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sábado, 31 de dezembro de 2011

Defender Serra não vale a pena


Lembro quando vi Serra pela primeira vez. Sempre sisudo junto à portinhola da cozinha em que a simpática Dona Raimunda fazia passar seu café logo depois do almoço no segundo andar da faculdade de economia, portava-se como personalidade a espera de um pedido de autógrafo.
Usava uma invariável jaqueta marrom com detalhes em couro e os poucos cabelos puxados a brilhantina. A expressão de permanente descontentamento, a quem tudo parecia desagradar, vez ou outra se desfazia em reação receptiva a eventuais festejos de bajuladores que já naquele tempo acompanhavam-no.
Visto à distância não transparecia estar agradecido pelo emprego que João Sayad e Montoro Filho arrumaram-lhe na FIPE quando desembarcou com uma mão atrás e outra na frente, vindo do exílio auto-imposto no Chile. Aparecia pouco na Universidade e naqueles inícios dos anos 80, de empregos escassos, víamos com certa estranheza o modo fácil como ganhava seu dinheiro.
Deu um curso sobre economia da América latina a que poucos se interessaram, exceto os marxistas ligados ao partidão (partido comunista brasileiro) e alguns poucos ingênuos que se encantavam com as críticas fáceis que o professor fazia publicar na revista de economia política contra as medidas cambiais adotadas à época pelos ministros Reis Velloso e Delfim Neto.
Houve alguma surpresa quando o anódino Serra surgiu como secretário do planejamento do governo Montoro. Foi trazido pelas mãos de Montoro Filho, que não podendo ser ele mesmo secretário devido à condição de descendente direto do governador, que já tinha dois outros filhos no gabinete, decidiu conferir um ar de esquerda ao governo do pai enquanto ele mesmo permaneceria nos bastidores.
No governo, o primeiro ato de Serra foi avocar a si a nomeação de todos os diretores financeiros de estatais paulistas, todas: do Banespa à Comgás. Nessas circunstâncias foi que chocou os ovos que viriam a conferir-lhe força tremenda, primeiro dentro do PMDB e depois dentro do novo partido cuja fundação seria um dos responsáveis devido à ruptura irreconciliável com Quércia.
Confinado à Secretaria da Administração e contemplado com não mais que duas diretorias regionais do Banespa, uma na capital e outra no interior, Quércia manteve-se crítico a Serra até a aliança em 2010 que pensou lhe renderia uma cadeira no senado.
Com as chaves dos cofres das estatais nas mãos e a responsabilidade de alimentar o caixa que financiaria a primeira campanha presidencial pela via direta – a de Montoro, conforme acordo firmado com Tancredo Neves que, depois de eleito pelo colégio eleitoral com apoio do governador paulista, apoiá-lo-ia nas primeiras eleições diretas no país – ficou fácil para Serra tornar-se czar da economia no estado e, depois de malogrado o plano urdido entre mineiros e paulistas com a morte inesperada de Tancredo, sagrar-se deputado constituinte por São Paulo.
Nas movimentações destinadas a articular sua candidatura, Serra atropelou um punhado de amigos que, desconhecendo o caráter daquele que haviam conduzido a uma posição de força no governo, preparavam suas candidaturas há mais tempo. Dentre eles o ex-secretário das finanças de Covas na Prefeitura Denisard Alves e o próprio Montoro Filho.
Depois de traído, Montoro Filho, a quem Serra tudo devia de sua carreira política, foi solenemente esquecido pelo amigo em todos os postos que este ocupou. Inclusive o de governador. Montorinho, como era conhecido, só voltou a posições de mando no governo do estado pelas mãos de Covas em gratidão ao fato de seu pai tê-lo nomeado prefeito de São Paulo 10 anos antes.
Engana-se por essa razão o PSDB em tomar a defesa de Serra no episódio dos recursos ilícitos trazidos por ele e sua família desde paraísos fiscais, como notícia o livro Privataria Tucana.  Primeiro porque o dinheiro internalizado não foi proveniente apenas das privatizações realizadas durante o governo FHC, mas também de sua passagem pela secretaria do planejamento de São Paulo quando era peemedebista e não tucano.
Ademais, Serra nunca deu nada ao PSDB senão que dele se alimentou o tempo inteiro. Como verme num corpo que haverá de abandonar depois que mais nada puder extrair.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Conversa de Playboy



Esse moço Aécio é engraçado mesmo. Na tentativa de desenhar uma chapa para as eleições de 2014 que pareça minimamente viável e com isso poder cacifar-se em seu partido e junto ao espectro de forças mais conservadoras da política brasileira, prega uma eventual aliança com o governador de Pernambuco Eduardo Campos, do partido socialista brasileiro.
Exceto pelo fato de serem netos de políticos conhecidos, os dois homens são em tudo diferentes. Dos traços pessoais ao que representam.
Enquanto Aécio é um dandy carioca, com domicílio em Belo Horizonte apenas por conveniência política já que só lá é visto como herdeiro de Tancredo Neves, Eduardo Campos é um laborioso político da nova geração que obteve o merecido reconhecimento dos nordestinos, elegendo pelo seu partido seis governadores.
Não se fez sendo amigo de banqueiros e de gente famosa, buscando com isso passar por moderno, o que quer que isso signifique. Empunhou a bandeira do desenvolvimento de todo o nordeste e em sua parceria com o ex-presidente Lula logrou fazer da região o que se convencionou chamar de a China brasileira. Levou para o esquecido nordeste fábricas, portos, ferrovias, siderúrgicas e refinarias.
Graças a esses investimentos, que ele e outros governadores nordestinos atraíram para a região, a participação do nordeste no produto interno brasileiro, estagnada em 12,5 % do produto interno brasileiro, voltou a crescer para algo próximo aos 15 % em 2011. Um recorde impressionante para o curto período de meia década, se considerada a série de dados do IPEA coligida desde 1939.
Ao contrário de Aécio, Campos não têm compromissos com oligarquias retrógradas. Seu sucesso deveu-se exatamente ao combate que deu a elas, como o exemplifica o isolamento a que submeteu em seu estado o ex-coronel e agora presidente do PSDB Sérgio Guerra.
Principal aliado no nordeste do mais iminente nordestino vivo, Luis Inácio da Silva, o neto do guerreiro Arraes sabe que o futuro lhe acena com o sucesso e o que menos precisa nas próximas eleições é associar seu nome ao de um cafajeste, cujo propósito último é tomar de empréstimo o prestígio de que desfruta para fazer a si mesmo presidente da república.

Segue matéria públicada na edição de 24/12/2011 do jornal O Estado de São Paulo sobre o assunto

Aécio quer parceria com PSB em 2014

Senador tucano defendeu uma aproximação com o partido do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tendo em vista a disputa pelo Palácio do Planalto

BELO HORIZONTE - O senador Aécio Neves (PSDB-MG) assumiu nesta sexta-feira, 23, a possibilidade de seu partido tentar uma aproximação com o PSB para a corrida pela Presidência da República em 2014. Cotado como um dos principais nomes do tucanato para disputar a sucessão presidencial, o senador lembrou que os socialistas atualmente integram a base do governo, mas ressaltou que "em 2013 ou em 2014 as coisas podem estar diferentes".

O PSB tem ganhado espaço no cenário nacional e conseguiu eleger seis governadores no ano passado, sendo quatro deles no Nordeste, região em que o PSDB tem dificuldade de penetração e que deu expressiva votação para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e para a atual presidente Dilma Rousseff. E o presidente nacional socialista, o governador Eduardo Campos (PE), também é tido como um nome que pode ter peso decisivo na balança da sucessão presidencial.

