.

Num salto propositado na história seria interessante, como se tem feito desde o século 18, aplicar as ponderações de Sun Tzu à batalha política para a qual se prepara o PT para conquistar a prefeitura de São Paulo em outubro próximo.

Por polêmico que foi, é o caso de avaliar-se, dentre todos os requisitos exigidos para a vitória final, se está em desacordo com o caminho ou o Tao a adesão de Paulo Maluf aos exércitos combatentes de Hadad. A questão corresponde a indagar se há algo de intrinsicamente contraditório com a predisposição e o juizo do eleitorado a incorparação às próprias fileiras de um líder egresso das hostes inimigas para a busca da vitória.

Desde que o anseio de justiça é capaz de suscitar sentimentos bons  nos corações mais perversos, como pregam as doutrinas de diferentes matizes filosóficos sobre o arrependimento, o eleitorado tenderia a ver com naturalidade o eventual apoio de um antigo antagonista às teses adversárias, desde que estas servissem ao propósito do bem comum visado pela guerra.

Era por essa razão que Sun Tzu considerava como prática necessária à vitória a incorporação permanente de inimigos às forças de combate, os quais deveriam ser tratados com respeito por representarem o reconhecimento das alternâncias de estado, ainda que não de natureza, de tudo que tem existência no universo.

Disse Sun Tzu: “se utilizas o inimigo para derrotar ao próprio inimigo, serás poderoso em qualquer lugar aonde fores. A isto se chama vencer o adversário e incrementar, por acréscimo, as forças em ti”.

Criar as condições para a vitória ainda antes que se trave o primeiro embate, nisso reside a arte da guerra.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pour Elise




Acabou mal a estória do empresário que achava que podia tudo com meninas que, sem o mesmo capital, recorriam à prostituição para ganhar a vida. Colocava-se como que senhor de seus destinos, dava carro, mesada, saciava-se e depois descartava.

Foi assim com Elise, garota com cara de anjo mas que trazia na mão o punhal de quem precisa lutar todos os dias para manter-se viva. Matsunaga, o rei da pipoca, havia aberto para ela as portas da esperança tal como se passava nos antigos programas dominicais de Silvio Santos.

Abriu e fechou. Havia encontrado outra vítima, outra menina que só dispunha do corpo para sobreviver e procurava Matsunagas em sites de relacionamentos na internet. Na troca de uma por outra, mercadorias que se intercambiavam, restava uma criança. Esta o patrão de mil empregados resolvera manter junto a si a fim de mostrar aos familiares que era pai zeloso, na velha tradição da cultura japonesa.

Ao comunicar a decisão de que reclamaria a filha e substituiria Elise por outra garota, depois de confrontado com a próprio adultério, Matsunaga lembrou-se onde havia encontrado aquela a quem por capricho e desafio de conquista desposara, e chamou-a de prostituta, filha da pobreza e fraca. Evocou sua fortuna, sua estirpe oriental, quem sabe, e desafiou-a a agir.

Sem titubear, guiada pela moral das ruas, de quem bem sabe que o dia do júbilo é a véspera do escárnio Elise disparou um tiro certeiro no rosto do aproveitador Matsunaga . Desprezando o corpo do ex-marido como o seu mesmo havia antes sido desprezado, esquartejou-o e depositou-o como lixo na noite da cidade.

Quem poderá recriminar Elise pela explosão de cólera em razão do vilipêndio do único bem que de fato possuia, a dignidade? Quem poderá, de outro modo, chorar a morte de um homem sem caráter que colecionava indistintimante armas, vinhos e mulheres?
Poucos terão lágrimas para Matsunaga,  aquele que planejou sem saber a própria morte por haver se enganado sobre como dispôr da sua fortuna.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O cacique Serra pela ótica de um estudioso



Às vezes uma réstia de luz penetra nas cavernas escuras da mídia para iluminar algumas verdades que são aparentes apenas àqueles que se dedicam à tarefa cotidiana de coligir e confrontar informações na imprensa, passando ao largo das análises carrancudas dos articulistas oficiais da grande imprensa e de seus avatares no telejornalismo.

Desse raro atributo de esclarecimento está revestido o artigo assinado pelo cientista político Claudio Gonçalves Couto (transcrito abaixo) da FGV, na edição do jornal Valor Econômico que circulou no feriado de Corpus Christi. O texto fala de uma questão de mérito, o que diferenciaria a influência política do puro caciquismo na prática de lideranças políticas?

Pra desvendá-la confronta dois episódios recentes da cena política nacional: a iniciativa do ex-presidente Lula da Silva de apoiar para candidato a prefeito da maior cidade do País o nome de alguém jejuno em disputas eleitorais, seu ex-ministro Fernando Haddad, em detrimento do nome consagrado da senadora Marta Suplicy; e a decisão do ex-governador José Serra  de apresentar seu nome à mesma disputa eleitoral.

 Para surpresa daqueles que se acostumaram às versões de matiz conservador predominantes na imprensa e na mídia, as quais associam os atos de Lula ao personalismo autoritário de um líder sindical e os gestos de Serra à capacidade estratégica de um exímio acadêmico, o autor do artigo mostra a diferença entre os dois políticos atribuindo ao ex-presidente o perfil de líder renovador e ao ex-governador o de cacique que violenta a vontade de seu partido e sufoca-lhe a capacidade de renovação.