Aécio ressaltou que é preciso "respeitar a posição" do PSB, atualmente um dos mais fiéis aliados do Palácio do Planalto, mas lembrou que o PSDB já tem proximidade com os socialistas em várias cidades, como em Belo Horizonte, onde os tucanos vão reeditar uma coligação com petistas em torno da reeleição do prefeito Marcio Lacerda (PSB). Para expandir essa aliança ao cenário nacional, porém, o senador acredita que os tucanos precisam apresentar "um projeto que signifique expectativa de poder, um modelo novo para o Brasil".

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

As consequências de trair a CPI




O partido dos Trabalhadores encontra-se diante de uma grande oportunidade e um grande risco. Ambas as possibilidades decorrem das escolhas alternativas que fizer com relação à CPI das Privatizações, que em prazo recorde teve o pedido formulado por um número de assinaturas mais que suficiente para sua abertura e o registro deferido pelo presidente da Câmara Marco Maia.
Se disserem não à CPI, a primeira de iniciativa das esquerdas, os petistas estarão dizendo adeus à credibilidade granjeada em mais de 25 anos de lutas contra os desmandos dos donos do poder no País, como foi discurso recorrente desde que Lula candidatou-se pela primeira vez à presidência da República.  
Isso porque não se trata de uma CPI qualquer, tampouco de uma simples instância jurídico – parlamentar criada para dar vazão aos jogos de pressão e contrapressão que envolvem a rotina do parlamento. Trata-se da culminância de 3 décadas de esforços de militância que deram o comando do País ao partido dos trabalhadores e fizeram da sua bancada a maior do Congresso nacional.
Essa CPI não pertence ao PT, mas sim aos seus eleitores e apoiadores os quais combateram nas mídias sociais pela sua constituição. Um golpe branco contra sua instauração será um golpe na confiança que a juventude e os trabalhadores depositaram no partido como instrumento capaz de servir às mudanças que se acredita sejam necessárias ao País.
Se disserem sim à CPI, os petistas estarão se credenciando junto às novas camadas sociais que, por intermédio da ação partidária, assistiram a oportunidade de disporem de um partido apto a romper com a manipulação dos partidos populistas que utilizaram historicamente as camadas populares como massa de manobra para a preservação do “status quo”.
Poderão ainda firmarem-se como instância de poder independente do governo. Pois se o governo, em função da missão institucional de que está imbuído, tem o papel de representar a todos os brasileiros, adeptos ou não da sigla que o elegeu, o partido tem a missão de travar o combate político e influenciar o mesmo governo para que prossiga com as mudanças que correspondam aos interesses das classe e dos setores de classe que lhe emprestam perfil ideológico.
As forças políticas, nas ruas e nas mídias sociais de que se valeram para que a situação chegasse até aqui, devem intensificar a pressão para que não ocorra um acordo de bastidores que salve a face daqueles que têm algo a perder com o aprofundamento das investigações.
Pela primeira vez as novas forças políticas que emergiram nos últimos 10 anos de governo das esquerdas coesionaram-se para a tomada de iniciativa política que julgam traduzir uma conquista estratégica de seus embates políticos. Traí-las trará graves prejuízos aos conspiradores.

Vem aí a CPI do Serra




O silêncio sepulcral mantido até agora pelos principais veículos de comunicação do País com relação ao livro que aponta desvios de recursos das privatizações realizadas no governo Fernando Henrique em benefício de alguns de seus principais integrantes, dentre deles José Serra, começa a dar lugar a comentários comedidos sobre o conteúdo da obra.
O motivo é o registro de pedido de CPI na Câmara dos deputados que contou com 185 assinaturas de parlamentares, 14 mais que o quórum exigido para iniciativas desse tipo. A comissão de investigação só deverá ser instalada no início do ano que vem, mas alguns de seus efeitos já podem ser antecipados.
O principal deverá ser o encerramento da carreira política do ex-governador de São Paulo José Serra que à revelia de seu partido montou o esquema ilícito de enriquecimento pessoal.
Documentos oficiais que ilustram o livro mostram que até a casa em que mora hoje Serra está em nome de sua filha, Verônica Serra, principal envolvida com o escândalo. Além desse imóvel, há outros em nome de parentes seus no litoral Sul da Bahia, inclusive uma ilha.
Para essas imobilizações deve ter contribuído a atuação do secretário de meio ambiente de Porto Seguro à época (2006-2008), o geógrafo Beny Ricardo Pontes Abreu que depois de deixar o cargo naquela cidade foi admitido na estatal paulista DERSA na gestão de seu padrasto , então presidente da empresa, Thomás de Aquino Nogueira, amigo e também indicado por Serra.
Outra conseqüência da CPI será o de revelar a parcialidade e partidarismo com que se guia o noticiário das principais emissoras de TV do Brasil, que se recusaram a noticiar até mesmo o fato jornalístico de o livro com as denúncias figurar como o mais vendido das últimas semanas, com a primeira edição esgotada em 48 horas.
Para além dos desdobramentos políticos de mais curto prazo que se espera de qualquer investigação desse tipo, a abertura da CPI deverá constitui o registro para a posteridade do momento em que as mídias sociais deixaram de se alternativas e passaram a constituir instrumento de fato de mudança da realidade política do País.

A avenida Paulista e o espírito dos tempos


Não é bonito um País em que as pessoas ascendem e tem mais oportunidades? Vejam o que acontece com a Avenida Paulista. Antes antro de marginais com imóveis de seu entorno em ritmo acelerado de depreciação, hoje a Paulista recebe dezenas de milhares de pessoas todas as semana para passeios noturnos.
A mídia tem noticiado esse afluxo de público, que extravasa as calçadas e alcança as pistas prejudicando o trânsito de veículos, como efeito das festas natalinas. Não é. Trata-se de certa disposição de espírito que leva as pessoas a se confraternizarem e darem a si mesmas e àqueles com que convivem um pouco mais de prazer.
É certo que na origem dessa atitude está a sensação de bem estar econômico. Mas é um sentimento que a excede. Envolve confiança no futuro, segurança pessoal, resgate do orgulho próprio e uma reelaboração das alteridades com quem se compartilha experiências: os vizinhos, o governo, os amigos e os parentes.
Como se chega a isso é questão reservada a diferentes especialidades e não apenas a sociólogos e economistas. Até a religião parece ter algo a dizer sobre esse novo momento, o que explica o sucesso de marchas com Jesus e outros encontros místicos que envolvem confraternização.
Quando o espaço público volta a ser referência de socialidade e as classes pobres deixam de imitar as mais ricas acorrendo aos “shoppings” é porque o País está mudando para melhor.
Retorna-se a um tempo que parecia superado do pipoqueiro e do algodão doce. Em que o prestígio de alguém se media menos pelas sacolas de compras carregadas nos braços e mais pelas vezes que se dizia boa noite.
Essa mudança de comportamento não deixa de ser também uma recusa ao confinamento produzido pela TV e que se soma a outras tantas que, como a adesão às redes sociais, tem como efeito a queda dos índices de audiência de que dependem as emissoras para a venda de espaços publicitários a anunciantes.
Por isso não noticiam esses novos tempos, preferindo uma interpretação economicista das suas causas enquanto vaticinam o improvável dilúvio que devolverá todos ao sofá.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O perigoso flerte de Dilma com o inimigo


“Você está destruindo nossa relação!” É essa a acusação que com frequência uma parte levanta contra outra quando o relacionamento não caminha bem. Aí costuma ser tarde demais para reverter a sucessão de fatos que levam das desavenças à desconfiança e desta ao rompimento definitivo.
 A convivência entre a imprensa e os governos populares na América latina não tem escapado  a esse padrão de relacionamento.  Onde quer que governos progressistas tenham chegado ao poder e tenham mostrado disposição de mexer no sistema de privilégios historicamente existentes , reproduziu-se a guerra declarada dos grandes grupos de comunicação locais contra as autoridades legitimadas nas urnas.
Via de regra, esses confrontos cumpriram o papel político de caracterizar esses governos como antidemocráticos. Sendo a imprensa livre um patrimônio das sociedades que emergiram da revolução francesa, a criação de tensões nas relações entre imprensa e governos permite que se marque esses últimos como autoritários e refretários ao jogo democrático.
Estigmatizar governos como cerceadores da liberdade de expressão, na estratégia entabulada pelas forças comprometidas com a manutenção do “status quo”, cumpriu a finalidade de inscrever toda e qualquer tentativa de mudança na injusta repartição de riqueza entre classes sociais no rol das ameças difusas aos direitos de propriedade, contribuindo para a arregimentação de forças para derrubá-los, seja pelo voto ou não.
Nesse movimento deliberado para atrair apoio político de grupos desprendidos do assalariamento e identificados com o ideário das classes médias, as emissoras de TV substituiram-se aos partidos políticos conservadores na reconquista dos segmentos sociais antes atraídos pelas políticas inclusivas de governos populares.
O exemplo notório no continente desse percurso de ativismo dirigido contra governos eleitos pode ser identificado nos episódios que cercaram o apoio ao golpe militar e depois o fechamento de importante emissora de televisão durante os governos Hugo Chaves na Venezuela.
Sem que se apele à eventual simpatia por governos populista à espécie de Chaves, parece claro hoje a qualquer historiador que quando faltaram exércitos e partidos políticos para fazerem frente aos processos de mudança instaurados por governos eleitos, grupos dominantes locais interpuseram a imprensa como última trincheira de resistência às reformas econômicas que buscaram tornar mais equânime a distribuição dos ganhos obtidos nas indústrias extrativas e mineradoras locais.
Outro caso de conflito desenrola-se na vizinha Argentina onde o governo interferiu no controle que os principais grupos que o antagonizam na mídia, El Clarin e La Nacion, detinham sobre a indústria de papel-jornal, o qual vinha sendo usado para dificultar o acesso à matéria prima por parte de grupos jornalísticos alinhados ao governo.
No Brasil não se chegou a esse estágio no conflito latente que se desenrola entre governo e meios de comunicação, mas os principais grupos jornalísticos do País – Folha de ao Paulo, O Estado de São Paulo e o Globo – deram início desde meados deste ano a uma marcha da insensatez que prognostica desdobramentos preocupantes.
Estão se acumulando numa velocidade impressionante fatos que em algum momento tranbordarão o dique de cordialidade que tem impedido o rompimento desses conglomerados midiáticos com o governo sustentado pelo partidos dos trabalhadores.
Primeiro foram as revelações feitas pela mais influente figura dos últimos 30 anos na programação da TV Globo, Bonifácio Sobrinho, de que a emissora teria interferido nos resultados das eleições de 1989 por meio da  manobra para que fosse anulada a vantagem detida pelo líder operário Luis Inácio da Silva sobre seu oponente Collor de Mello na primeira eleições livres do país.
Mais recentemente foi o boicote a que se submeteu o livro “Privataria Tucana”, em que é apontada manipulações promovidas nas privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso de que se beneficiaram o partido, a campanha e a família do candidato de então daquele governo, o ex-ministro José Serra.
O fato, contraposto à campanha insidiosa que vem movendo a emissora para pespegar no governo Dilma a marca da corrupção mediante a acusação contra colaboradores de primeiro escalão, teve o condão de revelar o tratamento díspare dispensado pela mídia aos escândalos protagonizados pelos seus e os que envolvem o situacionismo.
À Dilma tem sido conveniente até o momento contemporizar com a ação desestabilizadora dos veículos de comunicação, porque o desgaste tem paradoxalmente alcançado mais os partidos da base de apoio que o seu governo, por causa de uma conjuntura econômica favorável e da penetração social das novas mídias baseadas na internet.
É certo que a presidente tentará resistir ao tensionamento que a reação do PT produzirá . A tentativa de desestabilizar um dos ministros de sua cota, Fernando Pimentel, parece ter chamado a atenção da mandatária de que cachorro bravo é fiel ao seu dono e o proprietário desse cão raivoso é socialdemocracia brasileira, o PSDB, que quer apeá-la do poder já em 2014.
A tempestade está se armando sobre o horizonte político e a presidente pouco poderá fazer se a tormenta cair de uma vez, findo o bônus de carisma que lhe transferiu Lula da Silva. Quando esse momento chegar não poderá a presidente abrir mão nem do apoio que encontrou em ativistas das novas mídias nem do partido que lhe levou ao palácio do planalto no ano passado.
Aí  estão já postos dois eventos  que poderão roubar-lhe o chão sobre o qual equilibra a relação com seus antagonistas: uma CPI, que uma vez instalada lancetará o tumor escondido nas privatizações da era FHC, enfurecendo a ele a seus aliados na mídia; e a regulamentação do dispositivo constitucional destinado a dar maior  representatividade ao modelo de exploração dos meios de comunicação, forjado pelo golpe militar de 1964.
Do jeito que a coisa vai não demorará a que a presidente tenha que optar entre a sedução dos inimigos e a lealdade dos amigos. Os primeiros, dando curso ao inefável instinto que os guia, não deixarão escolhas. Como pôde constatar Lula a duras penas naquilo que ficou conhecido como "escândalo do mensalão". 

A presidente descobrirá que na guerra não há lugar para flertes com a oposição porque, já o dizia Carl Clausewitz, ela é a política por outros meios.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A aprovação ao governo Dilma


Causaria perplexidade a qualquer estrangeiro que tendo acompanhado a balbúrdia das denúncias envolvendo demissões de ministros no governo federal viesse tomar conhecimento dos números da pesquisa CNI-IBOPE sobre a aceitação do governo e o prestígio da presidente da República.

Os percentuais são os mais altos já registrados por um presidente eleito em primeiro ano de governo, coisa da ordem de 65% na média entre os dois números. Do fato surgem perguntas inevitáveis que a oposição ao governo instalado em janeiro de 2011 deve estar se fazendo nesse momento.

Teria sido a força emprestada pelo carisma de Lula, quem sabe sua doença? Teriam sido os resultados benfazejos da economia ditados pela sorte? Ou seria a causa de tudo uma maioria situacionista esmagadora no congresso que faria a voz da oposição soar como radinho com pilhas fracas na multidão?

Embora todos os fatores possam ter dado alguma contribuição aos achados da pesquisa, a explicação mais plausível é também a mais prosaica. Incapacidade de fazer oposição pela limitação própria à lógica do pensamento liberal. 

Tendo se encantado com a capacidade ordenadora dos mercados, a socialdemocracia – que tinha tudo para inaugurar um ciclo de poder duradouro no país (os 20 anos de que falou o alter-ego de FHC Sérgio Mota) – deixou  de fazer o que as forças vivas da sociedade dela esperava : apoiar medidas que levassem à superação do níveis inaceitáveis de miséria no Brasil e ao estabelecimento de uma política de desenvolvimento nacional que reposicionasse o País no concerto das grandes nações do mundo.

A todas essas transformações do panorama histórico a socialdemocracia ignorou. Influenciada por gente ligada ao meio financeiro,  seu discurso apequenou-se na desconfiança das políticas de estado, na fé cega nos mercados e na reclamação de haver sido expropriada de seus políticas pelos adversários.