Os argumentos alinhavados pelo professor valem por certo bem mais que as precedentes ponderações, que bem poderiam ser omitidas.                                                                           

Sobre caciques e partidos

Por Cláudio Gonçalves Couto

A birra de Marta Suplicy, ausentando-se do ato de lançamento da candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, enseja uma boa oportunidade para discutir o papel das lideranças individuais nos partidos políticos. Ela serve para mostrar que o caciquismo é um fenômeno mais complexo do que sugerem análises apressadas sobre a influência de certas lideranças na definição dos rumos das organizações partidárias. Quanto a isto, um aspecto ganha relevo: enquanto alguns líderes criam sucessores, atuando na produção ou reforço de novas lideranças (crucial para a sobrevivência organizacional), outros embotam essa criação, contribuindo para a esclerose organizacional.

O problema é distinguir entre caciquismo - um tipo de liderança que subjuga a organização à vontade pessoal inquestionável do líder - e influência. Uma liderança influente no partido logra convencer os correligionários, sem contudo impor-lhes decisões inquestionáveis. Assim, se a persuasão é requisito para a obtenção de anuência, não há caciquismo. Trata-se de diferença de grau, que ultrapassados certos limiares se converte em distinção de natureza.

Há situações nas quais se migra, ao longo do tempo, de um estado para outro. Assim, caciques podem converter-se apenas em lideranças influentes, seja por que se debilitam ou ajustam a conduta, seja porque um reforço organizacional do partido lhes reduz o espaço para o arbítrio. Inversamente, líderes influentes podem, em certas conjunturas, tornar-se caciques; algo mais provável em organizações partidárias frouxas ou enfraquecidas - o que não é a mesma coisa.

Caciques são os que se colocam acima do partido

Para existir, o cacique necessita do apoio de um subconjunto organizacional dentro do partido: sua entourage, uma facção majoritária ou posições-chave na burocracia. Assim, enquanto o partido como um todo é fraco organizacionalmente, esse subgrupo é relativamente forte, impondo a vontade de seu líder. Contudo, há uma condição principal, decisiva distinguir o caciquismo da influência: o cacique subordina os interesses da organização aos seus próprios; é o projeto pessoal do cacique que sempre prevalece sobre o do partido - e mesmo sobre o de sua claque.

Há quem veja no patrocínio de Lula à candidatura de Fernando Haddad evidência de caciquismo, demonstrando que o PT nada mais seria do que um partido sem vontade própria, a reboque do grande líder. Será mesmo? Isto não se coaduna com características notórias do partido: organização forte, disputa intensa entre facções, espaço para contestação seguido de alinhamento a decisões tomadas pelo conjunto. Na realidade, Lula é muitíssimo influente, mas não um cacique no sentido próprio do termo. E isto não só por méritos próprios dele, mas pelas características do partido que construiu - que restringe o caciquismo.

No caso paulistano, antes mesmo de Marta desistir da candidatura, já enfrentava - além de Fernando Haddad - a oposição interna de antigos aliados, agora pré-candidatos, os deputados Jilmar Tatto e Carlos Zarattini. Candidata duas vezes derrotada à prefeitura, a senadora já não desfrutava da condição de escolha óbvia da agremiação - como foi em 2008. A imposição de seu nome - a despeito de outras postulações, de um clamor interno por renovação e da grande rejeição aferida pelas pesquisas ¬- é que seria caciquismo. Em tal contexto, o apoio de Lula à renovação operou mais como contrapeso à tentativa de caciquismo em nível local do que se mostrou ele próprio uma imposição inconteste.

Compare-se com a autoimposição de José Serra no PSDB, contra Aécio Neves. Verificou-se no ninho tucano uma estratégia de sufocamento da disputa interna pela interminável postergação do embate, até que o ex-governador mineiro jogou a toalha, considerando que não teria tempo hábil para se viabilizar. A solução pelo alto, dessa ardilosa vitória pelo cansaço, repetiu-se agora na escolha da candidatura tucana à prefeitura paulistana. Após meses alegando que não se candidataria, o que ensejou uma animada disputa entre quatro pré-candidatos (sugerindo renovação partidária) o ex-governador mudou de ideia, inscreveu-se na prévia após o prazo regulamentar, provocou a desistência de dois postulantes e prevaleceu. Serra obteve na prévia apenas pouco mais de 50% dos votos, num embate contra postulantes muito menos expressivos - tanto no que concerne à envergadura política quanto à história. Isto mostra o tamanho do desagrado que sua soberba causou na base tucana.

Fosse o PSDB dotado de maior densidade organizacional, os dois episódios da imposição serrista deflagrariam uma crise interna - como a que deve se produzir no PT de Recife neste ano. O caráter elitizado da agremiação e a baixa intensidade da vida partidária (sobretudo se comparada à do PT) permitem que as manobras dos caciques e seus embates permaneçam basicamente como um problema deles mesmos. A renovação, neste caso, ocorre apenas nas franjas da disputa política (como nas eleições de deputado estadual e vereador), pelo ocaso das lideranças ou por algum acidente; raramente por uma estratégia bem definida. Em São Paulo, a oportunidade da renovação foi perdida; o risco da esclerose cresceu.

É nisto que as atuações de Lula e Serra se distinguem como influência, no primeiro caso, e caciquismo, no segundo. Enquanto o ex-presidente interveio no processo de modo a promover uma renovação de lideranças e atuando segundo a lógica da organização partidária, o ex-governador apenas fez prevalecer seu projeto pessoal de poder, às expensas do partido, que tornou seu refém. Isto permanece, a despeito de quem venha ganhar ou perder as eleições de outubro.

Algo que confunde a percepção de papéis tão distintos são os estilos muito diversos de um e de outro. Enquanto Lula é um líder carismático e de estilo esfuziante, Serra é um líder gerencial e de estilo soturno. Intuitivamente, o senso comum identifica o primeiro com o improviso e o personalismo, e o segundo com a racionalidade e a institucionalidade. Uma análise mais cuidadosa revela exatamente o oposto.