Ignorou a base social de pardos e negros que compõem o substancial da população brasileira, sem se preocupar com o português das ruas. O pouco que fez foi a título de benemerência, sob a coordenação de Ruth Cardoso.

Para impedir o fenômeno Dilma os socialdemocratas sequer defenderam Fernando Henrique nas campanhas eleitorais que sucederam o fim melancólico de seu governo. Tampouco podiam. Intuiam que com sua defesa pouco teriam a dizer à maioria da população brasileira. Descreram do País e da sua gente, agora pagam o preço.

Editora de política do Valor Econômico chama imprensa de partidária





Artigo da jornalista Maria Cristina Fernandes do jornal Valor Econômico coloca o dedo na ferida com relação ao silêncio que a mídia faz sobre o livro “Privataria Tucana”, cuja primeira tiragem esgotou-se em 48 horas. 

Nota que a discrepância entre a movimentação na internet causada pela obra e os registros do caso na imprensa denota partidarização dos meios de comunicação.

Ela chama a atenção dos leitores para o fato de que o assunto explorado pelo livro é menos partidário do que o uso que se vem fazendo dele. Se Amaury foi indiciado pela polícia federal por envolvimento em bisbilhotagem nas eleições passadas, isso não desmerece seu depoimento mais que o de outros denunciantes que em escândalos pregressos tiveram suas denúncias amplamente repercutidas na imprensa desde que o acusado fosse o partido no governo.

O que não se justifica é que os documentos oficiais trazidos pelo livro, e que envolvem as duas principais siglas que se antagonizam na política brasileira, permaneçam ignorados por conveniências partidárias de momento. Isso mais uma vez, porque desde que apareceram em 2003 no curso da CPI do Banestado deveriam já ter servido para que as autoridades monetárias disciplinassem o fluxo de divisas ilegais que saem e chegam ao país por meio de mecanismos de lavagem de dinheiro.

Diz ainda a jornalista que essas providências só não foram tomadas à época devido a um acordo tácito entre aqueles 2 partidos para que tudo permanecesse quieto, devido a uma conjuntura  política em que o governo Lula ainda se firmava em meio a desconfiança dos agentes econômicos.

O posicionamento da editora, registrado no principal veículo de negócios do País, bate como bigorna aos ouvidos daqueles que, pensando contornar fatos jornalísticos pela omissão, acabam por colocar sob risco a credibilidade da imprensa brasileira como um todo. Conclui que os documentos trazidos pelo livro devam sim ser investigados, porque isso dará ao País a oportunidade de instituir mecanismos anticorrupção pelos quais a sociedade espera .

Segue a matéria publicado na edição do jornal Valor Econômico de 16/12/2011


O dinheiro sem carimbo e os partidos
Por Maria Cristina Fernandes
Deputado cassado e presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson é réu no inquérito do mensalão. Responde pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Policial Militar no Distrito Federal, João Dias está preso. Agrediu um sargento que tentava contê-lo no Palácio do Buriti onde entrou com um pacote de R$ 159 mil em espécie.
Jornalista e ex-assessor da campanha petista em 2010, Amaury Ribeiro Jr. foi indiciado pela Polícia Federal por quatro crimes: violação de sigilo fiscal, corrupção ativa, uso de documentos falsos e oferta de vantagem a testemunha.
Com a denúncia de que o governo Luiz Inácio Lula da Silva pagava mesada a sua base parlamentar, Jefferson provocou um dos escândalos políticos de maior repercussão da história da República. Com a acusação, da qual voltaria atrás na defesa apresentada por seus advogados no Supremo, Jefferson pôs em risco o mandato de Lula e levou 40 réus a serem arrolados no Supremo Tribunal Federal.
Pela denúncia de que recursos públicos destinados a um programa de formação de núcleos esportivos em escolas públicas estavam sendo desviados para Ongs ligadas ao PCdoB, Dias precipitou a queda do titular do Ministério dos Esportes, Orlando Silva, um ex-presidente da UNE que estava no cargo havia cinco anos.
Tanto PSDB quanto PT mantiveram lavanderias em ação
Jefferson e Dias denunciaram esquemas ilícitos dos quais foram participantes. A valoração, pela Justiça, de depoimentos de suspeitos e até criminosos condenados, deu curso ao instituto da delação premiada.
A suspeição que recaía sobre ambos não impediu que os depoimentos de Jefferson e Dias, com ampla divulgação nos meios de comunicação, tivessem desdobramentos políticos e jurídicos significativos.
É com base nesses precedentes que cresce, na internet, a indignação com os escassos desdobramentos nos jornais e nos meios políticos das denúncias publicadas pelo jornalista Amaury Ribeiro no livro "A Privataria Tucana" (Geração Editorial, 344 páginas).
Contratado como elo da assessoria de comunicação da campanha petista e o universo da arapongagem, o jornalista foi indiciado no inquérito que apura a violação do sigilo fiscal de dirigentes tucanos e familiares do ex-candidato à Presidência, José Serra.
O livro é uma compilação de documentos que sugerem lavagem de dinheiro da privatização. O autor revela vínculos entre muitos dos personagens que estiveram ligados à venda das estatais, às campanhas do PSDB e à família de Serra, mas, apesar da farta documentação, não encontra carimbo no dinheiro lavado. Talvez pela simples razão de que o jornalismo não é dotado de meios policiais e jurídicos para identificar o carimbo.
Muitos personagens dos governos do PSDB e do PT que enriqueceram às custas de tráfico de influência e informação privilegiada passaram incólumes pela imprensa porque embolsaram dinheiro lavado. Uma única operação da Polícia Federal apurou que entre 1996 e 2002, no auge das privatizações, evadiram-se U$ 30 milhões pelas chamadas contas CC5, criadas pelo Real para liberalizar o fluxo de capitais.
Muito mais fácil do que identificar o carimbo nesse dinheiro é descobrir e, com toda razão publicar, a história de um ministro que um dia teve duplo emprego.
A indignação de internautas questiona por que os jornais que já execraram a família de Lula não se ocupam em seguir as pistas dos familiares de Serra que o livro revela.
Num tempo em que se derrubam ministros como quem preenche uma cartela de bingo talvez esteja fora de moda lembrar que o jornalista pode achar que apura como um promotor e julga como um magistrado, mas o jornal não tem como abrigar plenamente o direito de defesa e, por isso, não substitui a Justiça.
Isso não desmerece a reportagem. Muito pelo contrário. O valor do jornalismo investigativo está em identificar os interesses em disputa e revelá-los ao público. Propagar unicamente a munição que vem de um dos lados é partidarismo.
O livro é menos partidário do que o uso que se faz - e não se faz - dele. Depois de ter chegado às livrarias na última sexta-feira, teve sua primeira edição esgotada em 48 horas. O espaço que lhe dedicam os blogs é inversamente proporcional à centimetragem impressa. No fosso entre uma e outra abordagem está a constatação de que face às chances de se identificar o dinheiro carimbado, tanto tucanos quanto petistas preferiram deixar as lavanderias funcionando.
Boa parte da documentação de que se vale o livro é originária da CPI do Banestado, instalada no primeiro ano do governo Lula. Se houvesse real interesse em pôr freio à lavagem, ali teria sido o momento.
O volume de informações fiscais, bancárias e telefônicas levantado por aquela comissão foi mais do que suficiente para se fechar o ralo. Mas o relator (José Mentor), petista, ocupou-se em tentar incriminar o ex-diretor do BC, Gustavo Franco, pela liberação da remessa de recursos para o exterior sem a identificação do remetente. Deparou-se com o presidente da comissão (Antero Paes de Barros), tucano, disposto a sugerir o indiciamento do então presidente do BC, Henrique Meirelles, por ter se utilizado de uma conta de doleiros para transferir U$ 50 mil para o exterior. O resultado é que dois relatórios foram apresentados e nenhum foi aprovado.
Nos documentos da CPI já se viam as digitais do Rural, o que não impediu que o banco fosse o escolhido para a lavanderia do mensalão. Visadas, as agências de publicidade pouco a pouco foram cedendo espaço aos escritórios de advocacia na intermediação do dinheiro que a política busca esquentar.
No projeto de lei sobre lavagem de dinheiro que tramita no Congresso, a OAB faz pressão contra o artigo que obriga os advogados a revelar a origem dos recursos com que seus clientes pagam os honorários advocatícios. E encontra defensores de PT a PSDB.
Mesa de ontem no Casserole, centro de São Paulo, reunia o ex-diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira, um dos principais personagens do livro, o ex-ministro da Casa Civil do governo Fernando Henrique Cardoso, Clóvis Carvalho, e o advogado José Carlos Dias.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Urubú no litoral: grupo de Serra nomeou em Porto Seguro



Parte da grana das privatizações de que se apropriou a turma de Serra foi investida em imóveis na chamada costa do descobrimento, mais especificamente em Porto Seguro no litoral da Bahia.
É do livro recentemente publicado A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Junior, a informação de que Gregório Preciado, genro do ex-governador de São Paulo, e a filha deste Mônica Serra possuem imóveis suntuosos nessas paragens de rápida valorização de terras.
Mas não foram apenas propriedades particulares que o grupo foi buscar na região. Buscou também investimentos imobiliários para dar legalidade à recursos trazidos de paraísos fiscais. Os negócios preferidos foram resorts de padrão internacional por meio de empresas de participações com sede em São Paulo.
Na administração do governador do estado Paulo Souto os operadores de Serra conseguiram transferir áreas públicas, desapropriar terras e expulsar famílias para viabilizar a implantação de grandes empreendimentos hoteleiros, como foi o caso da ilha do Urubú.
A ilha é uma valiosa extensão de 160 hectares de terras de que o grupo apropriou-se depois de uma operação de transferência de titularidade feita pelo estado para os antigos posseiros e depois  adquirida pelos paulistas por valor vil. Comprada por cerca de 250 mil reais a propriedade é avaliada hoje em mais de 7 milhões de reais.
Para facilitar as operações em áreas de relevância ambiental, ocupada por remanescentes de populações indígenas e por causa disso tuteladas pelos órgãos federais de meio ambiente, o grupo ligado a Serra conseguiu nomear em 2006 para a secretaria de meio ambiente do município de Porto Seguro o geógrafo  Beny Ricardo Abreu.
Beny é parente de Thomaz de Aquino Nogueira Neto ex-presidente da estatal paulista DERSA, que conduziu as obras do Rodoanel entre 2007 e 2009. Seu papel à frente do organismo municipal foi viabilizar licenças e trâmites burocráticos facilitados para as operações envolvendo a ilha do urubu e outros recantos visados por aqueles que o nomearam.
Obrigado a abandonar o cargo devido à eleição de Jaques Wagner para o governo baiano e ações ajuizadas pelo ministério público federal em razão de haver autorizado a instalação  de empreendimentos imobiliários em áreas  vedadas pela legislação ambiental, o ex-secretário foi alocado na empresa dirigida pelo padrasto Thomaz de Aquino em São Paulo.
Uma das ações civis públicas em que Beny é réu foi movida pelo Ministério Público Federal contra o Município de Porto Seguro e a empresa Trancoso Porto Livre Empreendimentos Imobiliários Ltda, pela concessão de autorização para a supressão de vegetação nativa nº 1064/2006 sem exigência de estudos ambientais prévios.
O desmatamento de 42 hectares de matas virgens beneficiaria as obras de construção do hotel-boutique Txai  Trancoso cuja instalação estava prevista junto à foz do rio Trancoso, onde predominam manguezais, brejos e restingas.
Já na estatal DERSA,  Beny Ricardo atuou primeiramente no desmatamento da faixa de domínio do Rodoanel e depois no malogrado plantio compensatório das obras das marginais do Tietê que consumiram 80 milhões de reais mas cujos resultados foram tão desastrosos quanto os produzidos no litoral da Bahia, com a perda de mais de 50% das mudas plantadas.     

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A Cracolândia é Aqui


Parecia até que não era com a gente essa coisa da instabilidade crônica e do persistente risco do empobrecimento. Afinal nos últimos 150 anos tivemos uma mobilidade social esplêndida e a maioria de nós vive melhor hoje do que viviam nossos antepassados há não mais que um século atrás.

Passamos acreditar, e nos fizeram acreditar, que se trabalhássemos duro e pagássemos as contas em dia, vivendo com moderação e guardando algo para o futuro teríamos pela frente um caminho virtuoso em que a situação presente seria nada mais que um degrau adiante do passado recente.

Porque os mercados selecionariam os mais esforçados e meritosos, recompensando-os com o perfeito controle sobre suas próprias vidas e o seu trabalho. Essas convicções germinaram primeiramente na sociedade vitoriana inglesa do século retrasado e chegaram ao seu apogeu na década dos 80 passada, quando a idéia daquele que “se fez por si mesmo”, sem o patrocínio de heranças, estaria ao alcance de quem o pretendesse.

Afinal a queda dos muros ideológicos que separavam os que pensavam qual ordem social seria mais adequada à felicidade e ao bem-estar das populações havia deixado um único modelo estabelecido, tratando-se apenas de decidir com relação a este o grau de ajuste necessário entre espaços de ação ao livre mercado e de proteção aos menos aptos na disputa concorrencial, alguma forma de seguridade social.

E isso quando ia longe os alertas do primeiro e verdadeiro sapo barbudo, Karl Marx, que alertava a uma classe média recém chegada a uma era de afluência sobre a fluidez de tudo que a cercava, no manifesto que renderia ao mundo desde sua divulgação continuada pancadaria entre classes e grupos sociais, o Manifesto Comunista.

Errara Marx a natureza da ameaça que em 1848 lhe pareceu rondar o mundo. De lá para cá foram mais de 150 anos de prosperidade jamais imaginada por homens e mulheres ainda há 3 ou 4 gerações atrás: casa para a maioria, conveniências para todos e comida farta e barata em cada esquina, ainda que na forma de simples “hot-dog”.

Apenas que a idéia de segurança e prosperidade contínua a que fomos acostumados a esperar para nossas vidas já não é mais possível. O dinamismo cada vez mais veloz das forças produtivas engendradas pelo sucesso do capitalismo solapou as bases da estabilidade, que lhe garantiam o substrato ideológico responsável pela adesão dos amplos contingentes de classe média ao longo história.

A mudança tornou-se regra e o controle sobre o futuro escapou ao controle do indivíduo para nunca mais tornar. Os jovens que eram educados a prover para o futuro e a trabalhar duro, iniciam a vida endividados pela formação que tiveram de buscar para ingressar no mundo do trabalho. A mudança continuada de ocupações faz com que a transição de uma a outra delas seja coberta com os poucos fundos que sabiamente conseguem suprimir aos bares e à vida noturna.

Não há mais futuro, não há mais segurança. A casa, única reserva de riqueza que poderia reivindicar um cidadão de classe média, desvaloriza-se a cada década diante da escassez do crédito que impulsionaria o mercado para frente.

O carro, a jóia, o dólar, nada mais funciona como reserva de valor, da mesma forma como deixou de funcionar uma vez o controle sobre linhas telefônicas como guarda de valores. Vai se vivendo cada dia, sem projeto de futuro e sem quaisquer certezas do que poderia ser feito para escapar à crescente precarização da vida cotidiana.

O “homem do saco”, morador de rua com que aterrorizavam os adultos nossa infância distraída é, em estado limite, o precarizado pela instabilidade com que nos acena o futuro. O despossuído, o desenraizado, esse parece ser o paradigma de indivíduo do futuro. Um paradigma a temer, não um paradigma a ansiar.

Eis que o capitalismo engendrou sua própria doença e a fluidez de uma sociedade em permanente mobilidade interna, que Marx disse arruinaria aqueles a quem chamava de burgueses, a classe média de agora, virou fato consumado diante dos olhos.

Esperamos pela crise do dia seguinte, envolvidos em disputa impossível de ser vencida contra um tempo que nos lança continuamente à obsolescência, matando-nos ou de stress ou de depressão.  Ao mesmo tempo em que nossos filhos, a reprodução da força de trabalho com que contava o sistema para perpetuar-se, se detêm em qualquer  “cracolândia” dissimulada por aí.

Talvez a explicação simples mas chocante seja a de que o capitalismo precise hoje menos deles, como precisa menos de nós. Algo precisa ser feito com urgência.  

domingo, 11 de dezembro de 2011

Ave em extinção?



Pesquisa divulgada pelo jornal Folha de São Paulo sobre as eleições municipais de 2012 dá uma idéia do grau de descrédito que se abate sobre o principal partido de oposição ao governo federal na mais importante cidade brasileira.
O indicador desse desprestígio é José Serra. O nome do ex-candidato a presidência da república pelo PSDB descamba dos mais de 40% dos votos obtidos nas últimas eleições para pífios 18%. A queda na aceitação do ex-candidato é impressionante se se considera o fato de mal haver saído de uma campanha nacional na qual teve exposição máxima.
Porém, mais eloqüente que o baixo prestígio é a rejeição ao ex-candidato, que chegou aos 35% dos eleitores pesquisados e ultrapassou em 5% o percentual que os especialistas julgam tornar uma candidatura inviável.
Os outros nomes tucanos tampouco se saem melhor. Bruno Covas, secretário do meio ambiente é o que mais se destaca com 6% dos votos. Os demais não pontuam mais que 2% da preferência do eleitorado.
O quase impúbere candidato Covas já enfrenta, no entanto, dificuldades para usar o nome do avô devido ao seu noticiado envolvimento com o escândalo das propinas na Assembléia Legislativa de São Paulo e com a tentativa de aplicação do esquema da inspeção veicular em 126 municípios do estado de São Paulo.
De outro modo, mas espelhando o mesmo fenômeno de perda de credibilidade do partido que governou com Kassab a capital até bem pouco tempo, o PSDB vê crescer a influência tanto de Dilma quanto do ex-presidente Lula. No estado, Dilma já ultrapassa em popularidade Alkimin com 51% de aprovação contra 48% do governador; e entre os paulistanos, quase 55% dizem que votariam no candidato indicado por Lula a prefeito.
Como desgraça pouca é bobagem, conforme o dito popular, também a moralidade, principal mote eleitoral de todas as campanhas do partido dos tucanos, parece ter-lhes sido arrancado definitivamente à boca. Acaba de chegar às livrarias obra jornalística que revela a prática de desvios de recursos públicos, enriquecimento ilícito e indícios de formação de quadrilha por parte de importantes nomes dos quadros da sigla durante as privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso.
Nessas circunstâncias, têm peso de análise sociológica profunda as palavras de FHC sobre os percalços enfrentados pelo partido que ajudou a fundar: o futuro do PSDB é mais incerto que o futuro do euro, disse ele.
Talvez não se referisse à moeda européia mas a outro tipo de euro, o eurocomunismo: proposta altissonante de projeto político de tipo socialdemocrata que, a exemplo do neoliberalismo atual, começou a fazer água com o descrédito de seus principais fiadores, Enrico Berlinger e George Marchais.   


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Preto no Branco



O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso valeu-se do comedimento próprio à sua idade avançada quando decidiu, na tarde de do dia 9 de dezembro, cancelar a noite de autógrafos que faria no Shopping mais luxuoso de São Paulo a fim de lançar livro de sua autoria.
O motivo, soube-se logo depois, devia-se ao receio de que fosse obrigado a dividir os holofotes com o lançamento de outro livro nada meritório para sua memória como ex-presidente.
No mesmo dia chegava às livrarias o livro A Privataria Tucana do jornalista Amaury Ribeiro, em que é feito um relato minucioso de que como as privatizações ocorridas sob o governo FHC prestaram-se ao enriquecimento de figuras ligadas aos principais nomes do PSDB, notadamente José Serra e o próprio ex-presidente.
Passagens interessantes são descortinadas à vista do leitor para mostrar o papel de proeminência desempenhado no processo de privatizações pelo chefe mafioso Daniel Dantas e a ligação de família que este manteve com José Serra por meio de sua filha Verônica; e em contraponto à Dantas a ação criminosa do ex-diretor do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira, que atuava como articulador internamente ao governo.
O livro mostra que os esquemas de arrecadação atuaram em larga escala de modo a aproveitarem-se como enxame de abelhas do desmonte do aparato estatal de empresas públicas. Na área de petróleo atuou o próprio genro de FHC David Zylberstein, na de telecomunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, na área de eletricidade Gregório Preciado (primo de Serra) e na área financeira o mencionado Ricardo Sérgio.
O grupo, beneficiado com o silêncio da mídia repassou a grandes grupos nacionais e estrangeiros um patrimônio de pelo menos 1 trilhão de reais por pífios 90 bilhões. Para viabilizar as operações contaram com poderosos esquemas de espionagem montados pelo ex-delegado da polícia federal Marcelo Itagiba e com empresas de fachada estabelecidas em paraísos fiscais.    
Por meio de escritórios de consultorias, montavam consórcios de empresas para participar de leilões de privatização, que depois arrematavam as estatais subavaliadas por outro grupo de consultorias, estas com ramificações internacionais e vinculadas aos compradores.
A conseqüência foi uma empresa como a Vale do Rio Doce, que explora um patrimônio que é de todos brasileiros e absolutamente finito, as riquezas do subsolo brasileiro, ter sido arrematada por irrisórios 4 bilhões de dólares. Fração do lucro que a empresa gera hoje.
O livro é esclarecedor no sentido de mostrar que quem faz da moralidade hoje um mote para voltar ao poder mal consegue esconder o rabo peludo de diabo.

Trombini Acertou


Tamanho é o fogo cerrado do jornalismo econômico sobre a condução da política econômica que, ultimamente, fatos positivos têm sido vendidos como verdadeiros desastres. Justiça se faça ao Jornal Valor Econômico que em editorial (certamente para atender sua clientela da indústria) reconheceu que o Banco Central acertou de mão cheia as últimas apostas contra o chamado mercado.
Acertou e esse acerto haverá de tornar mais amena a vida dos brasileiros no próximo período.  As personalidades de sempre do mundo financeiro desceram o pau na autoridade monetária desde que esta, recusando a campanha movida por esses agentes, resolveu adotar, lá por agosto do ano passado, as medidas macro-prudenciais de restrição ao crédito.
 Consistem tais medidas na exigência de que os bancos comerciais aumentem as reservas mantidas junto ao Banco Central,  com a finalidade de conter o crédito via controles quantitativo de moeda e não por meio de mecanismo de mercado baseado na fixação de juros mais altos.
Não perdoaram a heterodoxia ao presidente do Banco Central porque antecipavam que o governo se empenharia a partir de então em fazer baixar as taxas de juros sem recorrer ao encarecimento do crédito para salvaguardar o lucro dos bancos.
Como todos sabem bancos gostam de criar moeda por meio do crédito. Desde que lhes preservem o patamar de juros estará tudo bem, porque podem ocupar-se apenas de controlar o quanto de moeda vão criar a partir de um piso alto de taxas de juros.
Aumentar o compulsório sobre s depósitos limita-lhes a liberdade de estabelecer o montante de empréstimos que podem conceder sem comprometer seus balanços de fim de ano. Algo semelhante à permissão hipotética que se desse à companhia de águas para cobrar uma tarifa mínima de R$500,00 dos seus consumidores e racionar a oferta de quem não se dispusesse pagá-la.
Por isso a grita geral quando o Banco Central efetivamente passou a baixar os juros. Acusaram-no de abdicar da sua autonomia para atender às conveniências do governo, que buscaria com a medida nada mais que aliviar suas despesas com juros para poder gastar em outras bobagens de custeio.
Foram além, fizeram troça da sabedoria econômica do presidente do Banco Central, recomendando-lhe que lesse mais sobre experiências internacionais e conversasse com entendidos da matéria.
Diante da ponderação de que baixar os juros seria crucial para o enfrentamento de uma conjuntura mais severa devido a crise na Europa, chegaram ao ridículo – como fez Luiz Carlos Mendonça de Barros – de argumentar que o governo agia com pessimismo demais em relação à crise no Velho Continente. Quase que roubando ao Lula a expressão “marolinha”, no esforço de convencimento dos agentes econômicos de que aquilo que é bom para os bancos é bom também para o Brasil.
Trombini não deu bola para a torcida e aprofundou a política de cortes de juros. Os resultados aparecem agora num esfriamento necessário da economia que, mesmo contida, haverá de galgar robustos 3,5% no final de 2011. Que traz ainda consigo o bônus de uma saudável reversão das expectativas inflacionárias para o centro da meta no curto prazo, 5,5%. 
Isso dá agora ao governo a possibilidade de ir temperando a demanda em direção ao nível que considere mais adequado em termos de custos alternativos de inflação e de emprego. É no contexto dessa busca por equilíbrio que devem ser interpretadas as medidas mais recentes de afrouxamento das condições de crédito  para bens de consumo da linha branca e dos critérios de ingresso de capitais estrangeiros no País.
 Graças à coragem de Trombini de recusar o receituário dos bancos para a política monetária, o Brasil vê ampliados os graus de liberdade com que pode contar para enfrentar os efeitos da crise internacional, que se aprofunda sim a despeito da argumentação irresponsável dos economistas de oposição.
Mais importante, os acertos do Banco Central provam que o sucesso do País pode prescindir da subserviência ao capital financeiro.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Solução de Respeito


É nos detalhes que está a diferença, reza o adágio que mimetiza outro bastante popular entre os chineses que diz não ser possível admirar flores de cima de um cavalo. O detalhe aqui se refere à forma como o governo federal vem conduzindo a negociação com os funcionários da Infraero para levar a cabo a privatização dos aeroportos brasileiros.
Assunto sensível em qualquer lugar, a desestatização do setor aeroportuário revela-se muito mais sensível que processo análogo conduzido nos setores já privatizados por envolver não só uma categoria organizada nacionalmente, a dos aeroviários, mas também o controle detido por militares desde que o primeiro avião decolou de um aeroporto brasileiro.
Fosse aplicada a receita válida para as privatizações do setor elétrico e de energia, nos moldes postos em prática pelo PSDB, haveria total desconsideração aos interesses dos trabalhadores e um trator de pista passearia sobre o que lhes dissesse respeito. Nesse caso seriam inevitáveis as greves e o agravamento do quadro de afunilamento do embarque de passageiros nos terminais aéreos.
Não foi isso que aconteceu. Pelo fato de manter relações políticas e institucionais em caráter regular com os sindicatos, o governo negociou com os aeroviários em sala junto ao gabinete da Presidente da República (como notaram os jornais, a simbologia do lugar foi importante) um acordo que contou com a adesão de toda categoria.
 Pelo trato, os trabalhadores dos aeroportos de Cumbica em Guarulhos, Congonhas em São Paulo e Viracopos em Campinas desistirão de greves contra o processo de privatização em troca de terem estabilidade de emprego até 2014, garantias de não terceirização dos serviços pelas concessionárias que explorarão os aeroportos e representação na gestão dessas empresas.
Poderão, contudo, contestar o processo pela via judiciária e política em todos os aspectos que julgarem relevantes. O contrário do que sucedeu com as privatizações selvagens da era FHC em que se despachava para as diretorias de empresas a serem transferidas ao setor privado agentes políticos para realizarem limpezas prévias, nas quais as lideranças sindicais eram desmoralizadas e a polícia acionada sempre que necessário.
O resultado era que, uma vez nas mãos de empresas privadas, suas cúpulas aprofundavam esse padrão de relacionamento subtraindo mais direitos e quebrando pela força a resitência dos sindicatos. Além do trabalhador, que acabava com salários aviltados, pagava a conta o consumidor na forma da precariedade dos serviços e a sucatização dos ativos, propiciada por representações sindicais pouco vigilantes.
É louvável, pois, a forma como vem sendo encarados os desafios trabalhistas na primeira onda de privatizações do governo de Dilma Russef. Um exemplo a ser seguido por aqueles que se julgam os pais da matéria. Lição que consiste em provar que é possível fazer o que tiver de ser feito em favor da qualidade dos serviços públicos respeitando-se àqueles que o executam, e não apenas pensando na conveniência dos empresários que pagam comissões.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

E o Brasil pode respirar sem a China





Contrariando os mais pessimistas que diziam que o Brasil sucumbiria à menor oscilação das compras feitas ao país pela China, os números do comércio exterior brasileiro no mês de novembro guardam uma grata surpresa.
E quem desponta como importante adquirente de produtos do país, compensando variações para baixo das compras chinesas para o final de ano? Os Estados Unidos.
Tradicional parceiro de comércio do Brasil, no mês que passou os EUA aumentaram suas importações do Brasil em mais de 70% em relação ao mesmo mês de 2010. Na comparação com outubro último o acréscimo foi de cerca de 30%.
A novidade está em que não foram os produtos primários que puxaram esse resultado positivo, embora o café tenha mostrado desempenho excepcional de preço com valorização de 40% a saca na mesma base de comparação.
Foram principalmente o petróleo, os aços planos e as máquinas pesadas que lideraram o surpreendente desempenho das exportações e fizeram com que o país americano fosse o terceiro mais importante destino das nossas exportações no mês que passou.
Muitos dirão tratar-se de efeito sazonal, predestinado a desaparecer no futuro próximo. Não parece ser bem assim, já que as vendas aos Estados Unidos responderam não só à melhora acentuada da paridade das moedas dos 2 países senão que à maior integração entre as duas economias ocorrida nos últimos 4 ou 5 anos, motivada pelas aquisições de empresas americanas por grupos brasileiros e pelas maiores inversões de capitais das matrizes de grandes corporações norte-americanas em suas filiais brasileiras.
Prova disso foram as compras gigantescas de aço realizadas no mercado nacional pela ThyssenKrupp de sua parceira Companhia Siderúrgica do Atlântico e as feitas pela Caterpillar de sua filial no país, com o propósito de fazerem face às novas contingências concorrenciais determinadas pelo quadro atual de realinhamento de preços internos daquela economia.
No caso específico de escavadeiras e similares, essas compras fizeram o item máquinário pesado saltar para o 13º lugar da pauta de exportações em novembro, delineando um movimento que pode não ser contínuo mas que deve repetir-se ou até intensificar-se.
O desempenho é de qualquer modo indicativo da resilência das vendas externas do país, capaz de produzir bons resultados apesar das oscilações naturais de uma conjuntura de crise internacional. Situação apenas possível quando a economia mostra-se suficientemente diversificada e apoiada em estrutura de custos competitiva.
Muito há a ser feito, é verdade, em termos de melhoria das condições de custos com que opera a indústria. E a finalização da segunda fase do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento haverá de contribuir para isso. Por enquanto fica o repto lançado pelos dados da balança conercial a economistas choramingas: será que o Brasil precisa da autorização de chineses para poder respirar?

Fonte: Jornal Valor Econômico.

Telespectadores Palhaços: Como a Globo Fraudou as Eleições de 1989



A TV Globo está buscando reciclar-se. Vem aí a comissão da verdade e por mais pífios que  sejam seus resultados, deverão produzir uma revisão da historiografia oficial até agora adiada por grupos que deram força à ditadura militar a pretexto de salvaguardar as relações entre as instituições. Leia-se: setores direitistas da imprensa, do exército e do parlamento.
Mais esperta que o próprio exército, que até hoje fala pela boca do milico canalha e deputado federal Jair Bolsonaro, a Globo prepara uma espécie de “soft landing” ou pouso suave desde sua trajetória de associação com o golpe de 1964 ao solo democrático firme de um país liderado pela ex-prisioneira política Dilma Russef.  
Nesse pretendido movimento de aterrissagem sem solavancos, a Globo deslocou para segundo plano personagens carimbados de seu mais recente passado de insolência política, como Miriam Leitão e Alberto Sardemberg que integrou o governo FHC como secretário de imprensa.  Substituiu o linguajar duro das críticas de partido oposicionista, que não é, por comentários enviesados feitos por caras novas de seu telejornalismo.
Até o quadro da sagrada família a Globo retirou da sala dos brasileiros ao separar o casal 20, com a troca da insossa esposa Fátima Bernardes pela sensual amante Patrícia Poeta. Diga-se, mais patrícia que poeta.
Faz parte também do projeto de reposicionamento da emissora o livro escrito pelo seu ex-diretor de produção, José Bonifácio Sobrinho, o Boni. 

A título de contar sua trajetória de encantador de telespectadores nos anos 80 e 90, o ex homem-forte de Roberto Marinho faz revelações aparentemente bombásticas sobre os bastidores de um dos mais intrigantes episódios da memória das disputas políticas no país: o do debate que travaram Lula e Collor às vésperas das eleições que conduziu esse último, dono da afiliada à Globo no estado de Alagoas, à presidência da República.
Um detalhe que não se encaixava bem no “script” desse reposicionamento da emissora intentado com livro era a informação de que Collor tinha sido preparado para o debate pelo staff da própria TV Globo. Mais grave, por ninguém menos que seu diretor de produção que, segundo as próprias palavras, disse ter instruído Collor “em todos os aspectos formais do debate" e "só não lhe pondo caspas sobre o paletó, como as tinha Jânio Quadros (ex-presidente populista) porque não quis”.
A atitude do ex-diretor pareceu estranha só até alguns dias atrás, quando o atual diretor de telejornalismo da TV Globo, Ali Kamel, veio a público pontuar que a iniciativa do Boni em produzir Collor para aquele debate foi pessoal de Boni e que Roberto Marinho (presidente falecido da emissora) nada teve a ver com isso.
Ficou claro que a intenção velada da emissora com a declaração de Boni era desvincular o fundador das Organizações Globo do acontecimento, circunscrevendo o episódio ao indiscreto informante, o qual, no momento seguinte, haveria de declarar que de fato “Dr. Roberto de nada sabia”.
Mas se até as mentiras de amor tem pernas curtas que dirá então as maquinadas pela vileza. Paulo Henrique Amorim, o corajoso cruzado que tem dedicado sua vida a revelar as conspirações políticas da TV Globo desde que esta foi parida em Nova Iorque em sociedade firmada com o grupo norte-americano de mídia Time Life, mostra o quanto há de ficção nessa versão dos acontecimentos a que se dedicam agora fixar os atuais e os ex-empregados da família Marinho em abono do passado da empresa.
Amorim relata associação de fatos que fez o ex-assessor de imprensa do candidato Lula naquela ocasião, o jornalista Ricardo Kotcho. Conta Kotcho, reproduzido por Amorim, que chegando aos estúdios da TV Bandeirantes onde houve reunião para acertar as regras do debate que aconteceria 2 dias depois na Globo, encontrou nos bastidores a dupla Cláudio Humberto (assessor de imprensa de Collor) e Alberico Cruz, à época diretor de jornalismo da Globo.
Desconfortáveis com o encontro, já que Alberico dava expediente no Rio e não haveria porque estar na Rede Bandeirantes tratando de assuntos organizacionais de um debate e tampouco na companhia de quem estava ,os parceiros trataram de justificar que os dois tinham se encontrado casualmente no avião  quando ele, Alberico, vinha à concorrente tratar de outros assuntos.
Kotcho ficou com a pulga atrás da orelha e com razão. Alberico estava ali por outro motivo.  Como as imagens do debate seriam editadas no dia seguinte em São Paulo mesmo, a presença do chefe atendia a uma missão passada pelo próprio presidente da empresa, que o havia incumbido da tarefa de recortar o vídeo do debate de tal modo que mostrasse “tudo de bom de Collor e tudo de mal do Lula”.
Como se soube disso? Por intermédio de outro personagem que não havia entrado no relato até agora, o editor de política do Jornal Nacional Ronald de Carvalho. Era ele o responsável pelo noticiário eleitoral do principal noticioso da emissora, que contava com mais de 70% de audiência no país.
Naquela altura dos acontecimentos Ronald já havia recebido instruções nesse sentido diretamente do dono da emissora, o patriarca Roberto Marinho, de que preparasse o chefe de edição em São Paulo para o fato de que o diretor de jornalismo Alberico Cruz para lá se deslocaria a fim de comandar pessoalmente os trabalhos de edição do telejornal que iria ao ar.
E foi assim que Alberico Cruz postou-se na manhã seguinte junto aos técnicos Otávio Tostes e Wianey Pinheiro para acompanhar a edição das imagens do debate realizado na véspera. Soube-se ainda que a a montagem não pode ser completada dentro do horário previsto para fechamento do  telejornal, motivo que obrigou Alberico a interferir diretamente para que fosse feita a inclusão.
Como último movimento da trama, acrescentaram ainda à edição do telejornal uma enquete feita por telefone simultaneamente ao debate, em que se avaliava entre os espectadores quem havia vencido o confronto. Coube a Alexandre Garcia, figura a quem reservavam as falas oficiais da emissora, preparar a audiência para a pesquisa que daria Collor na frente.  Cerimonioso disse que na democracia era assim mesmo, “tinham que ser respeitadas as pesquisas”.
Com a transmissão do Jornal Nacional naquela noite Collor venceria as eleições por antecipação, sendo de todo dispensável o pleito que se realizaria no dia seguinte devido a farsa montada e a impossibilidade de resposta da candidatura oponente.  
A história daí para frente todos conhecem: a construção da imagem de Collor como super herói, uma espécie de Hitler pós-moderno, o confisco da poupança pela prima Zélia de Mello e o final feliz do casamento da moça com o principal humorista do canal de televisão, Chico Anísio.
Uma comédia, haverá de registrar a história do século XXI, em que a Rede Globo até hoje não pagou um centavo de cachê aos palhaços dos brasileiros.